EUA propõem que Brasil receba estrangeiros presos em território americano e plano para eliminar PCC e CV

 

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Uma proposta dos Estados Unidos para ampliar a cooperação com o Brasil no combate a organizações criminosas transnacionais inclui a possibilidade de o Brasil receber em prisões brasileiras estrangeiros capturados em território americano, em modelo semelhante ao adotado por El Salvador no Terrorism Confinement Center. O documento enviado pela gestão de Donald Trump ainda requer que o governo brasileiro apresente medidas voltadas ao combate ao Primeiro Comando da Capital (PCC), ao Comando Vermelho (CV), ao Hezbollah e a organizações criminosas chinesas em atuação no país.

A informação sobre a proposta enviada pelos EUA, antecipada "Folha de S.Paulo", foi confirmada pelo GLOBO junto a interlocutores que acompanham as negociações entre os dois governos.

Outro ponto apresentado pelos americanos é o compartilhamento de informações com autoridades dos EUA, incluindo dados biométricos de estrangeiros em busca de refúgio e refugiados no Brasil, dentro de medidas voltadas ao combate ao crime transnacional e ao controle migratório por portos e fronteiras.

As demandas americanas integram a contraproposta apresentada pelo governo de Donald Trump ao plano de cooperação sugerido anteriormente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em telefonema realizado no ano passado, quando também foi construída a trégua diplomática após o tarifaço.

No governo brasileiro, a avaliação é de que o enfrentamento ao crime organizado deve continuar baseado em cooperação operacional já existente. Um importante interlocutor afirmou: “Não acreditamos em soluções mágicas do tipo ‘plano’ ou ‘designação como terrorista’, mas em trabalho contínuo e detalhado de cooperação, troca de informações e coordenação operacional.”

A expectativa no governo brasileiro é que um entendimento — formal ou político — possa ser anunciado em conjunto pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em um próximo encontro entre os dois mandatários, ainda sem data definida.

Um acordo entre Brasil e EUA é tido como fundamental pelo governo Lula para evitar que Washington classifique facções criminosas brasileiras, como PCC e Comando Vermelho, como terroristas. Preocupadas com a soberania nacional e o alcance da medida, autoridades brasileiras argumentam que esses grupos visam ao lucro, e não agem por razões ideológicas.

Segundo um importante negociador brasileiro, há um esforço em Brasília para transformar em avanços concretos uma cooperação já existente entre os dois países, hoje concentrada em áreas como narcotráfico, lavagem de dinheiro, tráfico de armas e inteligência policial. Ele lembra que já havia um trabalho conjunto, considerado positivo, e ressalta que a ideia é ir além do que já existe, com outras áreas nesse sistema de troca de informação, de atuação recíproca e em outros temas em que já há colaboração.

Entre os exemplos citados nas negociações estão mecanismos para rastrear peças de armas enviadas ilegalmente em cargas comerciais, reforçar a identificação de fluxos financeiros ilícitos e ampliar a articulação em segurança digital. Conforme integrantes do governo brasileiro, uma das preocupações é acompanhar novas rotas e métodos usados por organizações criminosas.

Há discussões ainda mais específicas sobre sistemas de troca de informação, cooperação na área de cibersegurança e controle do contrabando de armamentos, além de acompanhar as novas formas que esse tráfico de mercadorias ilegais tem assumido — feito não necessariamente com armas inteiras, mas com partes de armas contrabandeadas dentro de contêineres regulares. “É esse tipo de cooperação real, não fictícia, sem palavras mágicas”, resumiu um interlocutor envolvido nas discussões.