Ex-Botafogo, Flu, Palmeiras e Cruzeiro se destaca como 'hater de si mesmo' e faz sucesso com torcedores nas redes

Ex-Botafogo, Flu, Palmeiras e Cruzeiro se destaca como 'hater de si mesmo' e faz sucesso com torcedores nas redes - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

"Costumo dizer que sou o meu próprio hater", é como o ex-lateral Lucas Marques se define. Com passagens por clubes como Botafogo, Palmeiras, Cruzeiro e Fluminense, ele voltou a fazer sucesso com o torcedor seis anos após sua aposentadoria.

Em sua conta no Instagram, ele costuma relembrar vaias, gols perdidos e longas sequências no banco de reservas. A ordem é não se levar a sério.

— Normalmente, os atletas contam as vitórias. Eu não.

Conto as minhas derrotas — resume. A tática fez sucesso.

Seus vídeos, normalmente respondendo a perguntas de seguidores começaram a viralizar. Ele caiu tanto nas graças dos torcedores que , hoje, até os que o criticaram em campo pedem desculpas.

Ao GLOBO, o ex-lateral relembra suas histórias, fala sobre o período pós-aposentadoria e reflete se há espaço para jogadores em atividade se comunicarem com esta mesma descontração. Você era muito mais discreto quando jogava, não tinha essa descontração ao falar.

Quando é que a "chave" mudou? Quando eu parei de jogar, simples.

Eu não tinha rede social, achava que era algo que me atrapalhava dentro de campo, porque vinham informações de fora que não me ajudavam em nada. Tanto quando jogava bem quanto quando jogava mal.

Depois que você para, começa a entender que, dentro desse contexto de rede social, quando o cara te critica, talvez seja mais uma brincadeira do que realmente uma crítica. Você começa a entender o lado do torcedor e como funciona a rede social.

Então hoje, aposentado e com a cabeça tranquila, isso não me afeta nem me atrapalha. Então tenho condições de brincar.

Eu sempre fui um jogador muito focado. Mas, ao mesmo tempo, tinha minhas brincadeiras com a galera dentro do vestiário.

Eu só não expunha como hoje. E por que você acha que é tão difícil os jogadores se levarem menos a sério como você faz?

Só faço isso justamente porque sou ex-atleta. Se o atleta em atividade falar tudo o que eu falo nas redes sociais vai vir uma enxurrada de críticas, podendo afetar a mente dele e até o clube.

Imagine se um atleta faz todas essas brincadeiras e o clube perde um jogo ou três seguidos. O que a galera vai começar a falar? "É só brincadeira nas redes sociais, só quer brincar".

Isso gera atrito, conflito até com a diretoria do clube. Imagine um clube grande que vai disputar um título e, durante a semana, vem aquela brincadeira.

Se perde esse título, pode ter certeza de que a imprensa vai cair em cima. É perigoso.

E fora que hoje os clubes têm muito cuidado com a imagem do atleta. Então diria que o meio do futebol não está preparado para tanta descontração?

Ainda não. No final do campeonato só um time vai ganhar.

Aí nos outros, em que fizerem esse tipo de brincadeira, vão receber muitas críticas. E pesadas.

Então preferem evitar. Acho que a gente, como sociedade, não está preparado para isso.

Mas seria legal demais. Imagina 30 atletas abrindo as redes sociais para mostrar o vestiário.

O torcedor adoraria ver. Mas, ao mesmo tempo, viria uma enxurrada de críticas.

Lucas Marques foi campeão carioca pelo Botafogo e da Copa do Brasil pelo Palmeiras Henrique Delfino/Divulgação

Hoje você lida com vaias e críticas com bom humor. Como as recebia na época em que jogava?

Como eu não tinha rede social e não via muita coisa, não me afetava. Mas não tenha dúvida de que, por exemplo, quando você abria um jornal — na minha época era jornal — e via uma crítica pesada, é óbvio que ficava com aquilo na cabeça.

Acho que hoje isso existe nas redes sociais. Se um atleta joga mal e as críticas vêm em cima dele, ele acompanha.

Tanto é que vemos alguns até respondendo. O que é pior para um jogador: a vaia ou a indiferença da torcida?

Na minha opinião, se o atleta está sendo muito vaiado, vai perdendo a confiança. E ele vive disso, de confiança.

