EXCLUSIVO: Amiga de Lulinha conseguiu reunião com número 2 da Saúde em três dias após ajuda de Marcola - QTU Questões do Universo

EXCLUSIVO: Amiga de Lulinha conseguiu reunião com número 2 da Saúde em três dias após ajuda de Marcola

Fonte: Bandeira da fonte

Empresária Roberta Luchsinger, amiga de Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula
Reprodução/Instagram - Roberta Luchsinger
Trocas de mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) entre a empresária Roberta Luchsinger e o então chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, mostram que em 2023 o auxiliar de Lula a ajudou a marcar em três dias uma reunião com o número 2 do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, que ocupa desde março de 2025 o cargo de chefe de gabinete adjunto da Presidência da República.

Os diálogos também mostram que Marcola comemorou a reunião e acompanhou as tentativas da empresária, que é amiga do filho do presidente Lula Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e é investigada pela PF por suposto tráfico de influência, de buscar um contrato junto ao Ministério da Saúde.
Segundo o material, a lobista se apresentou como “amiga do Marcola” para o então secretário-executivo da pasta, que já havia sido avisado antes por Marcola que ela o procuraria.

O Valor teve acesso a trechos das conversas que fazem parte do inquérito para investigar a suspeita de tráfico de influência de Roberta e Lulinha junto ao Ministério da Saúde.
Apesar de eles não terem obtido sucesso na tentativa de emplacar um contrato de venda de canabidiol para a pasta, a PF quer avançar na investigação sobre as relações entre os personagens e as tratativas que eles fizeram junto ao governo.

O material analisado pela PF indica que Marcola teria passado o telefone direto de Berger para Roberta e também teria acompanhado as tentativas dela de levar a discussão sobre venda de canabidiol ao governo em mais de uma ocasião.

Em 19 de setembro de 2023, Roberta encaminhou uma mensagem de WhatsApp direto para Berger.

“Boa tarde, secretário, tudo bem? Aqui é Roberta Luchsinger, amiga do Marcola.
Ele me passou seu contato.
Quinta agora estarei em Brasília.
Se o sr.
puder, poderíamos tomar um café.
Senão marcamos na melhor data para você.
Obrigada, beijos”, enviou Roberta às 15h52min.

Às 15h54 o secretário-executivo da Saúde responde:
“Boa tarde, Roberta, tudo bem? Marcola me disse que ligaria.
Minha secretária Mara, cujo número compartilho com você, vai acertar a agenda ok? Abraços”.

As 16h18 Roberta responde: “Tudo bem, obrigada”.
Contato com Marcola

Em paralelo a essa conversa, a empresária estava em contato com Marcola no WhatsApp e, às 19h do mesmo dia, mandou um “print” para ele e avisou que estava falando com a secretária de Berger.
Marcola respondeu com “muito bom”.

Três dias depois, em 21 de setembro de 2023, Roberta manda mensagem para Marcola avisando que encontraria Berger às 15h30 e, depois da reunião, comenta que ele havia sido “super solícito”.

“Oi saí agora do Berger.
Falei um pouco dos sistemas.
Ele foi super solícito.
Mas não aprofundei.
Como era um encaixe, eu não quis aprofundar, daí farei minha lição de casa e conversarei com você.
Mas ele foi muito legal mesmo.
Obrigada, teremos coisa ali pra fazer”, afirmou Roberta a Marcola às 16h21 do dia 21.

Às 16h37 o então chefe de gabinete de Lula responde: “Que bom”, ao que Roberta comenta na sequência que iria contar a ele melhor “pessoalmente”.
Para a PF, as mensagens teriam se dado no contexto das tentativas de Roberta Luchsinger de emplacar o contrato de fornecimento de canabidiol para o SUS.

