Europa arrisca se tornar o 'Vale do Sicílio da regulação', critica o CEO da Siemens Digital Industries
O CEO da Siemens Digital Industries, Cedrik Neike, diz que o ambiente regulatório europeu pode comprometer a competitividade do continente na corrida pela liderança em inteligência artificial industrial.
Embora reconheça vantagens como a força da base industrial e o grande volume de dados gerados na Europa, ele defende que as regras da União Europeia precisam “fomentar, e não limitar, a inovação”, sob risco de frear o avanço justamente quando empresas e governos deveriam acelerar esse processo.
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— Na Alemanha e na Europa, às vezes tendemos a ser o Vale do Silício da regulação (e não da inovação) — ele diz.
Em entrevista ao GLOBO, Neike reconhece os temores de que a IA e a automação substituam empregos e diz que os seres humanos seguirão indispensáveis, mas com mudanças no modo de trabalhar. Ele entende que o mundo vive um momento de reorganização das cadeias produtivas, com empresas aproximando fábricas dos mercados consumidores (‘glocalização’) e buscando mais flexibilidade.
— As empresas estão construindo fábricas mais próximas do cliente final, mais flexíveis e capazes de se adaptar às mudanças mais rapidamente. Estamos ajudando-as a fazer isso e agimos assim nós mesmos. Isso significa: fortes localmente, abertos globalmente. No fim, trata-se sempre de encontrar um equilíbrio, uma equação que funcione. Nesse contexto, soberania significa responsabilidade, não isolamento.
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Como conciliar a ideia da IA como ferramenta de apoio ao trabalho humano com o avanço de ambientes cada vez mais autônomos, como fábricas com mínima intervenção humana?
A IA será um dos maiores motores de transformação industrial do nosso século. Como uma tecnologia de propósito geral, ela terá impacto semelhante ao da eletricidade ou da internet. E é necessária para lidar com a falta de mão de obra qualificada, otimizar a produtividade e melhorar a flexibilidade.
Estou ciente dos medos: IA e robôs podem tirar nossos empregos. O fato importante: os humanos permanecem indispensáveis. Mas também é claro que os perfis de trabalho vão mudar em muitas áreas. Em nossa fábrica em Erlangen, Alemanha, testamos um "copiloto" para engenheiros de manutenção para reduzir a necessidade de suporte de engenheiros de processo.
Após apenas 11 semanas, os trabalhadores entrevistados disseram que se sentiram capacitados a assumir trabalhos mais complexos, sua confiança para resolver problemas por conta própria aumentou e eles adquiriram novas habilidades e sentiram menos estresse.
Ainda haverá pessoas nas fábricas mais modernas, mas, assim como em toda revolução industrial, suas tarefas irão evoluir.
Como o ambiente regulatório atual da Europa afeta sua capacidade de liderar em IA industrial?
Acreditamos na Alemanha e na Europa como um local de negócios. É por isso que ainda estamos investindo muito aqui. Por exemplo, investimos €500 milhões em nossa unidade em Erlangen. Mas é verdade que estamos enfrentando desafios significativos para nossa competitividade: temos uma forte base industrial, uma riqueza de dados industriais e um valioso conhecimento que precisa ser usado para liderar em IA industrial.
Para fazer isso, as regulações europeias devem fomentar e não limitar a inovação. Caso contrário, perdemos velocidade quando precisamos de mais velocidade, tanto na indústria quanto no lado do governo. E é exatamente aqui que precisamos do Estado como um facilitador, não como um obstáculo: na Alemanha e na Europa, às vezes tendemos a ser o Vale do Silício da regulação. Deveríamos ser os campeões da inovação.
A Siemens recentemente citou ‘glocalização’ como uma tendência. Isso já está acontecendo?