Vemos isso acontecer bastante, ainda mais com as redes sociais. Para recuperar, é um trabalho mais difícil.

Um atleta sem confiança deixa muito a desejar dentro de campo. Mas, ao mesmo tempo, é difícil não entender o lado do torcedor.

O torcedor não vaia por causa de uma bola ou de duas. Vaia porque as coisas não estão acontecendo há muito tempo com aquele atleta.

E qual foi a vaia mais merecida que já recebeu? No Cruzeiro.

Eu não joguei nada lá, então acho que merecia. Mas teve um fato no Botafogo em que também merecia vaias.

Fui expulso na final do Carioca de 2012. Estava 1 a 1, era Botafogo e Fluminense.

Logo em seguida, o Fluminense fez 2 a 1, 3 a 1, 4 a 1 e praticamente matou a decisão. Passou esse jogo no domingo e, na quarta-feira, fizemos um contra o Vitória, pela Copa do Brasil.

Fui expulso de novo. Foi uma situação em que, em dois jogos seguidos, em um perdemos o título do Carioca e no outro fomos eliminados da Copa do Brasil, com duas expulsões minhas.

Depois dessa segunda expulsão, você saiu de campo chorando... Chorando, amigo.

Não tinha como ser diferente. É um turbilhão de coisas que passa na sua cabeça.

2012 era meu segundo ano no Botafogo. Tinha vindo do Figueirense, ainda não havia me consolidado como lateral-direito.

Precisava muito daquela oportunidade. O torcedor já pedia minha cabeça, a imprensa falava que eu seria emprestado, a diretoria já queria mexer alguma coisa.

Só que ali teve um cara fundamental que me permitiu dar a volta por cima: o Oswaldo de Oliveira. Quando cheguei ao vestiário, ele me chamou, me deu um abraço e falou: "Você tem muita coragem.

Tudo o que eu peço, você faz. Então, para mim, está tranquilo.

No próximo jogo você vai entrar". No primeiro jogo, contra o São Paulo, joguei bem.

A gente virou por 3 a 2, dei passe para gol. Logo em seguida, pegamos o Coritiba, em Curitiba, e eu fiz dois gols.

Então, ali, meio que zerou. Se o Oswaldo de Oliveira não tivesse assumido a responsabilidade de me colocar para jogar, talvez eu não tivesse seguido a carreira no Botafogo.

São coisas que o futebol vai mostrando. A torcida que mais pegou no seu pé foi a do Cruzeiro?

Sim. Tinha acabado de ser campeão da Copa do Brasil de 2015 com o Palmeiras, jogando bem.

Em 2016, começamos o ano mal, aí o Cuca fez uma troca: Fabrício e Fabiano foram para o Palmeiras, e Robinho e eu fomos para o Cruzeiro. Nós tínhamos acabado de ser campeões e éramos titulares.

Então criou-se uma expectativa muito grande no Cruzeiro. E ali realmente não consegui render.

Eu fazia tudo, treinava, mas realmente não consegui jogar. Acho que são fases que passam na vida do atleta.

Eu brinco nas minhas redes sociais dizendo que o torcedor teve até paciência demais comigo. Foi lá que você viveu a situação de ter sido vaiado sem sequer ter entrado em campo?

Foi uma situação legal, em termos (risos). Porque já estava praticamente certo que eu não ficaria no Cruzeiro.

Ficava no banco de reservas, eram os últimos jogos... No Mineirão, a gente aquecia atrás do banco.

E a torcida fica muito próxima dali. Aquela parte da torcida acho que nem assiste ao jogo.

Fica mais conversando com os atletas, xingando, brincando. Numa dessas, a bola saiu e foi lá para trás.

Quando dominei, começou. Não foi todo mundo, obviamente.

Mas a torcida daquela parte de trás começou: "Uuuu! Vai embora!". Aí falei: "Caramba, está na hora de ir mesmo".

E hoje como é essa relação? Teve um torcedor que falou na internet: "Você está virando um ídolo reverso.

Não jogou nada aqui no Cruzeiro, mas a galera já está te adorando". Até falam para eu assistir a um jogo no Mineirão com ele.

Qualquer dia desses eu vou. Então está sendo bacana porque eu já não levo mais para o coração, e acho que eles também não.

