EUA são 'país muito diverso, que ao mesmo tempo exclui certas pessoas', diz especialista sobre os 250 anos de independência
Diante de uma celebração do Dia da Independência com uma nação dividida e liderada por um presidente que quer usar a data para benefício próprio, muitos questionam exatamente para quem são os festejos.
Ativistas apontam que enquanto que os fogos estouram nos céus, indicadores sociais na nação mais rica do mundo definham, e direitos conquistados são retirados ou se veem ameaçados por tribunais e congressistas.
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Em entrevista ao GLOBO, Nikhil Pal Singh, professor de de Análise Social e Cultural e de História da Universidade de Nova York, faz uma análise da evolução da sociedade americana ao longo dos últimos dois séculos e meio, e de como a “terra dos livres”, como canta o hino americano, nem sempre fez jus às palavras entoadas neste sábado.
O Juramento de Fidelidade dos EUA menciona “uma nação sob Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos”.
Hoje, no aniversário de 250 anos da independência, isso se aplica de forma generalizada?
Em geral, os países do Hemisfério Ocidental foram fundados por colonizadores que se apropriaram de terras indígenas, que por vezes trouxeram escravos, mas que criaram sociedades nas quais a ideia de adesão a elas era uma questão em aberto.
Em tese, qualquer um poderia ser membro.
Em diferentes momentos, houve esforços por parte do grupo dominante para definir limites.
Nos primeiros anos dos EUA, isso era bem claro: escravos e indígenas estavam do lado de fora.
Depois, diferentes grupos de várias partes do mundo começaram a se tornar membros dessa sociedade, participando da vida civil como cidadãos.
Neste cenário, os EUA se tornaram país muito diverso, que ao mesmo tempo exclui certas pessoas.
De certa maneira, isso continua até hoje.
Trupe vestida com as roupas do Exército de Massachusetts de 1775 em evento diante do Memorial ao Soldado Desconhecido na Filadélfia em
Al Drago/Getty Images/AFP
Ainda sobre as primeiras décadas da história dos EUA, houve líderes, como o presidente Andrew Jackson, que fomentaram a mentalidade de “nós contra eles”, sendo que "eles", em muitas ocasiões, eram as nações originárias.
Até que ponto essa visão de mundo contribuiu para a formação dos pilares políticos do país?
No primeiro século dos EUA, havia uma sociedade baseada na escravidão em grandes partes do país, e os escravagistas, apoiados pelo sistema judicial, diziam que descendentes de africanos não poderiam ser cidadãos.
Por outro lado, havia muitas tribos nas colônias originais, muitas protegidas por acordos locais.
Nos anos 1820, 1830, os cherokees alegaram que eram um povo civilizado, que tinham direitos e que deveriam ser deixados em paz.
Mas os colonos na Geórgia queriam suas terras, e Andrew Jackson atuou diretamente para expulsá-los.
Houve um episódio muito famoso em seu governo, a Trilha das Lágrimas, quando os cherokees e outras nações foram obrigadas a marchar rumo ao oeste, e dezenas de milhares morreram.
É parte de uma história mais ampla, na qual os Estados Unidos estavam em guerra contra centenas de diferentes nações indígenas, e que viu a construção de um país baseado na primazia dos colonos.
Neste modelo, surge o sistema de reservas, onde os indígenas recebem algum grau de autonomia, mas são limitados geograficamente e governados pelo governo americano.
Eles só puderam se tornar cidadãos americanos nos anos 1920, quando suas coletividades e sociedades tinham sido destruídas.
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Em seu livro "Raça e a longa guerra dos Estados Unidos", o senhor afirma que, para os negros, a Guerra Civil jamais chegou ao fim.
Em que sentido?
Foi uma provocação, porque a Guerra Civil levou ao fim do sistema escravagista e da escravidão, e eventualmente os homens negros passam a ter o direito ao voto e à cidadania.
Mas após o início da Era da Reconstrução, os estados onde essas pessoas viviam como escravos começaram a aprovar leis lhes negando os direitos recém-conquistados.
Não podiam mais votar, não podiam participar da vida pública, viver em certas partes das cidades, frequentar certos estabelecimentos.
Foi todo um sistema legal, posteriormente chamado de Leis Jim Crow ou leis de segregação.
No fim do Século XIX, a Suprema Corte decidiu, no caso Plessy v.
Ferguson, que não há problema em ter leis que separem pessoas negras e brancas, desde que elas sejam “iguais”.
Mas claro que não eram iguais.
Quando pessoas negras vão para escolas separadas, vivem em partes menos desejáveis das cidades, quando não têm acesso a certos serviços ou não podem votar, claro que não é a mesma coisa.
Essa situação vai até os anos 1960, ou seja, quase um século até que os negros tenham direitos civis e políticos plenos.
E há outro ponto: essa cidadania de segunda classe é mantida através da violência, e com negros vetados dos júris, os brancos que cometiam crimes raciais não eram punidos.
