247 – A Agência Internacional de Energia (AIE) alertou nesta terça-feira (3) que os países europeus começam a temporada de inverno com os menores estoques de gás natural em 13 anos, aumentando os riscos de dificuldades no abastecimento e de novas pressões sobre os preços internacionais de energia.
A situação é agravada pelos impactos da guerra entre Estados Unidos e Irã sobre a infraestrutura energética do golfo Pérsico e o transporte de combustíveis. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, com base em dados da AIE, os reservatórios de gás natural da Europa encerraram outubro com apenas 75% de sua capacidade preenchida.
O percentual é inferior ao patamar mínimo de 80% estabelecido pela União Europeia e representa o nível mais baixo registrado para o período desde 2013. A agência adverte que os efeitos desse desequilíbrio poderão se estender até 2027.
O quadro preocupa especialmente porque o continente está entrando no período de maior consumo de gás, utilizado tanto no aquecimento de residências quanto na geração de eletricidade e em atividades industriais. Com reservas inferiores às consideradas adequadas, os países europeus terão menor margem de segurança diante de temperaturas excepcionalmente baixas ou de eventuais interrupções no fornecimento.
Guerra no Oriente Médio agrava dificuldades de abastecimento Um dos principais fatores responsáveis pela redução dos estoques europeus é a instabilidade no mercado internacional de energia provocada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã.
Instalações de liquefação de gás natural localizadas no golfo Pérsico sofreram danos durante a guerra, comprometendo parte da infraestrutura necessária para o abastecimento internacional. O transporte marítimo também foi afetado pela redução do tráfego no estreito de Hormuz, passagem estratégica que, antes do conflito, concentrava o trânsito de aproximadamente 20% da produção mundial de petróleo e gás natural.
As dificuldades nessa região prejudicam a disponibilidade de gás natural liquefeito (GNL), combustível que pode ser transportado por navios e desempenha papel importante na segurança energética europeia. A combinação entre danos às instalações produtoras e restrições logísticas aumenta a vulnerabilidade dos países importadores, especialmente daqueles que precisam recorrer ao mercado internacional para complementar seus estoques durante os meses mais frios.
Atraso na recomposição das reservas comprometeu estoques Além das consequências da guerra, decisões comerciais tomadas pelos compradores europeus contribuíram para o atual desequilíbrio.
Os reservatórios terminaram a temporada anterior de aquecimento com volumes reduzidos, exigindo uma recomposição mais intensa ao longo dos meses seguintes. Entretanto, parte dos compradores adiou a aquisição de gás na expectativa de uma redução dos preços internacionais.
A estratégia acabou comprimindo o período disponível para reabastecer as instalações antes da chegada do inverno. De acordo com a AIE, as entregas aumentaram entre agosto e outubro, mas o crescimento não foi suficiente para recuperar o atraso acumulado anteriormente.
O volume de gás armazenado durante a temporada ficou aproximadamente 4% abaixo da média registrada nos últimos cinco anos, evidenciando a dificuldade de recomposição das reservas em um ambiente internacional marcado por restrições de oferta. Com isso, os países europeus passam a depender mais intensamente da contratação de carregamentos adicionais de GNL para atender aos períodos de maior consumo.
Alemanha registra estoques ainda mais baixos A situação da Alemanha, maior economia da União Europeia, ilustra as dificuldades enfrentadas pelo continente.
Os reservatórios alemães estavam, em média, com apenas 61% de sua capacidade preenchida, segundo dados da agência federal responsável pela supervisão da infraestrutura e dos mercados energéticos do país. O percentual está nove pontos abaixo da meta legal alemã de 70% para 1º de novembro.
Também representa uma diferença expressiva em relação à média europeia, próxima de 75%, conforme os números da plataforma de monitoramento AGSI. Apesar do desempenho inferior ao objetivo estabelecido, o governo alemão afirmou na segunda-feira (2) que o país dispõe de gás suficiente para atravessar o inverno.
A avaliação oficial, entretanto, não elimina os riscos associados à necessidade de adquirir volumes adicionais no mercado internacional, sobretudo em circunstâncias de aumento inesperado da demanda. Inverno rigoroso pode ampliar pressão sobre o mercado até 2027
A Agência Internacional de Energia identifica três fatores capazes de agravar a situação nos próximos meses: temperaturas inferiores às médias históricas, falhas técnicas na infraestrutura de distribuição e novas dificuldades no fornecimento internacional. Um inverno mais rigoroso elevaria o consumo de gás para aquecimento, acelerando a retirada do combustível dos reservatórios e aumentando a necessidade de importações.
Problemas operacionais nas redes de transporte e distribuição também poderiam reduzir a capacidade de resposta dos países europeus justamente durante os períodos de maior demanda. A dependência de carregamentos adicionais de GNL torna o continente mais exposto às condições do mercado global, em um momento em que a guerra no Oriente Médio já compromete parte das rotas e instalações estratégicas de abastecimento.
O alerta da AIE aponta, portanto, para um desafio que ultrapassa a atual temporada de aquecimento. Caso as restrições internacionais persistam e os estoques sejam novamente reduzidos durante o inverno, a Europa poderá enfrentar dificuldades adicionais para recompor suas reservas ao longo de 2027, prolongando a pressão sobre o mercado de gás natural.
Brasil 247