Exposição em nova sede da Pinakotheke Cultural em SP aposta em conceito ampliado de surrealismo para celebrar um século do movimento

 

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Em 1956, num texto para o catálogo da exposição de Maria Martins no Museu de Arte Moderna do Rio, o poeta Murilo Mendes arriscou uma definição de surrealismo, cujo manifesto fundador, redigido pelo francês André Breton, veio à luz em dezembro de 1924. “O surrealismo subsiste justamente como elemento de criação de atmosferas poéticas. Esse é seu forte. E como tal, ele sempre existiu desde o começo do mundo, e continua a dar sua contribuição à temática e ao desenvolvimento de muitas obras de arte”, afirmou o autor mineiro. Esse conceito alargado, que não circunscreve temporalmente o movimento, é o fio condutor da exposição “Surrealismos: arte para além da razão”, que, a partir da próxima segunda-feira, ocupa a nova sede da Pinakotheke Cultural em São Paulo — a galeria se mudou do Morumbi, na Zona Oeste da cidade, para um casarão em Higienópolis, a poucos passos da Avenida Paulista.

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Com curadoria de Max Perlingeiro, diretor geral da Pinakotheke, e Tadeu Chiarelli, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, a mostra reúne mais de uma centena de obras (todas emprestadas por colecionadores brasileiros) de 60 artistas, desde representantes do surrealismo histórico (que vicejou entre as décadas de 1920 e 1940) até nomes que, antes e depois, apostaram na “criação de atmosferas poéticas”, como o italiano Giorgio de Chirico (1888-1978) e o brasileiro Tunga (1952-2016). A exposição é gratuita, permanece em cartaz até 15 de agosto e vem na esteira de uma série de mostras internacionais dedicadas ao centenário do movimento, como “Surréalisme”, produzida pelo Centro Georges Pompidou, de Paris, e que passou por Bruxelas, Hamburgo, Madri e Filadélfia entre 2024 e 2026.

O surrealismo nasceu como um movimento literário que, por meio da escrita automática e da valorização dos sonhos, opunha-se ao “primado da lógica”, como dizia Breton, e dava asas à imaginação. A Santíssima Trindade dos surrealistas era formada por Sigmund Freud, com quem aprenderam a explorar o inconsciente, Karl Marx, que os inspirava a “transformar o mundo”, e Arthur Rimbaud, cuja palavra de ordem era “mudar a vida”. Rapidamente, o movimento respingou nas artes plásticas, e nomes como René Magritte e Salvador Dalí começaram a fazer associações livres com pincel e tinta, colocando na mesma tela objetos sem qualquer ligação lógica e pintando paisagens oníricas.

A nova sede da Pinakotheke Cultural em São Paulo

Maria Isabel Oliveira

— Leonora Carrington (pintora inglesa radicada no México) dizia que o surrealismo não é um movimento, é um estado de espírito — cita Perlingeiro. — Tem coisas que não se explica, como um perfume, uma luz, Veneza e o surrealismo.

‘Além da razão’

Chiarelli define o surrealismo não como uma “estética”, mas como uma “atitude perante o mundo”.

— É por isso que o surrealismo é transformador — afirma o ex-curador-chefe do Museu de Arte Moderna de São Paulo. — O surrealismo é a arte para além da razão, que rejeita a lógica positivista, industrial, e que não está circunscrita a uma época. É um movimento de artistas intelectuais que buscam perspectivas mais amplas no sonho, na evasão, e que transforma o coletivo justamente porque respeita a individualidade.

Obra de Giorgio de Chirico na exposição "Surrealismos: arte para além da razão", na Pinakotheke Cultural, em São Paulo

Maria Isabel Oliveira

A adoção desse conceito dilatado permite que a exposição “Surrealismos: arte para além da razão” desvie de escolhas óbvias (não vá esperando ver telas de Salvador Dalí com relógios derretendo) e inclua trabalhos de artistas cuja verve onírica não é imediatamente associada ao movimento, como Alberto da Veiga Guignard.

