‘Excesso de confiança’ levou pessoa física a elevar aposta no ‘trade Flávio’

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Fonte da notícia: Valor Valor

Investidores que se fiaram na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL) na eleição à presidência amargaram perdas não só em posições direcionais em ações no mercado à vista ou na renda fixa, mas também em derivativos. Com receio de “ficar de fora” da onda do institucional e dos estrangeiros, que montaram estratégias com opções no EWZ - fundo de índice negociado em bolsa (ETF) que emula o Ibovespa em dólar -, a pessoa física buscou alternativas nas mesas de operações locais.

Não foi um posicionamento generalizado, já que o público de varejo está majoritariamente na renda fixa pós-fixada, e sim restrito a investidores que costumam se arriscar em operações de curtíssimo prazo, segundo especialistas em investimentos. Mas quem se deixou levar pelo lado passional se machucou com a reação dos ativos no dia seguinte à reeleição o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Quem dormiu na sexta-feira, 23, comprado no minicontrato de Ibovespa futuro, por exemplo, acordou na segunda-feira, 26, com a conta na corretora no vermelho, porque já na abertura havia um “gap” de baixa de 30%. No fim do dia, um único contrato custou R$ 6 mil, e se o investidor multiplicou a exposição em algumas vezes, maior foi tombo, diz o analista de bolsa Fábio Ferron.

E, com o sistema automático de zeragem das plataformas de investimentos, o prejuízo pode ter sido amplificado. “O mercado inteiro estava acreditando na vitória do Flávio Bolsonaro.

Muitas pessoas se posicionaram em derivativos, em contratos de índice na sexta-feira, acreditando que na segunda-feira a bolsa ia ter uma explosão direcional para cima, igual foi no primeiro turno”, diz Ferron. Ele afirma conhecer quem tenha perdido de R$ 50 mil a R$ 400 mil porque se animou antes da hora e se posicionou “como se fosse uma aposta mesmo”.

Houve operações mais complexas, como a compra de “calls fora do dinheiro” (opções cujo preço de exercício era maior que o corrente) de Ibovespa e ações, apostando em uma forte valorização com a mudança do cenário político. Aqueles que usaram travas de alta, com posições na ponta contrária, puderam reduzir o custo das operações, descreve Nilson Marcelo, analista quantitativo da TopGrafx.

Ele suspeita que parte do varejo tenha comprado esses contratos já com um prêmio elevado. E se houve concentração em posições de curtíssimo prazo, que expiraram sem valor, o investidor deixou 100% do prêmio pago na mesa.

“Se a operação foi feita em grande escala, as perdas agregadas podem ter sido bastante relevantes”, diz. Nas compras simples de opções, “a seco”, como se diz no jargão do mercado, o risco ficou limitado ao capital.

Mas se houve estruturas vendidas ou alavancadas, o prejuízo foi maior, diz Marcelo. Executivo de uma corretora que trabalha com o público institucional relata que algumas operações estruturadas de renda fixa também podem ter chegado ao público de varejo.

O que chamou a atenção de alguns participantes, diz, foram compras em bloco de títulos públicos longos, que teriam sido repassados ao investidor como uma operação estruturada que na prática representava uma letra do Tesouro Nacional (LTN, prefixada) sintética, sem cupom de juros semestrais.

O investidor que porventura topou esse tipo de estratégia “ficou exposto em cheio à abertura [alta] da curva de juros depois da eleição”, diz esse interlocutor. Quem estava mais exposto à renda variável claramente sentiu os efeitos adversos do trade eleitoral.

O resultado foi um choque, mas os investidores com esse perfil estavam conscientes do risco, diz Marcelo Cincão, coCEO da Ável Investimentos. Segundo o executivo, no grupo não observou muita operação montada com opções porque o prêmio estava muito elevado.

“Embora houvesse apetite para a aposta de um lado e de outro, o custo estava impeditivo”, afirma. “O que mais foi feito entre o primeiro e segundo turnos foram algumas posições em NTN-B [notas do Tesouro Nacional atreladas ao IPCA]”, acrescenta Cincão.

O que ele observou também foi um maior viés para investir na renda fixa no exterior, com as taxas do Treasuries (títulos do Tesouro americano) de dez anos superando os 5%, algo que não se via há quase duas décadas. Mesmo que se confirmasse o trade pró-Flávio, as movimentações que levaram os preços às alturas eram extremamente otimistas, afirma Roberto Varaschin, cofundador e sócio-diretor da EQI Investimentos.