Por isso digo que a Guerra Civil jamais terminou para os negros.
Não houve um só período após a guerra em que a população negra tenha exercido a vida cívica de forma normal, sem a ameaça da violência e da desigualdade.
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Neste contexto, o senhor considera que o movimento dos direitos civis dos anos 1960 foi uma revolução dentro do sistema?
A história americana pode ser muito cíclica.
A Guerra Civil, por exemplo, emancipou os escravos, mas foi sucedida por um período de segregação racial reimposta.
Nos anos 1960, houve um movimento social bem sucedido, que aprovou leis importantes, que alavanca lideranças e que de várias formas muda as atitudes do país.
Ou seja, de muitas formas foi um momento revolucionário de transformação.
Por outro lado, o movimento não tocou em alguns tipos de desigualdade vistos por centenas de anos.
As pessoas negras enfrentam uma pobreza desproporcional, são submetidas de forma desproporcional ao sistema de justiça, e vivem em um modelo no qual políticos brancos investem em ações de hierarquia racial, em que os avanços obtidos pelo movimento de direitos civis estão ameaçados.
O movimento Vidas Negras Importam começa a enfrentar esses problemas nos anos 2010, e obteve certo sucesso ao mudar algumas atitudes.
Hoje, ainda temos desigualdade racial nos EUA, mas também um maior nível de integração da população negra na vida americana como resultado das vitórias do movimento dos direitos civis.
Os EUA se apresentam como um país universalista, que promove a justiça social e a democracia, mas como o senhor mesmo relatou, nem sempre foi assim.
Quando ocorreu essa virada de chave?
Os Estados Unidos foram fundados como uma república livre de todos os tipos de coerções da coroa britânica.
Mas a ideia de liberdade era imaginada para um pequeno grupo de homens brancos donos de terras.
Com o tempo, outras pessoas apresentaram suas demandas por liberdade.
Sempre cito o caso de Frederick Douglass, um homem que escapou da escravidão e se tornou um importante abolicionista.
Em discurso em 4 de julho de 1852, antes da Guerra Civil, ele pergunta a um escravizado o que significa essa data e acrescenta: “Nós também temos direito à Declaração da Independência? Nós também temos direito à liberdade?”.
Ali, essencialmente dizia que sim, e é essa a ideia por trás das lutas por questões sociais nos Estados Unidos até hoje.
O país começa a mudar de fato nos anos 1930, quando o país teve o governo mais à esquerda de sua História, com Franklin Delano Roosevelt.
Uma administração que tinha o apoio dos trabalhadores, das comunidades de imigrantes e também dos afro-americanos, que agora trabalhavam na indústria no norte.
Na Segunda Guerra Mundial, há uma luta contra o fascismo e as ideias que eles defendem, e há muita pressão pela rejeição à hierarquia racial.
Com o fim do conflito, os EUA surgem como “líderes do mundo livre”, e também são forçados a construir internamente uma sociedade que não fosse baseada em hierarquias raciais, religiosas ou com base nas origens das pessoas.
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Rafael Oliveira
Ao mesmo tempo, o país não abandonou práticas do passado, como a interferência em outras regiões e Estados nacionais…
Os Estados Unidos se tornaram um país que promove ideias universalistas, mas também que opera como um império.
Ele participa de guerras ao redor do mundo, de certa forma para impedir que as pessoas exerçam seus direitos à autodeterminação.
Uma anedota que citei em artigo recente é a de quando o líder da independência do Vietnã, Ho Chi Minh, envia cartas ao governo de Harry Truman, nos anos 1940, pedindo apoio com base nos princípios da Declaração de Independência dos EUA.
Não apenas Truman ignorou as cartas como apoiou os esforços franceses para reconquistar o Vietnã.
Quando a França fracassou, os EUA lançaram a sua própria guerra.
Há muita hipocrisia na ideia de que os Estados Unidos são uma nação universal, mas é um pensamento que começa a tomar forma de maneira interna a partir da Segunda Guerra Mundial.
Em um artigo recente, o senhor mencionou que o 4 de Julho era um momento em que os americanos refletem sobre o estado da nação.
Hoje, quais questões estão nas mentes ao redor do país?
Acredito que os Estados Unidos estão em um lugar muito difícil neste momento, e como resultado disso, colocando várias partes do mundo, especialmente nossos vizinhos, sob grande pressão.
A noção dos Estados Unidos como uma nação universal foi rejeitada pela direita, e com isso temos o retorno de uma forma mais cruel do imperialismo.
Não que os Estados Unidos tenham deixado de ser uma potência imperial após a Segunda Guerra Mundial, mas era uma nação que reconhecia a ideia de um sistema internacional de regras ao qual estava ligada.
Agora, o governo alega que pode simplesmente anexar os territórios de seus vizinhos.
Por isso, acredito que os americanos se questionarão sobre que país nós somos, e creio ser necessário confrontar essa visão da direita de que não somos uma nação universal, de que os direitos humanos não são mais aplicáveis a todos.
