EUA viram principal mercado do suco de laranja brasileiro
No ano safra 2025/2026, os Estados Unidos devem superar a União Europeia como o principal destino do suco de laranja brasileiro, após décadas de predomínio europeu. Entre julho de 2025 e abril de 2026, o Brasil embarcou para o mercado americano 317,8 mil toneladas de FCOJ Equivalente a 66º Brix (suco de laranja congelado concentrado com 66% de sólidos solúveis), correspondendo a 49,6% das exportações brasileiras da bebida, segundo dados da Associação Nacional de Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).
Míriam Leitão: Após aumento de 52% nas vendas, Brasil se une à Austrália para negociar cota de carne para China
Brasil Soberano 2: BNDES somará R$ 21 bi para empresas afetadas por tarifaço de Trump e guerra no Irã
A receita obtida foi de US$ 989,4 milhões. A União Europeia, que no mesmo período do ano passado recebeu 50% do suco brasileiro, teve sua participação reduzida a 43,6% do volume embarcado. China (3%) e Japão (2%) são os outros destinos. O ano safra 2025/2026 só encerra em junho, mas analistas do mercado avaliam que o novo mapa da distribuição internacional do suco brasileiro veio para ficar.
— A Flórida, que tradicionalmente abastecia os EUA, teve sua produção histórica reduzida a menos de 10%. O Brasil ocupou o espaço deixado pelos produtores americanos — diz Ibiapaba Netto, diretor-executivo da CitrusBR.
Há 20 anos, a Flórida produzia algo na casa de 240 milhões de caixas de laranja com 40,8 kg por safra. Há dez anos, o patamar já estava reduzido para 100 milhões de caixas. Na safra 2024/2025, a produção limitou-se a 12,2 milhões de caixas e a projeção para a safra atual é de nova queda, de acordo com dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).
Queda na demanda
A principal causa da retração foi a propagação da doença do greening nos pomares americanos. A doença, causada por bactérias, não tem cura conhecida e atinge significativamente a qualidade dos frutos antes de matar a árvore. A produção americana também foi impactada por eventos climáticos de grandes proporções, como uma série de furacões verificados nos últimos anos.
— A citricultura perdeu espaço na Flórida. Áreas antes ocupadas por pomares agora estão dedicadas a outras culturas agrícolas ou ao mercado imobiliário, e não há perspectiva, no curto prazo, de reversão da situação — diz Netto.
O Brasil, responsável por 75% do comércio internacional de sucos de laranja, e o México, com quase 15%, são os que mais se beneficiaram do declínio dos pomares americanos. Os mexicanos ainda têm a vantagem da proximidade física com os EUA e do acordo de livre-comércio com americanos e canadenses.
Casa Branca anuncia: China comprará US$ 17 bilhões em produtos agrícolas dos EUA anualmente
Os produtores brasileiros fornecem aos EUA desde os anos 1960 e contam com maior escala produtiva e uma boa infraestrutura em solo americano, que inclui desde terminais portuários até unidades processadoras locais, além de escritórios comerciais. As exportações para os EUA, que estavam na casa de 200 mil toneladas há quatro anos, superaram 300 mil toneladas nas últimas três safras. Além da retração na oferta global, gerada pela queda da produção da Flórida, o mercado internacional também está diante de outro problema: a queda na demanda pela bebida.
— Há uma década, o consumo global estava na casa de dois milhões de toneladas de FCOJ Equivalente. Hoje está em 1,1 milhão de toneladas — diz Andrés Padilla, analista do Rabobank.
A causa é uma mudança de hábito de consumo. O suco de laranja hoje é percebido como uma bebida calórica, o que afasta o consumidor preocupado em controlar o nível de glicose no sangue.
— O consumidor, principalmente o mais jovem, tem trocado o suco de laranja por chás, água e sucos de frutas menos calóricas — diz Padilla.
Essa mudança de hábito, apesar de ser global, é mais forte na Europa do que nos Estados Unidos e ajuda a explicar a queda da participação europeia nas exportações brasileiras. Os embarques brasileiros para a União Europeia declinaram de 571,6 mil toneladas de FCOJ Equivalente, na safra de 2022/2023, para 376,4 mil toneladas na safra 2024/2025. Entre julho de 2025 e abril de 2026, as exportações retraíram 15% em relação ao mesmo período da safra anterior.
O mercado global de suco de laranja também está sendo afetado por uma crise conjuntural, gerada pela queda na produção brasileira na safra 2024/2025, quando o país produziu 230 milhões de caixas de laranja de 40,8 kg, uma redução de 25% em relação ao período anterior.
— Foi a pior safra em 30 anos — diz Ibiapaba Netto.
A produção brasileira foi afetada por questões climáticas que somaram temperaturas elevadas prolongadas, no momento errado, e seca. Por outro lado, a infecção por greening também impacta os pomares nacionais.
Initial plugin text
Preços internacionais
A redução na oferta de laranja fez os preços internacionais do suco dispararem. Em 2023, o preço médio na bolsa de Nova York estava em US$ 2.800 por tonelada de FCOJ Equivalente. Em 2025, a tonelada alcançou um valor de US$ 5.400.
O produtor brasileiro de suco de laranja embarcou 745,6 mil toneladas de FCOJ Equivalente na safra 2024/2025, 19,4% menos do que na anterior, mas obteve uma receita de US$ 3,31 bilhões, uma expansão de 31,44%. Para os EUA, foram embarcadas 305,8 mil toneladas de FCOJ na safra 2024/2025, o que gerou um faturamento de US$ 1,3 bilhão.
A colheita na safra 2025/2026 preencheu 292,94 milhões de caixas, segundo a associação Fundecitrus, volume 26,9% maior do que na safra anterior. Os números acalmaram os mercados internacionais. A cotação média da tonelada FCOJ Equivalente na bolsa de Nova York recuou para US$ 2.600 neste ano.
Mas a redução dos preços ainda não chegou às gôndolas dos supermercados. Os engarrafadores de suco contam com estoques formados na safra passada, quando pagaram preços altos e tiveram redução em suas margens de lucro.
— O preço elevado afasta mais o consumidor do suco de laranja e fortalece as bebidas alternativas — diz Padilla.
As perspectivas, porém, são positivas, com a queda nos preços verificada na safra atual. De acordo com relatório da Nielsen, para cada ponto percentual na queda dos preços do suco de laranja há um aumento de consumo da bebida entre 1% e 1,8%.