O mapa industrial do mundo está sendo redesenhado. Estamos nos movendo em direção à ‘glocalização’ e a uma criação de valor mais localizada. Não é mais um cenário; está acontecendo. As empresas estão construindo fábricas mais próximas do cliente final, mais flexíveis e capazes de se adaptar às mudanças mais rapidamente. Estamos ajudando-as a fazer isso e agimos assim nós mesmos. Isso significa: fortes localmente, abertos globalmente. No fim, trata-se sempre de encontrar um equilíbrio, uma equação que funcione. Nesse contexto, soberania significa responsabilidade, não isolamento.
Estamos chegando a um ponto em que engenheiros de software e de automação falam a mesma língua? O que ainda impede essa integração?
A automação tem sido há muito tempo a espinha dorsal da indústria. Mas a manufatura está mudando rapidamente. Tendências como armazéns altamente automatizados e sistemas modernos de reciclagem tornam as operações das fábricas muito mais variáveis e imprevisíveis. Como resultado, a automação tradicional não é mais suficiente. O que a indústria precisa agora é de automação adaptativa. Ou, como gosto de chamar: “automação estilo Lego”.
Essa mudança já está acontecendo. Ao combinar TI e tecnologia operacional com IA e métodos modernos de desenvolvimento de software, a automação está se tornando mais definida por software. Isso também muda o papel dos engenheiros de automação, aproximando-o da engenharia de software.
Um exemplo concreto: no ano passado, lançamos o primeiro controlador virtual. Um controlador é o “cérebro” de uma máquina. Em vez de rodar em hardware dedicado, este funciona como software na nuvem; e a Audi já o está usando em suas fábricas.
Como você vê o risco da ‘agentização’ minar o valor das licenças tradicionais de software?
Espero uma evolução do modelo SaaS, em vez de um apocalipse. Aplicações simples e horizontais podem sofrer pressão, enquanto aplicações verticais, mais específicas de domínio, como nossas ofertas, devem permanecer estáveis. Esses tipos de aplicações são extremamente difíceis de substituir com IA. Pelo contrário, há uma oportunidade e uma necessidade de aprimorá-las com IA.
Como a capacidade de validar totalmente um projeto em um ambiente virtual está mudando a forma como as empresas avaliam os riscos de investir em novas fábricas?
Há alguns anos, o senso comum era que olhar para uma bola de cristal não era possível. Mas agora sabemos mais. Graças à tecnologia de gêmeos digitais, podemos ter uma visão muito clara do futuro das fábricas, para avaliar riscos e resolver problemas antes que surjam, em tempo real.
Essa tecnologia funciona como um kit de construção digital. Você a utiliza para construir uma planta inteira em um mundo virtual, antes mesmo de ela existir. É fotorrealista e segue leis físicas. Demonstramos isso com a PepsiCo na CES em Las Vegas, otimizando seus processos em plantas de engarrafamento: com os gêmeos digitais, a PepsiCo pôde simular layouts de fábricas antes da construção. Eles podem descobrir e resolver até 90% dos problemas potenciais no modelo digital. Na primeira aplicação, o volume de produção aumentou em 20%.
Qual a importância da Hannover Messe para a Siemens? E por que o Brasil assumiu um papel tão importante na feira deste ano?
Hannover é um roadshow para o futuro da indústria, apresentando como tecnologias digitais e IA estão revolucionando a manufatura. Demonstramos o que pode ser comum em fábricas em apenas alguns anos e o que já é tecnicamente viável hoje. Um exemplo é a APROCAMP, uma cooperativa comunitária que fornece para a empresa brasileira de cosméticos Natura. Aqui, demonstramos como o processo de extração de óleo se torna mais eficiente, flexível e rápido com a ajuda de gêmeos digitais e monitoramento em tempo real.
Isso também mostra: o potencial de crescimento do Brasil é enorme e a escala do Brasil é sua força. Com mais de 350.000 empresas industriais e um dos maiores conjuntos de talentos em TI da América Latina, o Brasil combina manufatura e expertise tecnológica em escala. Essa é a base para a era da IA.
