Ex-governadores petistas rejeitam ceder vaga a Juliana Brizola no RS: 'Aqui ninguém aceita intervenção'

 

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Os ex-governadores petistas do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (2011-2015) e Olívio Dutra (1999-2003), criticaram a possibilidade de intervenção do diretório nacional do partido na pré-candidatura de Edegar Pretto (PT) ao governo gaúcho. As manifestações ocorreram na noite desta segunda-feira, em meio às articulações dos líderes do PT em Brasília para garantir uma aliança com Juliana Brizola, pré-candidata pelo PDT, em detrimento do arranjo já estabelecido pelo núcleo local.

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— Aqui, no Rio Grande do Sul, ninguém aceita intervenção. Intervenção é um desrespeito não somente à minha trajetória e à dos demais quadros políticos que foram dirigentes do nosso partido, é um desrespeito à história da nossa militância — discursou Genro, nesta segunda-feira, em plenária do partido realizada em Porto Alegre.

Conforme reportagem do GLOBO, os petistas gaúchos defendem Pretto como “a melhor opção para a construção da vitória” nas eleições. Eles argumentam que a decisão foi tomada de maneira ampla e democrática, em convenção realizada ainda em novembro do ano passado, com o endosso dos partidos aliados PSOL, PCdoB, PV, Rede e PSB.

— Eu não acredito que eles tenham coragem de fazer uma intervenção para dizer para a militância do estado que o nosso candidato é de outro partido e não do nosso, que já foi consagrado, escolhido e está legitimado politicamente — completou Genro.

Presidente Lula e Edegar Pretto (E); Juliana Brizola (D) e presidente Lula

Ricardo Stuckert/PR

Em tom efusivo, Dutra gritou os nomes de Pretto e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. No último mês, ele já havia criticado publicamente as siglas que estão “com problemas” por estarem “participando do atual governo privativista e neoliberal”, em alusão à nomeação do deputado estadual Eduardo Loureiro (PDT) como secretário de Cultura do governo de Eduardo Leite (PSD).

— São os nossos partidos da esquerda, do campo democrático popular, contra o estado privatizado. É o projeto para o Brasil, bem representado pelo Lula, pelo Edegar, pela Manu (Manuela d'Ávila, pré-candidata ao Senado pelo Psol), pelo Pimenta (Paulo Pimenta, pré-candidato ao Senado pelo PT) e por muitos de vocês, mulheres e homens, na Câmara e na Assembleia Legislativa — discursou Dutra.

Na mesma linha, quem também discursou em tom crítico foi outro líder histórico do PT no estado, o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (1997-2000):

— Eles (PDT) estão aqui? Procuraram a direção dos nossos partidos? Não. Saíram do governo? Não. Como é que nós vamos fazer campanha para uma pessoa (alusão a Juliana Brizola) que apoia o neoliberalismo? Política não se faz com ultimato, se faz entre companheiros, com discussão, debate e convencimento — afirmou Pont.

No centro da divergência, Pretto afirmou ao GLOBO, em reportagem publicada nesta segunda-feira, que sua pré-candidatura está "super consolidada" e que, apesar do PT nacional ter outras questões "na mesa de negociação", sua estratégia é capaz de garantir a Lula o melhor palanque no estado em busca da reeleição.

Racha na esquerda

O posicionamento de Pont conversa com a postura dos partidos aliados ao PT no estado. Segundo eles, o PDT não procurou as siglas locais para apresentar propostas e debater planos de governo. Por outro lado, os pedetistas sustentam que já abriram mão de candidaturas próprias em outros estados para priorizar os projetos do PT, sendo necessário receber o endosso do partido em torno do lançamento de Juliana.

Ampliando o racha da esquerda, o PSOL, que apoia o petista, ameaça lançar um nome para o Palácio Piratini caso o PDT vença a queda de braço e desmanche o acordo já formalizado no estado. A aliança formada com Pretto ocorre desde a eleição passada, em 2022, quando ele marcou 26,7% dos votos para o governo contra 26,8% de Leite — uma diferença de cerca de dois mil votos —, que avançou para disputar o segundo turno.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, classificou como “etnocentrismo político inaceitável” a manutenção de dois palanques em detrimento da unificação pretendida. De acordo com ele, a “história irá cobrar” um preço que pode ser “politicamente caríssimo” se não houver um acordo.

— Temos que derrotar o fascismo materializado no projeto da família Bolsonaro, não há nada mais importante que isso. Sem o PDT não há como falar de unidade do campo democrático no Brasil. Não consigo entender onde está a dificuldade de compreender politicamente o que está em jogo — ressaltou Edinho, em entrevista ao Correio do Povo no mês passado. — As escolhas do PT do Rio Grande do Sul não podem ser maiores que os desafios que a história nos impõe.

O diretório do PT em Porto Alegre, contudo, já divulgou uma resolução em que destacou que o nome de Pretto ao governo foi aprovado por unanimidade. A composição foi lançada junto às pré-candidaturas do deputado federal Paulo Pimenta (PT) e da ex-deputada Manuela d'Ávila (PSOL) ao Senado.

— O Edegar nos lidera a todos, partidariamente e individualmente, como militantes que somos, porque nós entregamos a ele essa maior convicção de que ele será aquele que derrotará a extrema-direita aqui no Rio Grande, contribuindo com a vitória nacional — disse Manuela, ao também discursar na plenária de ontem.

Corrida eleitoral

Juliana foi ao Planalto encontrar Lula, em fevereiro, na companhia do presidente do PDT, Carlos Lupi. Conforme mostrou o colunista Bernardo Mello Franco, do GLOBO, a neta do ex-governador Leonel Brizola ofereceu as três vagas de sua chapa ao PT em troca de receber o apoio do presidente para se lançar governadora, mantendo os nomes já definidos pelos petistas ao Senado.

No Rio Grande do Sul, a esquerda enfrenta Zucco (PL), que lidera as pesquisas, seguido por Juliana Brizola, Pretto, e Gabriel Souza (MDB), atual vice-governador e escolhido como sucessor de Eduardo Leite. Souza, por sua vez, enfrenta um cenário adverso em meio à baixa performance nas pesquisas mais recentes e à permanência de Leite no cargo até o fim do mandato.