A exposição apresenta telas, esculturas, fotografias, vídeos e até joias em três núcleos distintos. O primeiro é dedicado a nomes europeus, como Joan Miró e Pablo Picasso. O segundo destaca artistas latino-americanos, como o mexicano Diego Rivera, o chileno Roberto Matta e os brasileiros Tarsila do Amaral e Flávio de Carvalho. O terceiro coloca em diálogo americanos, como Minnie Evans, e caribenhos, como o haitiano Préfète Duffaut, cujas cores vivas e composição ousada dão uma qualidade fantástica a cenas religiosas. Chiarelli afirma que a proeminência dada à arte latina na mostra ajuda a fortalecer um “ponto de vista menos subserviente”:

— Seria limitante cair naquela esparrela de “Ismael Nery é o nosso Chagal”, “Fulano é no nosso Picasso”, entende?

Esculturas de Maria Martins na exposição "Surrealismos: arte para além da razão", na Pinakotheke Cultural, em São Paulo

Maria Isabel Oliveira

Além dos três núcleos, a exposição reservou espaços separados para os trabalhos de Maria Martins (considerada a única representante brasileira do surrealismo histórico) e a americana Louise Bourgeois, que morreu em 2011, aos 98 anos, e deixou uma obra “toda baseada no sonho”, diz Perlingeiro.

Maria Martins participou da “Exposition Internationale du Surréalisme”, a última grande mostra internacional dedicada ao movimento, organizada em Paris, em 1947, por Breton e Marchel Duchamp. A brasileira foi amante de Duchamp, história resgatada no livro “Impossível”, do historiador americano Francis M. Naumann, que a Pinakotheke lança em agosto. Atacada por críticos como Mário Pedrosa, a obra de Maria Martins vem sendo reavaliada — na quinta-feira passada, uma escultura considerada a primeira versão de “O impossível”, uma de suas peças mais famosas, bateu recorde ao ser vendida por US$ 3,2 milhões num leilão nos Estados Unidos.

A mostra da Pinakotheke apresenta gravuras da artista e esculturas como “À tue-tête” (expressão francesa que pode ser traduzida como “a plenos pulmões”).

A Pinakotheke Cultural foi fundada no Rio, em 1979, e tem unidades em Fortaleza, aberta em 1987, e São Paulo, desde 2002, além de uma editora. Segundo Perlingeiro, a mudança do Morumbi, bairro afastado do Centro, para Higienópolis foi motivada pelo desejo de alcançar mais público.

— Estávamos muito felizes no Morumbi, mas, enquanto nossas exposições no Rio atraem dez mil pessoas, aqui em São Paulo iam só mil. Ou seja, tinha alguma coisa errada. Era o local — diz ele.

Agora, a Pinakotheke está a poucos quarteirões de outros centros culturais de prestígio, como o Instituto de Arte Contemporânea (IAC), o Instituto Moreira Salles (IMS) e o Museu de Arte de São Paulo (Masp). A nova sede é um casarão de quatro andares da década de 1930, época em que Higienópolis abrigava a aristocracia do café. O terreno tem 700m², dos quais 180m² são de área expositiva — quase o dobro do espaço disponível no Morumbi. A casa passou por obras de restauro e modernização comandadas pelo escritório Luciano Dalla Marta Arquitetura.

Na área externa, funcionarão um café e uma livraria, onde serão disponibilizados títulos da Pinakotheke Edições e da 100/cabeças, editora que ostenta um punhado de títulos surrealistas no catálogo, como “Uma vaga de sonhos”, de Louis Aragon, e o manifesto de 1924. Publicado pela própria Pinakotheke, o catálogo da mostra é bilíngue (português e inglês), fartamente ilustrado e inclui textos de Perlingeiro, Chiarelli, da professora de história da arte britânica Dawn Adès, do psicanalista João Frayze-Pereira e do pesquisador Thiago Gil Virava.

Café especial

Em parceria com a Pinakotheke, o Orfeu Cafés Especiais lançou um microlote especial para celebrar o centenário do surrealismo e a exposição. Os pacotes de 250 gramas custam R$ 45,50 e estão disponíveis no site da galeria. Se Murilo Mendes tinha razão ao dizer que a essência do movimento era a “criação de atmosferas poéticas”, talvez um café da variedade catucaí, que se destaca pelo aroma, pela doçura e pela acidez cítrica, também possa ser uma obra surrealista.