Durante a pandemia, Ulrich Siegmund, um deputado estadual alemão pouco conhecido e ex-vendedor de aromatizadores de ambiente, com um jeito animado e um sorriso fotogênico, começou a criticar as medidas de combate o coronavírus no TikTok. Reclamando de máscaras, vacinas e outras exigências governamentais que considerava "absurdas", o deputado atraiu milhões de visualizações com seus vídeos, usando um tom afável para transmitir uma mensagem anti-establishment. Contexto: Extrema direita tem ampla vantagem em eleição regional, apontam pesquisas de boca de urna Quer morar fora? Veja guia interativo que reúne informações sobre 36 países Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Principal liderança do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) na Saxônia-Anhalt, região do leste do país, Siegmund demonstrou a dimensão de sua popularidade no domingo, quando a legenda foi a mais votada nas eleições regionais — com a possibilidade de levar um governo de extrema direita ao comando do Executivo pela primeira vez desde o fim da era nazista, em 1945.
Para o establishment político de Berlim, o AfD é um pária. A agência de inteligência interna o classificou como "suspeito de extremismo", acusação que o partido rejeita como politicamente motivada. Vários de seus líderes são próximos da Rússia, e alguns fizeram comentários velados sobre a era nazista, inclusive minimizando o Holocausto e repetindo slogans nazistas. O próprio Siegmund afirmou, em uma entrevista em podcast para o site americano Politico, que não "pretende julgar" se o Holocausto foi o pior crime da humanidade, "porque não consigo compreender a totalidade da história humana". Ele também se recusou a condenar os apoiadores que entoavam seu sobrenome no estilo da saudação nazista, "Sieg Heil". Ainda assim, ele conquistou eleitores na Saxônia-Anhalt, segundo especialistas, por sua capacidade de apresentar as políticas linha-dura do partido em um tom mais acessível e otimista do que muitos de seus colegas, sem se distanciar dos extremistas. Além da deportação de imigrantes, o partido propôs cortes no financiamento de emissoras públicas, a proibição de bandeiras do orgulho gay nas escolas e o ensino de mais russo, bem como isenções fiscais para famílias numerosas e creches gratuitas. Ulrich Siegmund fala com a imprensa após votar nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt AFP Para o professor Steffen Mau, um sociólogo renomado da Universidade Humboldt de Berlim, essa afabilidade o tornou mais aceitável para eleitores, além de sua base de extrema-direita. — Ele é uma tela na qual as pessoas podem projetar algum tipo de promessa para o futuro — afirmou o professor.
Muitos políticos tradicionais, que afirmaram que Siegmund e o AfD são perigosos, também consideram suas propostas irrealistas.
— Sempre que o assunto se volta para a essência, quando as pessoas realmente perguntam como você pretende impulsionar o desenvolvimento econômico do nosso país, você simplesmente desaparece — disse Sven Schulze, o então governador da Saxônia-Anhalt, ao Siegmund durante um debate televisionado no mês passado. Morar na Alemanha: veja salários, custo de vida e o cartão que deixa o brasileiro procurar emprego por um ano no país De aromatizadores de ambiente à política Nascido em 1990, semanas após a reunificação da Alemanha Oriental e Ocidental, Siegmund cresceu na pitoresca cidade medieval de Tangermünde, no leste do país. Criado no leste, ele atingiu a maioridade em meio ao crescente ressentimento sobre como a reunificação afetou sua região natal. A economia, as taxas de emprego e a população do leste declinaram após 1990, levando muitos alemães orientais a se sentirem excluídos na nova Alemanha. Foi um sentimento de injustiça que o AfD exploraria posteriormente, particularmente na Saxônia-Anhalt, onde a taxa de desemprego de aproximadamente 8% está bem acima da média nacional. Aos 20 anos, Siegmund trabalhou como gerente de contas em uma empresa de serviços de saúde antes de abrir seu próprio negócio em Berlim, vendendo aromatizantes de ambiente. Ele se filiou à União Democrata Cristã, um partido conservador tradicional que atualmente lidera a coalizão governamental nacional. Mas ele logo se cansou das estruturas rígidas de liderança do partido, como já declarou em entrevistas anteriores à imprensa, e ingressou no AfD em 2014. Ele afirmou que se sentiu atraído pelo AfD porque o partido se opunha ao que ele considerava as políticas autoritárias do governo nacional em Berlim. Candidatura à Assembleia Legislativa estadual Após a mudança para um discurso anti-imigração, Siegmund candidatou-se à Assembleia Legislativa estadual pelo partido em 2016. Ele conquistou uma cadeira, com o partido AfD obtendo 24% dos votos no estado, aproveitando-se das crescentes preocupações com a decisão da Alemanha de acolher cerca de um milhão de refugiados durante a crise migratória europeia. Ele também atuou no conselho municipal ao lado de seu pai e irmão. Dia de eleição: extrema direita pode vencer em estado alemão pela 1ª vez desde a Segunda Guerra, e autoridades estudam como limitar seu poder O histórico de sua equipe de campanha também evidencia suas contradições. A produtora responsável pelos vídeos de campanha afáveis de Siegmund é liderada por um ativista de extrema direita ligado aos "Identitários", um movimento que a inteligência alemã acusou de extremismo. Seu porta-voz já fez parte de um grupo extremista banido, inspirado na Juventude Hitlerista. Siegmund, segundo a professora Paula, "finge participar de um discurso inclusivo e, em seguida, o destrói imediatamente". Parte de sua estratégia tem sido explorar a nostalgia pela Alemanha Oriental entre alguns moradores, mesmo tendo nascido depois de seu colapso. Embora muitos se lembrem do comunismo como uma ditadura, alguns o recordam como uma época de pleno emprego e estabilidade. Força das redes Em 2021, ele alcançou fama nacional com seus vídeos cativantes sobre as restrições da pandemia, ajudando a projetar tanto o partido quanto a si mesmo como a voz dos eleitores que se sentiam marginalizados pelos partidos tradicionais. Atualmente, Siegmund possui mais de 850 mil seguidores no TikTok, um número astronômico para qualquer político alemão, o que lhe proporciona uma plataforma que ajudou a amplificar seus discursos de campanha neste verão. Ao discursar para grandes multidões, ele costuma filmar a cena com seu celular, virando a câmera em direção à multidão para mostrar aos espectadores o quão grande ela era. — Quando você vê todas as aparições de campanha de Siegmund, fica perfeitamente claro: elas não são destinadas principalmente ao público presente, mas sim à internet — disse Paula Diehl, professora que estuda líderes populistas na Universidade de Kiel.
O Globo