Exercícios possíveis: a nova estética de um corpo em movimento

 

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Por muito tempo, o universo fitness girou em torno da intensidade, da performance e da transformação acelerada do corpo. Agora, uma nova relação com o movimento começa a despontar entre jovens adultos. Sem abandonar o exercício, cresce o interesse por práticas que acompanham a vida real, respeitando limites físicos e rotina.

O objetivo deixa de ser apenas alcançar um resultado rápido para construir uma relação duradoura com o movimento.

— As pessoas estão descobrindo que o melhor treino é aquele que se consegue manter ao longo da vida — afirma o nutrólogo e médico do esporte Eduardo Rauen.

Segundo ele, o cansaço diante dos padrões irreais de corpo e performance difundidos nas redes sociais ajudou a acelerar essa mudança.

Entre jovens adultos, a transformação também surge como reação à lógica da hiperperformance que dominou comportamento, estética e rotina nos últimos anos.

— As pessoas estão percebendo que saúde não se constrói em oito semanas, mas em oito décadas — diz.

Aqui, a constância se torna mais importante do que picos temporários de esforço.

— Quem se movimenta de forma consistente, mesmo em intensidade moderada, tem menos risco cardiovascular e metabólico e mais qualidade de vida do que quem faz treinos extremos por alguns meses e abandona depois. A constância cria adaptação, protege o corpo e permite que o exercício continue fazendo parte da vida mesmo em fases mais estressantes — afirma o nutrólogo.

Parte dessa transformação passa pela tentativa de encaixar o movimento na vida cotidiana sem transformar o exercício em mais uma fonte de exaustão.

Ao lado dos treinos tradicionais, cresce o interesse por caminhadas curtas ao longo do dia e por práticas de mobilidade incorporadas à rotina.

Para o preparador físico José Rubens D'Elia, essa mudança revela uma relação mais consciente com o próprio corpo.

— As pessoas estão buscando saúde e qualidade de vida, principalmente quem já vive uma rotina muito estressante — diz.

Pequenas adaptações já produzem impacto importante no longo prazo.

— Muitas vezes, orientamos trocar parte do caminho que fazemos de carro por deslocamentos a pé. Trinta minutos de movimento por dia já fazem toda a diferença — afirma o treinador.

Ferramenta de saúde

A corrida talvez seja um dos melhores exemplos dessa mudança de mentalidade. Durante décadas associada apenas à performance, à velocidade e à competição, ela passou a ocupar também um espaço ligado ao bem-estar emocional, à sociabilidade e à saúde mental.

— Muita gente está descobrindo a prática como ferramenta de saúde mental, espaço de sociabilidade e momento de conexão consigo mesmo. Isso desmonta uma das principais barreiras da atividade física: o medo de não ser bom o suficiente — afirma Eduardo.

Correr em intensidade moderada pode oferecer benefícios cardiovasculares e hormonais semelhantes aos de treinos mais agressivos, mas com menor desgaste físico e psicológico.

— Esse redimensionamento do objetivo, da performance para o bem-estar, é o que cria uma relação duradoura com a prática — afirma.

No centro dessa transformação aparece também uma revisão importante da própria ideia de corpo saudável. Cresce hoje a valorização de atributos menos visíveis, mas fundamentais para o envelhecimento: mobilidade, massa muscular, resistência cardiovascular, equilíbrio e autonomia física.

— O que vai fazer diferença lá na frente não é o shape que você teve aos 20 anos. É a massa muscular que você preservou, a mobilidade que manteve e a capacidade cardiovascular que sustentou — aponta o nutrólogo.

A chave para isso é fazer do movimento um hábito cotidiano.

— Atividade física é como escovar os dentes. Não dá para passar a vida inteira sem fazer e querer recuperar depois — observa José Rubens.

A velha lógica do “no pain, no gain” — expressão em inglês que significa algo como “sem dor, sem ganho” — começa aos poucos a perder espaço para a ideia de que o melhor exercício talvez seja aquele que cabe na vida real: um treino possível, sustentável e capaz de acompanhar o corpo ao longo das diferentes fases da vida.

— A vida não é um sprint. É uma maratona — resume Eduardo.

Eduardo Rauen, nutrólogo e médico do esporte

Arquivo pessoal

“As pessoas estão percebendo que saúde não se constrói em oito semanas, mas em oito décadas”

Pequenas mudanças que fazem diferença

Incorporar movimento ao cotidiano pode ser mais eficaz do que depender apenas de treinos intensos e esporádicos. Especialistas indicam estratégias simples para manter o corpo ativo ao longo da vida:

Caminhar parte dos trajetos do dia, sempre que possível;

Intercalar períodos longos sentado com pequenas pausas de mobilidade;

Priorizar atividades prazerosas, que aumentem a chance de continuidade;

Manter ao menos 30 minutos diários de atividade moderada;

Variar estímulos entre resistência cardiovascular, força e mobilidade.

Mais do que intensidade, a chave para a saúde está na regularidade.