EUA podem ser punidos pela Fifa e pelo COI após ataque à Venezuela, mas cenário político trava qualquer sanção; entenda
O ataque militar dos Estados Unidos à Venezuela, ocorrido neste fim de semana, reacendeu um debate que costuma surgir sempre que conflitos armados cruzam a fronteira do esporte: há base para punições esportivas a países envolvidos em ações militares consideradas ilegais pelo direito internacional? Na teoria, sim. Na prática, porém, o peso político, econômico e simbólico dos EUA torna improvável qualquer sanção da Fifa ou do Comitê Olímpico Internacional, às vésperas da Copa do Mundo de 2026 e dos Jogos Olímpicos de Los Angeles-2028.
A legalidade da operação norte-americana vem sendo discutida no campo diplomático e jurídico, já que o uso da força fora das exceções previstas pela Carta das Nações Unidas — como legítima defesa ou autorização do Conselho de Segurança — é classificado como crime de agressão. Esse tipo de enquadramento não fica restrito à política internacional e, nos últimos anos, passou a alcançar também o movimento esportivo global.
O esporte ainda é neutro diante de guerras?
Durante décadas, a neutralidade esportiva funcionou como um escudo institucional. A ideia era simples: manter competições e organizações afastadas de disputas políticas e militares. Esse entendimento, no entanto, foi sendo esvaziado nos próprios regulamentos das entidades esportivas.
Nos últimos anos, federações e comitês passaram a incorporar compromissos explícitos com direitos humanos, dignidade humana e valores universais. Na prática, isso significa que o esporte deixou de se declarar automaticamente neutro em situações de conflito armado envolvendo violações graves desses princípios.
Existem regras que permitiriam punições aos EUA?
Sim. Tanto no futebol quanto no olimpismo, os instrumentos normativos existem. A Fifa assumiu formalmente a responsabilidade de respeitar e promover direitos humanos internacionalmente reconhecidos, vinculando esse compromisso às suas atividades, competições e processos de escolha de sedes. Já a Carta Olímpica associa o esporte à promoção da paz, do desenvolvimento humano e do respeito a direitos fundamentais.
Esses textos não falam diretamente em “guerra” ou “crime de agressão”, mas abrem margem para medidas excepcionais em nome da integridade institucional, da segurança e da coerência com os valores proclamados. Em teoria, isso poderia incluir desde restrições esportivas até mudanças de sede de grandes eventos.
O esporte já puniu outros países por conflitos armados?
Sim, e esse é um ponto central do debate. Nos anos 1990, a antiga Iugoslávia sofreu sanções esportivas durante a guerra nos Bálcãs. Mais recentemente, após a invasão da Ucrânia, clubes e seleções da Rússia foram afastados de competições internacionais organizadas pela Fifa e pela Uefa.
No caso olímpico, o COI adotou uma solução intermediária, permitindo a participação de atletas russos sob bandeira neutra, sem hino ou símbolos nacionais. Essas decisões consolidaram um entendimento recente: o esporte não ignora mais conflitos armados em nome da neutralidade absoluta.
Por que o caso dos EUA é diferente?
Aqui está o ponto de ruptura entre teoria e prática. Os Estados Unidos ocupam uma posição central no sistema esportivo global: são sede da próxima Copa do Mundo, em conjunto com Canadá e México, e receberão os Jogos Olímpicos de 2028, em Los Angeles. Além disso, representam o maior mercado comercial do esporte, com influência direta sobre patrocinadores, direitos de transmissão e logística internacional.
Aplicar aos EUA a mesma régua usada em outros casos significaria enfrentar custos políticos, econômicos e institucionais extremamente elevados. Não se trata da ausência de regras, mas da dificuldade — ou falta de disposição — para aplicá-las quando o alvo está no centro do poder esportivo mundial.
O que deve acontecer a partir de agora?
No curto prazo, a expectativa mais realista é de nenhuma sanção esportiva concreta. Até o momento, não houve manifestações públicas das principais entidades globais sobre possíveis impactos do ataque no calendário esportivo. O cenário mais provável é que as consequências fiquem restritas ao campo reputacional, com questionamentos de atletas, organizações da sociedade civil e observadores internacionais.
O esporte evita a palavra “boicote”, mas convive permanentemente com ela. Quanto maior a seletividade na aplicação de seus valores, mais frágil se torna o discurso de universalidade que sustenta eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas.
O que está em jogo além do conflito?
Mais do que o episódio específico envolvendo Venezuela e Estados Unidos, o debate expõe os limites da governança global do esporte. As regras existem, os precedentes também. O que falta, muitas vezes, é a disposição política para aplicá-los quando o custo é alto demais.
Nesse contexto, o silêncio institucional não é neutro. Ele funciona como escolha, e coloca em xeque a coerência entre os princípios que o esporte afirma defender e a forma como age quando esses princípios confrontam o poder.
