EUA querem testar vacina contra hepatite B em recém-nascidos na Guiné-Bissau
A Organização Mundial da Saúde expressou, nesta sexta-feira, sérias preocupações com um ensaio clínico de uma vacina contra hepatite B, financiado pelos Estados Unidos, planejado para recém-nascidos na Guiné-Bissau, governada por uma junta militar, questionando o processo sob pontos de vista científicos e éticos.
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A OMS insistiu, em um comunicado, que a vacina contra hepatite B administrada ao nascimento é uma intervenção de saúde pública "eficaz e essencial", com histórico comprovado. A declaração mais recente da agência surge dois meses depois de um painel consultivo — nomeado pelo secretário de saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr. — ter votado para deixar de recomendar que todos os recém-nascidos nos Estados Unidos recebam a vacina contra a hepatite B.
Kennedy sempre foi um cético declarado em relação às vacinas, e seu departamento afirma que o estudo na Guiné-Bissau busca "responder a perguntas sobre os efeitos mais amplos da vacina na saúde" e "preencher as lacunas de evidências existentes".
A decisão dos EUA de acabar com a recomendação, que já durava décadas, é a mais recente e controversa mudança de posição do painel em relação às vacinas. Em defesa da vacina existente, a OMS afirmou na sexta-feira: "Ela previne doenças hepáticas potencialmente fatais, impedindo a transmissão de mãe para filho no nascimento."
"Ele vem sendo usado há mais de três décadas, e mais de 115 países o incluíram em seus programas nacionais", acrescentou.
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A proteção dos recém-nascidos com a vacina também foi considerada importante para os esforços de eliminação em nível nacional e global, afirmou a agência. Já na quarta-feira, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, havia classificado o ensaio clínico planejado para o país da África Ocidental como "antiético". A Guiné-Bissau suspendeu o estudo enquanto aguarda novas análises técnicas, informou a OMS.
'Preocupações significativas'
Em comunicado divulgado na sexta-feira, a organização detalhou suas preocupações, com base no que sabia sobre o julgamento proposto.
"A OMS tem preocupações significativas em relação à justificativa científica do estudo, às salvaguardas éticas e ao seu alinhamento geral com os princípios estabelecidos para pesquisas envolvendo participantes humanos", afirmou.
A vacina possui um "histórico de segurança comprovado ao longo de décadas de uso" e é eficaz na prevenção de 70 a 95% dos casos de transmissão de mãe para filho", acrescentou. Um estudo que administrou uma intervenção comprovadamente eficaz para salvar vidas a alguns recém-nascidos, mas não a outros, expõe-os a "danos potencialmente irreversíveis", afirmou a organização.
Argumentou ainda que os ensaios clínicos com placebo ou com vacinas sem tratamento "só são aceitáveis quando não existe nenhuma intervenção comprovada" -- ou quando esse tipo de ensaio é "indispensável" por outros motivos.
"Nenhuma das condições parece ter sido atendida", afirmou.
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A OMS afirmou que o estudo não apresentou justificativa científica suficiente e que o desenho do ensaio "apresenta uma probabilidade significativa de risco substancial de viés". A OMS afirmou na quarta-feira que não tinha conhecimento de "nenhuma evidência que sustentasse" qualquer preocupação em relação à vacina, que está em uso há mais de 40 anos.
A hepatite B causa centenas de milhares de mortes em todo o mundo a cada ano, sendo a transmissão durante o nascimento a via mais comum de infecção ao longo da vida. A Guiné-Bissau apresenta uma alta prevalência de hepatite B e decidiu, em 2024, adicionar a dose da vacina contra hepatite B ao nascimento ao seu calendário nacional de vacinação, com previsão de implementação até 2028.
A agência de saúde da ONU afirmou estar pronta para apoiar a Guiné-Bissau na avaliação dos próximos passos do ensaio clínico financiado pelos EUA e na aceleração da eventual implementação rotineira da vacina. Desde que o presidente Donald Trump nomeou Kennedy, o governo dos EUA iniciou uma grande reformulação da política de vacinação, o que tem gerado crescentes preocupações na comunidade médica.
Em janeiro de 2025, os Estados Unidos entregaram à OMS o aviso prévio de um ano para sua retirada. Kennedy afirmou, no mês passado, que a organização sediada em Genebra havia "destruído tudo o que os Estados Unidos fizeram por ela".
