Ex-senador Fernando Bezerra e deputado federal direcionaram emendas para custear contratos com empresa de familiares, diz PF

 

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Em representação encaminhada ao ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal afirmou que o ex-senador Fernando Bezerra e seu filho, o deputado federal Fernando Coelho Filho (União-PE), direcionaram emendas parlamentares que abasteceram contratos firmados por um empresa de familiares. O dois e o o ex-prefeito de Petrolina (PE) Miguel Coelho (União Brasil) foram alvos de operação da PF nesta quarta-feira.

A PF pontuou que foi identificado que "o núcleo político capitaneado pelos Coelho" estaria atuando junto à unidade regional da Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) e na Prefeitura de Petrolina "para direcionar recursos públicos, encaminhados mediante termos de execução descentralizada e/ou emendas parlamentares, a uma empresa pertencente a pessoas com quem possuem vínculo familiar".

A empresa em questão é a Liga Engenharia, que, segundo a PF, "firmou quantidade surpreendente de contratos com o poder público, com claros indícios de favorecimento e de desvio de valores". A empresa foi contratada tanto pela prefeitura quanto pela Codevasf.

Em nota, o advogado André Callegari, que representa Fernando Bezerra Coelho e Fernando Filho, afirmou que não teve acesso à decisão do ministro do STF Flávio Dino. "Os mandados vieram desacompanhados dos motivos que ensejaram as medidas cautelares. A defesa já solicitou acesso aos autos, para que, assim, possa se manifestar no processo", diz o texto.

A PF citou que o ex-senador e o deputado federal já foram alvos de outra investigação, intitulada Operação Desintegração, em 2022, quando a corporação apurou "o recebimento de vantagens indevidas por parte dos parlamentares" que teriam sido pagas por empreiteiras que executavam obras vinculadas ao Ministério da Integração Nacional, na época em que o ex-senador era ministro.

Os investigadores pontuaram que há uma sistemática dos delitos que se sustenta nos seguintes pilares estruturais: o controle da Prefeitura de Petrolina; a influência da família Coelho junto ao Ministério do Desenvolvimento Regional e à Codevasf, principalmente a 3ª Superintendência Regional; o encaminhamento de recursos federais por meio de emendas parlamentares e termos de execução descentralizada; e "a possibilidade de direcionamento das contratações para empresa de propriedade de familiares do núcleo político, viabilizando o posterior retorno dos recursos".

Emenda de R$ 22 milhões

Em novembro do ano passado, O GLOBO mostrou uma obra realizada pela empresa investigada. Em setembro daquele ano, a prefeitura de Petrolina, cidade localizada a 715 quilômetros do Recife (PE), inaugurou a primeira etapa da Orla 3. À beira do Rio São Francisco, a administração duplicou avenidas, implantou ciclovias e fez melhorias de iluminação, conjunto em parte bancado com R$ 22 milhões enviados em 2021 pelo então senador Fernando Bezerra Coelho, cujo irmão é dono de um terreno na região do empreendimento e negocia uma indenização por causa da desapropriação.

Para a verba chegar aos cofres do município, então comandado por Miguel Coelho, um dos filhos de Bezerra, foi necessário assinar um convênio. O documento foi firmado entre a prefeitura e a Codevasf, cujo chefe local à época assessorou Bezerra nos tempos de Congresso. Com o dinheiro disponível, começaram os preparativos para a obra, que passa por um terreno de um familiar do senador. Já com a revitalização inaugurada, Miguel Coelho voltou à cena, agora fora da prefeitura e atuante nos negócios imobiliários da região.