“Houve um excesso de ânimo, de confiança em relação ao futuro, que podia não se confirmar. A correção foi em cima dos exageros das posições após o primeiro turno.”

Com uma base de R$ 60 bilhões em ativos de clientes, a carteira de renda variável dentro da corretora é relativamente pequena, de cerca de R$ 3 bilhões, conta Varaschin. “A exposição do cliente já era muito pequena dado o cenário antes da eleição [de juros elevados], mas uma pequena parcela se animou [com a bolsa].

Quem se posicionou se machucou.” No geral, ele diz que o investidor do varejo de alta renda e o cliente empresarial tiveram uma postura “bastante tranquila”, longe de reverberar as reações nervosas do público institucional.

“O sentimento é que esse investidor já está acostumado com o Brasil do jeito que é”, diz, principalmente em ciclos eleitorais. E Lula eleito significa continuidade.

O efeito colateral é que aumentou a procura por oportunidades em renda variável e em títulos públicos prefixados e indexados à inflação no Tesouro Direto. A EQI tem desencorajado, contudo, a alocação em ativos de crédito, porque com os juros elevados por mais tempo, o cenário para dívidas corporativas pode ser ainda mais problemático em 2027.

“Tem muita recuperação judicial e as companhias vão enfrentar uma maior dificuldade de rolar dívidas.” A deterioração de curto prazo acendeu o alerta para ficar mais cauteloso, mas Varaschin lembra que o Brasil, independentemente do governo, tem boas empresas na bolsa e traz oportunidades.

Depende da disposição a risco. O movimento da bolsa após o desfecho eleitoral “foi violento” porque o posicionamento técnico do mercado era para a alternância de poder, diz Leonardo Morales, sócio e diretor da SVN Gestão de Recursos.

Nas carteiras dos clientes, ele diz que o posicionamento foi reduzido entre o primeiro e segundo turnos, mais por disciplina do que por considerar que o resultado da eleição seria diferente. “Nem na [pandemia de] covid, em 2020, nem em 2008 [na crise engatilhada pela quebra do banco americano Lehman Brothers], eu vi algo assim, com papéis caindo 50%, 60% no dia seguinte, mais de oito desvios padrões, obviamente tinha muita gente alavancada”, diz Morales.

A Empiricus, empresa de análise do BTG Pactual, evitou recomendar estratégias unidirecionais no trade Flávio porque o próprio banqueiro André Esteves dizia que a eleição seria 51% a 49%, só não sabia para quem, diz Rodolfo Amstalden, CEO da companhia. “Montamos estratégias para todo gosto e as que funcionaram melhor têm a ver com assimetria [de preços].

Quem seguiu as recomendações de maneira holística, sem fazer escolhas por questões ideológicas, ganhou bastante dinheiro”, diz Amstalden. “O maior risco, por mais que a probabilidade tenha aumentado pós-primeiro turno, era tentar ganhar com alguma certeza.”

Ele ainda vê um gap educacional para que o investidor tome decisões dentro da distribuição de probabilidades. “Tem que fazer um exercício de humildade, saber que você não conhece a realidade até que ela se manifesta.

Tem aqueles que entendem e outros que investem com torcida”, diz o CEO da Empiricus. Acontece com a pessoa física e até com o investidor profissional, o gestor de recursos.

“São humanos, por mais que tentem disfarçar”, brinca. No intervalo entre o primeiro e segundo turnos, o investidor buscou aumentar a alocação por FOMO (“fear of missing out”, o medo de perder algo) no caso de uma mudança de governo que não aconteceu, diz Filipe Medeiro, CEO da AAWZ, que atua na consultoria e retaguarda operacional de assessorias de investimentos.

“Mas o mercado já tinha subido muito no primeiro turno, o potencial de ganho era menor do que o de perda com a vitória do Lula”, afirma. O executivo tem defendido a adoção do modelo fiduciário na distribuição de investimentos, em que o cliente é que paga pelo serviço, em vez de receber comissões por produtos vendidos.

“É o único modelo capaz de em momentos como esse falar para o cliente não comprar nenhum produto e ficar parado.”

Publicação Original Valor valor.globo.com
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