Exótico e letal: Veneno encontrado em opositor russo é produzido por rã de 2,5 cm e foi usado para caça por povos originários

 

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Povos ancestrais da região Amazônica incorporaram uma arma química a suas técnicas de caça há séculos. Agora, essa mesma substância está no centro de uma investigação sobre um assassinato de alto-perfil na Sibéria. Cinco países europeus denunciaram neste sábado que o opositor russo Alexei Navalny, morto em 2024 sob custódia do sistema prisional russo, foi executado com o uso da toxina epibatidina, presente na pele de rãs-flecha — espécie nativa da América do Sul. A substância foi encontrada em amostras submetidas a exames laboratoriais.

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As rã-flechas formam um grupo de anfíbios que compõe a família dos dendrobatídeos. Reconhecidas por suas cores fortes e vibrantes, elas excretam através da pele um veneno poderoso como forma de defesa contra predadores, mas que há anos é usada por povos originários para auxiliar na caça. Etnias como os povos emberá, da Colômbia, extraiam o veneno para embeber dardos, que posteriormente eram disparados a partir de zarabatanas.

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A avaliação de que Navalny não foi atingido por nenhum dardo emberé ou teve contato direto com uma rã-flecha em sua cela no Ártico — região cujo clima polar é incompatível com a vida desses pequenos anfíbios de sangue-frio, que costumam ter de 2,5 cm a 5 cm, naturais das florestas tropicais das Américas Centra e do Sul — fez com que Alemanha, França, Holanda, Reino Unido e Suécia afirmassem neste sábado que a toxina letal foi empregada de forma proposital, pelo Estado russo.

"Sabemos que o Estado russo usou essa toxina letal para atingir Navalny por medo de sua oposição", disseram os países em um comunicado conjunto apresentado neste sábado. "Apenas o Estado russo tinha os meios, um motivo e a oportunidade de utilizar essa toxina letal para atacar Navalny durante sua prisão em uma colônia penal russa na Sibéria, e o consideramos responsável por sua morte".

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Alexander NEMENOV / AFP

O veneno proveniente da espécie é estudado por pesquisadores ocidentais desde os anos 1970, e foi descoberto que o coquetel de substâncias presentes em sua composição tem um efeito similar ao de opióides. Algumas pesquisas apontam que apenas um indivíduo adulto de rã-flecha possui veneno suficiente para matar dez humanos adultos. Sintetizada em laboratório, a substância também produz analgésicos potentes.

Os pesquisadores descobriram, porém, que o veneno não é produzido pelas próprias rãs — ao menos não de forma independente. Quando as primeiras pesquisas foram realizadas, ainda na década de 70, percebeu-se que indivíduos retirados do habitat natural não tinham mais veneno. A conclusão foi de que a produção dependia da metabolização por esses animais das formigas dos quais se alimentam, que por sua vez ingerem plantas tóxicas.

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A identificação da toxina em Navalny fez com que os países europeus que anunciaram a descoberta denunciassem a Rússia perante a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

Navalny já havia sido envenenado anteriormente com o agente nervoso Novichok em 2020, enquanto fazia campanha na Sibéria. Na época, ele foi levado para a Alemanha, onde passou meses em tratamento. O carismático ativista anticorrupção mobilizou centenas de milhares de pessoas em toda a Rússia em protestos contra o Kremlin. (Com AFP)