Um desacordo entre autoridades chinesas e americanas durante uma reunião dos chefes de finanças do Grupo dos 20 (G20) nesta semana girou, em grande parte, em torno de uma única palavra, segundo pessoas familiarizadas com as negociações.
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O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, acusou publicamente na terça-feira autoridades chinesas de terem impedido o grupo de emitir um comunicado conjunto após a reunião de dois dias em Asheville, na Carolina do Norte.
O lado americano atribuiu o impasse a divergências sobre a linguagem utilizada em questões que iam desde minerais críticos até a reestruturação da dívida.
Mas o principal ponto de discordância foi a inclusão da expressão “não orientado pelo mercado” (non-market) em uma frase que tratava dos desequilíbrios comerciais, segundo as fontes, que pediram para não ser identificadas por estarem discutindo assuntos privados.
Segundo essas pessoas, autoridades chinesas consideraram o termo um ataque velado às empresas estatais, que constituem um dos pilares fundamentais da economia do país.
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Durante as negociações sobre a redação do texto, a China propôs uma formulação modificada que abordaria os desequilíbrios comerciais sem colocar em evidência as empresas estatais chinesas (SOEs, na sigla em inglês), segundo as pessoas familiarizadas com as discussões.
Negociadores chineses receberam, em conversas privadas, o apoio de alguns países à sua sugestão, mas não conseguiram chegar a um consenso com os Estados Unidos, disseram as fontes.
A declaração final da presidência americana incluiu uma frase afirmando que os países deveriam concordar em “eliminar políticas e práticas não orientadas pelo mercado que agravam os desequilíbrios.”
A disputa evidencia as tensões latentes entre as duas maiores economias do mundo, poucas semanas antes de o líder chinês Xi Jinping viajar a Washington para uma cúpula de grande importância com o presidente dos EUA, Donald Trump.
Bessent é uma figura central na condução das relações de Washington com Pequim, liderando as negociações comerciais e prestes a comandar, nas próximas semanas, conversas bilaterais sobre inteligência artificial.
O presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder da China, Xi Jinping
ANDREW CABALLERO-REYNOLDS / AFP/30/10/2025
O Ministério das Finanças da China não respondeu a um pedido de comentário, assim como o Departamento do Tesouro dos EUA.
“É uma pena que os chineses não tenham querido aderir”, disse Bessent à Fox News em uma entrevista na quarta-feira, referindo-se às objeções de Pequim ao comunicado do G20.
A delegação chinesa em Asheville foi liderada por Pan Gongsheng, presidente do Banco Popular da China, e pelo vice-ministro das Finanças Liao Min, que também fez parte da equipe de negociação de Pequim durante a guerra tarifária de Trump no ano passado.
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O governo dos EUA define oficialmente políticas e práticas “não orientadas pelo mercado” como intervenções governamentais que distorcem o comércio global em favor das indústrias domésticas, incluindo ações de empresas estatais ou controladas pelo Estado.
O termo também aparece há muito tempo nas críticas americanas às práticas comerciais da China.
Em 2017, o Representante Comercial dos EUA descreveu uma investigação como uma resposta ao “sistema econômico não orientado pelo mercado” do país asiático.
A inclusão da expressão em um comunicado do G20 poderia ser interpretada como uma referência codificada à China, sem mencionar explicitamente o país, segundo as pessoas familiarizadas com as negociações.
Referências a políticas e práticas “não orientadas pelo mercado” apareceram em dois dos quatro parágrafos da declaração da presidência americana que, segundo o Tesouro dos EUA, eram problemáticos para a China.
As outras seções destacavam o funcionamento de cadeias de valor importantes, como a de minerais críticos, além de disposições relacionadas à reestruturação da dívida, segundo a declaração americana.
O Ministério das Finanças da China não respondeu diretamente aos comentários de Bessent em uma declaração divulgada na quarta-feira, mas afirmou que “todas as partes devem ter uma visão abrangente, objetiva e equilibrada da questão dos desequilíbrios globais”.
— Usar plataformas multilaterais como o G20 para enfatizar alegações de desequilíbrios econômicos e excesso de capacidade tem, essencialmente, o objetivo de justificar o protecionismo e a contenção da China — disse Huang Ling, porta-voz do Ministério do Comércio da China, nesta quinta-feira, durante uma coletiva de imprensa regular em Pequim.
— Somos firmemente contra isso.
Pan, presidente do Banco Popular da China, afirmou em uma declaração divulgada na quarta-feira que o aumento do protecionismo, o uso excessivo de questões de segurança nacional e a imprevisibilidade das políticas têm sido fatores importantes para o agravamento dos desequilíbrios globais.
Ele pediu aos países deficitários que reduzam seus déficits fiscais e aumentem suas taxas de poupança, enquanto os países superavitários devem elevar adequadamente o consumo e os investimentos.
— Todos os países devem formular planos de políticas de médio e longo prazo, assumir compromissos claros e implementá-los com determinação — afirmou.
Disputa sobre subsídios
A poderosa máquina de exportações da China continua sendo um ponto de tensão nas relações com os EUA.
O país asiático registrou um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão em 2025, um aumento de 20% em relação ao ano anterior, e Bessent colocou o tema entre as principais questões durante a reunião dos chefes de finanças do G20.
Os EUA registraram um déficit comercial de aproximadamente US$ 200 bilhões com a China no ano passado, segundo dados do Bureau of Economic Analysis, divisão do Departamento de Comércio do governo federal dos EUA responsável pela análise e divulgação de dados econômicos.
Bessent reiterou as críticas à China na quarta-feira, afirmando que suas políticas reprimem a demanda interna e dependem das exportações para impulsionar o crescimento.
Alegando que cerca de 4% do PIB chinês é destinado a “subsídios industriais”, Bessent citou a montadora BYD como uma das beneficiárias.
— Alguém aqui já viu um carro da BYD? — perguntou Bessent durante um evento do Charlotte Economics Club, na Carolina do Norte.—É o melhor carro de US$ 70 mil que US$ 35 mil podem comprar — ele é fortemente subsidiado.
Um relatório do Rhodium Group divulgado no início deste ano concluiu que os subsídios diretos concedidos à BYD representaram cerca de US$ 292 por veículo, correspondendo a aproximadamente 5% da diferença de custo de US$ 4.700 em relação à Tesla na China.
A maior parte da economia de custos da BYD veio do fato de a empresa produzir internamente muitos de seus próprios componentes e da escala de sua produção, segundo o relatório.
A China rejeitou as acusações dos EUA e de outros países de que teria alcançado seu superávit recorde por meio de apoio estatal injusto às empresas domésticas.
Em julho, o Ministério do Comércio divulgou um documento intitulado “A posição da China sobre a chamada questão do excesso de capacidade”.
O documento destacou que os EUA e a União Europeia também concedem subsídios a setores como veículos elétricos e inteligência artificial.
“Acusar a China de ‘concorrência desleal’ e de ‘políticas e práticas não orientadas pelo mercado’ é um caso típico de ‘dois pesos e duas medidas’ e de verdadeira injustiça”, afirmou o documento.
