Exposição no IMS Paulista reúne mais de 100 fotolivros históricos de mulheres

 

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Com estudo histórico relativamente recente, a história do fotolivro até o momento foi escrita principalmente por homens e se concentrou em publicações de autoria masculina. As mulheres têm contribuído consistentemente para a história do fotolivro, porém suas contribuições são muitas vezes negligenciadas e diminuídas. Foi isso que motivou a 10x10 Photobooks, uma organização sem fins lucrativos, a lançar a exposição “O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999”. A mostra está em cartaz na Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista até o dia 2 de agosto e traça em ordem cronológica 200 anos de história contada a partir de autoras pioneiras que definiram a cultura visual e retrataram a construção do papel feminino.

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"A realidade, como tal, é redefinida pela fotografia", escreveu Susan Sontag, uma das intelectuais mais influentes do século vinte. “O que elas viram” se propõe a revisitar e discutir as perspectivas distorcidas da escrita da história do fotolivro e ressalta a importância das mulheres na construção da fotografia como um campo, contando com obras de autoras de todo o mundo que vão do Brasil, com Claudia Andujar, até o Irã, com Shirin Neshat.

Exibida em instituições de prestígio em todo o mundo, como o Getty Research Institute, em Los Angeles (2025), o Museo Reina Sofía, em Madri (2024), o Rijksmuseum, em Amsterdã (2022) e a New York Public Library (2022), a mostra reúne mais de 100 fotolivros, incluindo títulos recém-incorporados ao acervo da Biblioteca de Fotografia do IMS.

Os exemplares ficam dispostos em um formato de sala de leitura e cobrem obras das pioneiras que produziram em meados do século XIX. O livro que abre a exposição é o da britânica Anna Atkins (1799-1871), considerado o primeiro já publicado na história, o “Sun Gardens: Cyanotypes by Anna Atkins” (Jardins solares: cianotipias de Anna Atkins).

“Sun Gardens: Cyanotypes by Anna Atkins” (Jardins solares: cianotipias de Anna Atkins)

Divulgação IMS

A linha do tempo continua até importantes nomes da cena contemporânea, como a fotonovela "Quem você pensa que ela é?" da brasileira Cláudia Jaguaribe, publicada em 1995, e o livro autointitulado da japonesa Hiromix, publicado em 1998.

A 10x10 Photobooks foi fundada em 2012 pelas curadoras e pesquisadoras da mostra Russet Lederman e Olga Yatskevich com o intuito de compartilhar fotolivros globalmente. O projeto “promove o estudo crítico e o engajamento com o fotolivro, com atenção especial a práticas contemporâneas, publicações negligenciadas e áreas pouco exploradas”.

"Quem você pensa que ela é?" de Cláudia Jaguaribe

Divulgação IMS

Na introdução do catálogo da mostra, Lederman e Yatskevich argumentam que a história dos fotolivros precisa ser "desescrita", pois esta é repleta de omissões. “O que é deixado de fora não é por engano — é indicativo de viés e pesquisa incompleta por parte dos atuais responsáveis ​​pela seleção dos autores. Se quisermos apresentar uma visão mais inclusiva e diversa, devemos primeiro abordar as lacunas e falhas.”

A maioria dos exemplares expostos são naturalmente, por estes serem historicamente grandes produtores de livros, dos Estados Unidos e da Europa. Com uma pesquisa que abrange um recorte internacional, as curadoras não medem esforços para expandir os horizontes.

A mostra já incluía autoras brasileiras, como Andujar, Gretta Sarfaty e Maureen Bisilliat, que publicou o “A João Guimarães Rosa” em homenagem ao "Grande Sertão: Veredas", um clássico do autor, que acompanhou a montagem do fotolivro. Mas, com a ajuda de Miguel Del Castillo, coordenador da biblioteca de fotografia do Instituto, somaram-se livros de Stefania Bril, Ana Mariani, Cláudia Jaguaribe e Vilma Slomp, as últimas duas ainda em atividade.

“A João Guimarães Rosa” de Maureen Bisilliat

Divulgação IMS

— Pensando em adaptar a pesquisa à localidade, o Miguel junto à equipe do IMS sugeriu autoras brasileiras importantes que entraram para compor as sessões — conta Lederman.

— São duas autoras que já faleceram e duas autoras que ainda estão vivas, produzindo, e que, enfim, ajudam a compor um pouco mais esse panorama. Juntos achamos importante destacar esses trabalhos. Poderiam ser muitos outros, que inclusive temos aqui no acervo — explica Del Castillo.

Além disso, a pesquisa rompe com a definição padrão do conceito de um fotolivro — um volume encadernado com ilustrações fotográficas que é publicado pelo autor, por uma editora independente ou por uma editora comercial.

— As mulheres sendo excluídas dos espaços institucionais, o livro surgia como uma possibilidade de experimentação mais livre. Para os tipos tradicionais de fotolivros, as mulheres tinham oportunidades limitadas de serem escolhidas por editoras comerciais e também tinham necessidades financeiras limitadas. O que elas conseguiam fazer era criar álbuns, elas são as criadoras originais de álbuns de recortes. Existe uma longa história de mulheres criando livros únicos e elas conseguiam fazer pequenas coisas que não custavam muito e que não exigiam que os intermediários as aceitassem — explica Yatskevich.

Tanto o IMS quanto a 10x10 Photobooks reforçam o compromisso em pensar o fotolivro como sua própria forma artística e não como um apenas um suporte para imagens.

Fotolivros da exposição “O que elas viram", em cartaz na Biblioteca de Fotografia do IMS Paulista.

Vinícius Dratovsky

"O que elas viram" dá continuidade ao trabalho “How We See: Photobooks by Women” (Como Vemos: Fotolivros de Mulheres) e a publicação associada em 2018, que ​​se concentrou em fotolivros contemporâneos de mulheres e cobriu o período de 2000 a 2018.

— Há muito trabalho a ser feito e sabemos que apenas abrimos uma fresta na porta da história — afirma Lederman.

Catálogo da exposição “O que elas viram: fotolivros históricos de mulheres, 1843-1999”

Divulgação 10x10 Photobooks

“Vemos esta documentação do papel das mulheres na produção, disseminação e autoria de fotolivros como um passo necessário para desconstruir a história atual do fotolivro e reescrever uma história mais equitativa e inclusiva” afirma o texto das curadoras para o catálogo, que recebeu em 2021 o PhotoBook Award de melhor catálogo do ano, prêmio concedido durante a feira Paris Photo.

Após o fim da exposição, em agosto, os exemplares passam a fazer parte do acervo permanente da biblioteca de fotografia do IMS.

Mais da exposição de fotolivros históricos de mulheres no IMS Paulista.

Vinícius Dratovsky