Exportações brasileiras sobem apesar de tarifaço, mas cenário externo é de instabilidade

 

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O Brasil deve enfrentar um cenário internacional ainda mais difícil e imprevisível neste ano. Além da política tarifária mais agressiva dos Estados Unidos e da adoção de medidas protecionistas por vários países, o conflito envolvendo o Irã adiciona um novo elemento de instabilidade ao comércio internacional. Ainda assim, especialistas acreditam que o país pode se sair relativamente melhor do que outros exportadores, embora não haja consenso sobre a manutenção do ritmo de crescimento das vendas externas observado em 2025.

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Até agora, porém, os números de 2026 têm sido positivos. Até a terceira semana de fevereiro, a média diária de exportações brasileiras avançou 14,5% em relação ao mesmo período do ano passado, enquanto as importações se mantiveram no mesmo nível.

O saldo da balança no período chegou a US$ 7,2 bilhões. O desempenho vem na esteira do crescimento de 3,5% das vendas para o exterior em 2025, que fecharam o ano em US$ 348,7 bilhões — com superávit de US$ 68,3 bilhões, diante de importações de US$ 280,4 bilhões.

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Para o resultado do acumulado do ano, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) projeta vendas entre US$ 340 bilhões e US$ 380 bilhões e importações entre US$ 270 bilhões e US$ 290 bilhões. Os números indicam um crescimento do superávit da balança para algo entre US$ 70 bilhões e US$ 90 bilhões.

A expectativa do mercado e de analistas independentes é mais conservadora. A Tendências Consultoria trabalha com uma queda tanto nas exportações, para US$ 330,6 bilhões, como nas importações, para US$ 268,4 bilhões.

— Há uma perda de dinamismo das exportações, principalmente pelo lado do agro, que não deve crescer tanto quanto cresceu no ano passado, além de importações menores devido ao esfriamento da economia — argumenta Alessandra Ribeiro, diretora de Macroeconomia e Análise Setorial da consultoria.

Mais protecionismo

Na avaliação de Welber Barral, sócio da BMJ e ex-secretário de Comércio Exterior, o mundo se tornou mais desafiador para o comércio internacional.

— Desde a crise de 2008, mas principalmente depois da pandemia, houve um aumento grande de protecionismo no mundo — argumenta. — Isso acelerou muito com o governo Trump.

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Sobre o Brasil especificamente, Barral cita como exemplos a imposição de cotas pela China, a elevação de tarifas pelo México e barreiras impostas pela União Europeia.

Para Abrão Neto, presidente da Amcham (Câmara Americana de Comércio), o quadro amplia as dificuldades de um país como o Brasil, que já enfrenta desafios estruturais de competitividade. Por outro lado, ele vê oportunidades no movimento de redução de riscos e busca pela diversificação de fornecedores para países capazes de oferecer escala e confiabilidade:

— O Brasil pode se beneficiar se souber se posicionar com inteligência e agilidade, bem como se focar na melhoria das condições de produção e exportação a partir do país.

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Nesse contexto, os analistas avaliam como correta a estratégia do Brasil de buscar a diversificação de parceiros comerciais com acordos no âmbito do Mercosul.

— A gente teve uma evolução com o acordo Mercosul e União Europeia. Agora, estamos indo na direção do acordo com a Coreia do Sul. Provavelmente vamos caminhar com o Canadá e o Japão — afirma Ribeiro.

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No lado das oportunidades para o país, o destaque deve ser a entrada em vigor, ainda que de maneira provisória, do acordo entre o Mercosul e a União Europeia visto por analistas como a principal vitória dessa estratégia. O governo brasileiro, contam pessoas próximas às negociações, espera que as primeiras reduções de tarifas comecem a valer a partir de maio.

— É um dos acordos mais importantes do mundo. Pelo tamanho dos dois mercados, com certeza já vai ter impacto neste ano — afirma Barral.

A princípio, os setores que tendem a se beneficiar mais rapidamente são aqueles cujas cadeias de fornecimento já estão estabelecidas e nos quais o Brasil é mais competitivo, como o agronegócio, petróleo e derivados e mineração.

— Indústria, máquinas, equipamentos, farmacêutico são alguns setores que têm mais desafios — argumenta Ribeiro.

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Entre as incertezas no horizonte, estão as tarifas americanas e o impacto da guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel. O Brasil é um dos maiores beneficiados pela decisão da Suprema Corte americana, que derrubou as tarifas adicionais de 40% impostas por Trump ao país em agosto. Por conta dessa medida, no ano passado, as exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram 6,6% em valor.

— Nossas estimativas indicam que o Brasil saiu de um cenário em que mais de um terço de suas vendas estava sujeito a sobretaxas elevadas (40% ou 50%) para uma situação em que a maior parte de suas exportações não enfrenta sobretaxa ou está sujeita a tarifas adicionais de até 10% — diz Abrão.

Risco de novas tarifas

Segundo ele, isso representa alívio relevante para cerca de US$ 14,6 bilhões de exportações brasileiras, especialmente de bens industriais.

Apesar disso, o Brasil ainda pode ser penalizado pela investigação com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, que autoriza o governo a retaliar práticas adotadas por outros países e consideradas injustas. Dependendo do desfecho, o país pode sofrer novas tarifas ou enfrentar barreiras não tarifárias. O assunto deve ser objeto da reunião entre Lula e Trump, prevista para este mês em Washington.

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A guerra no Irã também preocupa. Segundo Alessandra Ribeiro, há dois riscos principais para o Brasil. O primeiro é uma importação de custos pelo eventual encarecimento dos fertilizantes, com impacto no preço dos produtos do agronegócio — principal item da pauta de exportação brasileira.

Depois, o agravamento do conflito leve a uma revisão da expectativa de crescimento global para baixo, o que tende a deprimir o preço das commodities. De outro lado, o país pode se beneficiar da alta do preço do petróleo e derivados, que contribuíram com US$ 29,6 bilhões para o superávit da balança em 2025.

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Quaisquer que sejam os números finais, o Brasil manterá uma participação relativamente pequena no comércio mundial. Na avaliação do ex-embaixador em Washington Rubens Barbosa, a situação reflete, entre outros fatores, um desequilíbrio interno da economia do país:

— Você tem hoje um problema no comércio exterior, que é a indústria.

Para ele, falta ao país um plano estratégico de médio e longo prazos que enfrente os gargalos de infraestrutura e regulação que afetam a competitividade da indústria.