A PF menciona no relatório ainda outros diálogos ocorridos já em 2024, nos quais Roberta segue tratando com Marcola sobre suas conversas com Berger e seu interesse no canabidiol.
As investigações da corporação apontam que o grupo de Roberta e Lulinha agiu para tentar emplacar um contrato de fornecimento de canabidiol para a empresa World Cannabis, do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”.
O negócio nunca se concretizou.
Mas a PF identificou que o Careca do INSS pagou R$ 1,5 milhão à consultoria de Roberta para supostamente tentar emplacar o contrato de canabidiol junto ao governo federal.

Em 15 de fevereiro de 2024, Roberta avisa a Marcola: “E tudo bem aí? Semana que vem to de volta rsrs.
Boas notícias daqui tá”, enviou ela às 11h15.
Marcola, novamente, comemora: “Show.
Que legal! Por aqui trabalhando muito!”, respondeu às 12h08.

Na sequência, Roberta insiste no assunto do canabidiol e supostamente cita o filho do presidente.
“Fábio e eu fomos ver aquela situação pra organizar.
Escuta, tem que marcar com Berger né.
Negócio do canabidiol”, afirmou a empresária.

Em 22 de março, Roberta encaminhou um organograma da estrutura do Ministério da Saúde, com marcações de estrelas vermelhas e azuis em algumas áreas específicas da pasta, e também enviou uma norma técnica do ministério.
No mesmo dia, Marcola avisou a ela que Berger não poderia almoçar com ele.

“Berger pediu para informar que tá cheio de coisa lá e podemos deixar almoço pra semana que vem”, disse Marcola.

“Então pronto né rsrs.
Combinado.
Pede pra ele dar um las (sic) no canabidiol”, ao que Marcola responde “blz”.

No mesmo dia, Roberta ainda encaminhou um áudio explicando o organograma que havia repassado a Marcola: “Ó, até anotei o caminho que tem que ser seguido pra ele entender.
Pra nós é rápido, importante.
Pede ele essa atenção.
Marcola responde “com certeza”.

Na sequência da conversa, eles combinam um almoço na terça-feira seguinte e Marcola indica que iria tratar diretamente do assunto com Berger.
“Então, terça nosso almoço, só nós pelo amor.
Eu, você e Berge”, disse Roberta.
“Blz (sic), daí a gente conversa com ele.
Até lá falarei com ele sozinho também”, respondeu Marcola às 15h09.

Entre fevereiro e novembro de 2024, Marcola teve várias despesas pessoais, incluindo gastos de cartão de crédito e a compra de jóias, bancados por Roberta, no valor total de R$ 217 mil.
Após os pagamentos virem à tona, Marcola divulgou nota afirmando ter tomado um empréstimo com ela e que tudo foi pago de volta com juros e correção monetária, no valor de R$ 249 mil.
PF vê 'interlocução de interesses privados'

Para a PF, estes e outros diálogos reunidos em mais de 300 páginas de relatório expõem como a empresária atuava junto com o filho do presidente Lula para busca “à interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da Administração Pública Federal".

Em nota divulgada por sua defesa, Marco Aurélio Santana Ribeiro afirmou que "jamais intermediou negociações ou encaminhou qualquer documento referente a compras ou licitações no âmbito do Ministério da Saúde, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou de qualquer outro órgão do governo federal".
A defesa de Lulinha afirmou que não pode atestar se as mensagens são verdadeiras e se a cadeia de custódia do material foi preservada.
"Não temos informações sobre a cadeia de custódia dessa prova, se ela está íntegra.
Fabio Luís Lula da Silva também reafirma que não tem relação com os negócios empreendidos pela empresária Roberta Luchsinger e que fala somente por sí", afirmou o advogado Marco Aurélio Carvalho.

As defesas de Roberta Luhcsinger e Antônio Carlos Camilo Antunes não quiseram se manifestar.
A reportagem tentou contato com Swedenberger Barbosa por telefone e mensagem desde ontem à noite, mas não obteve nenhum retorno.
Diferente de Marcola, ele segue ocupando cargo no gabinete de Lula, função que ocupa desde março do ano passado.
Procurado, o Ministério da Saúde ainda não se manifestou e, em ocasiões anteriores, a pasta informou que “nunca houve possibilidade de compra de canabidiol” pelo ministério.