Às vezes eles me pedem desculpas e eu digo que foi merecido mesmo. Em 2017, a barriga de Lucas (à esquerda), então no Fluminense, virou motivo de piadas da torcida

Reprodução Em 2017, quando você chega ao Fluminense, viralizou uma foto sua no CT com uma barriga saliente.

O que aconteceu ali? Na foto estava um barrigão.

Eu tinha acabado de chegar do Cruzeiro e, por incrível que pareça, tinha me preparado muito para aquele ano ao Fluminense. Praticamente não tirei férias, ia direto para a academia, tomava suplementação.

Normalmente jogava com percentual de gordura de 11%. Estava em 12,5%, quase 13%.

Era uma coisa de ajuste que uma pré-temporada resolveria. Mas, no primeiro dia, alguém de dentro do Fluminense tirou a foto e colocou nas redes sociais.

E realmente deixou uma barriguinha que parecia uma pochete. Parecia de cadela grávida.

No dia da apresentação, fiquei com vergonha de tirar a camisa. Pensei: "Vai que pegam uma foto de lado aqui".

A gente treinava com uma regata. Eu só coloquei a camisa por cima.

Foi uma situação difícil. Depois, o pessoal do (canal) Futparódias fez uma musiquinha e virou bagunça.

Pelo menos a criançada mais nova, que não me viu jogar, me conhece pela internet. Quem não é visto não é lembrado, amigo.

Está tudo certo. Para não lembrar só de derrotas, qual o momento que você guarda com mais orgulho?

Jogar na seleção brasileira (no Superclássico das Américas de 2012). Era um sonho de criança.

Não era jogar na Europa ou fazer gol de título. Era chegar à seleção e poder ouvir o hino.

Eu nem sei como joguei. Se fui bem ou mal.

Depois não voltei mais, acho que nem fui tão bem assim. Mas chegar ali, perfilar e escutar o hino, chego a arrepiar até hoje.

Por mais que tenha sido uma seleção que chamo de dublê, porque não era com os caras que jogavam na Europa, eram só os que atuavam no Brasil. Mas a camisa está no quadro.

Deixei uma para o meu pai, que enquadrou, e guardei uma comigo. Posso me alongar um pouquinho para contar essa história da seleção? É muito boa...

Claro! Eu não sabia se seria convocado novamente.

Então recolhi todo o material da seleção a que tinha direito. Não peguei só o meu.

Eu cheguei em casa com um tênis tamanho 44. Não sei se era do Jefferson ou do Diego Cavalieri (risos).

Falei: "Bota dentro da mochila aqui. Não sei se volto".

No final das contas, abri uma "loja" da CBF. Todo mundo me pedia, e fui dando.

Mas tenho coisas até hoje. Mas não era roubado, não.

Eles deixavam. Cheguei lá com uma malinha de mão e voltei com aquela mala que tinha que despachar, gigante.

E aí o que aconteceu? Fui para aquele jogo que não teve porque deu um apagão na luz, lembra? No interior da Argentina. Eles não falavam se teria outro jogo.

Nesse momento fiz a festa e recolhi tudo. Mas depois teve o jogo na Bombonera (no mês seguinte).

Aí fiz de novo. Eu não sabia se ia voltar.

E realmente não voltei. Valeu a pena.

Você se aposentou com 32 anos. Por que tão novo?

Uma série de coisas que foram acontecendo. Meu futebol já estava em decadência, minha filha menor tinha acabado de nascer e minha esposa já estava trabalhando em Florianópolis, nossa casa tinha ficado pronta.

Pensei: "Já não estou rendendo mais. Não vou conseguir bons contratos, clubes menores atrasam salário, vou ter que morar longe...".

Então isso começou a pesar. Eu era novo, queria estudar, aprender e fazer outras coisas.

Hoje tenho uma empresa de e-commerce com meu irmão e mais um sócio. É um e-commerce de vestuário, nos grandes marketplaces.

Temos canais de venda dentro de todas essas plataformas. A gente tem uma empresa chamada Grupo Relaxado.

Até o nome é engraçado. Mas não é relaxado não.

É organizado. Dentro desse grupo tem várias marcas, própria e atacado.

E com o futebol, tem vontade de trabalhar? Nessa parte da comunicação, sim.

Depois que abri meu Instagram, comecei a fazer coisas e foram aparecendo algumas oportunidades. Agora, a parte de campo, como treinador ou auxiliar, não.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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