Ex-delegado disse que Marcola chegou ao comando do PCC após entregar rivais à polícia
A chegada de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, ao topo do Primeiro Comando da Capital teria passado por uma colaboração com a polícia para enfraquecer antigos chefes da facção. A afirmação foi feita pelo ex-delegado-geral da Polícia Civil de São Paulo Ruy Ferraz Fontes em entrevista inédita à CBN e ao jornal O Globo. O relato está nos episódios 3 e 4 do podcast ‘PCC — O Salve Geral’, que foram ao ar nesta quinta-feira.
Segundo Fontes, a então mulher de Marcola, a advogada Ana Maria Olivatto, entregou à polícia os números de telefones usados por lideranças do PCC no início dos anos 2000. A informação teria permitido uma operação sigilosa para interceptar conversas de César Augusto Roriz, o Cesinha, que estava preso em Bangu 1, no Rio de Janeiro. Naquele período, Cesinha e José Márcio Felício, o Geleião, eram as principais lideranças da facção.
Em depoimento ao podcast, Ruy Ferraz afirmou que passou cerca de três meses no Rio de Janeiro com uma equipe de investigadores para acompanhar as escutas. De acordo com ele, a interceptação foi decisiva para entender a estrutura interna do PCC, o fluxo de ordens e a comunicação entre presos e intermediários.
‘Quem trouxe o telefone que o Cesinha utilizava dentro de Bangu foi a Ana Maria. Ela que entregou. Aí eu fiz um pedido, interceptei o telefone e fui morar lá no Rio’, contou o ex-delegado.
Ainda de acordo com Fontes, Marcola teria orientado Ana Maria a repassar os contatos para que os antigos chefes fossem tirados do caminho. O objetivo, segundo essa versão, seria abrir espaço para que ele assumisse o comando da organização criminosa.
‘A conversa que tem é que ele mandou ela fazer isso. Para tirar eles do caminho e ele assumir’, afirmou.
Após as interceptações, Cesinha e Geleião foram isolados no Centro de Readaptação Penitenciária de Presidente Bernardes, unidade de segurança mais rígida em São Paulo. Com a comunicação limitada, os dois perderam influência dentro da facção. Marcola, que não fazia parte do grupo fundador do PCC, acabou se consolidando como principal liderança da organização. Cesinha foi morto na prisão em 2006. Geleião morreu em 2021, vítima da Covid-19.
A defesa de Marcola nega que ele tenha atuado como informante. Em nota, o advogado Bruno Ferullo afirmou que a acusação ‘não corresponde à realidade’ e disse que não há elementos concretos que sustentem a versão apresentada por Ruy Ferraz. A defesa também argumenta que Ana Maria Olivatto, já morta, não pode se defender das acusações.
Ruy Ferraz Fontes foi assassinado a tiros de fuzil em setembro de 2025, quando deixava o trabalho na Prefeitura de Praia Grande, no litoral paulista. Ele estava aposentado da Polícia Civil e atuava como secretário municipal de Administração. Fontes foi um dos principais responsáveis por mapear a estrutura do PCC e conduziu investigações que resultaram em condenações de Marcola.
A Polícia Civil de São Paulo aponta que a execução foi planejada por Pedro Luiz da Silva Moraes, o Chacal, integrante da chamada ‘Sintonia Restrita’, núcleo do PCC voltado ao monitoramento e execução de autoridades. Segundo a investigação, a morte teria relação com a atuação de Ruy Ferraz no combate à facção.
