EUA e Irã iniciam negociação; acordo está 'ao alcance' se foco for apenas não produzir armas nucleares, diz conselheiro de Khamenei
Durante a terceira rodada de negociações indiretas entre Irã e Estados Unidos, que acontece nesta quinta-feira em Genebra, Ali Shamkhani, um importante assessor do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, sugeriu que Teerã poderia chegar a um acordo imediato com Washington se o foco fosse exclusivamente no compromisso da República Islâmica de não desenvolver armas nucleares. Essas negociações têm o objetivo de superar o atual cenário de "nem guerra, nem paz", nas palavras de Teerã, que enfrenta a ameaça de um ataque ordenado pelo presidente americano, Donald Trump, respaldado por uma significativa "armada" no Oriente Médio.
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"Se a principal questão das negociações for o não desenvolvimento de armas nucleares pelo Irã, isso está em consonância com a fatwa [declaração religiosa] do Líder Supremo e com a doutrina de defesa iraniana, e um acordo imediato está ao alcance", escreveu Shamkhani no X.
O conselheiro — que ficou ferido durante a guerra de 12 dias entre Irã e Israel em junho do ano passado, quando os EUA também lançaram um ataque contra as instalações nucleares iranianas — acrescentou que o ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi tem "apoio e autoridade suficientes" para liderar um acordo final nas negociações.
— O sucesso das negociações depende da seriedade da outra parte e de sua capacidade de evitar comportamentos e posições contraditórias — ressaltou o chanceler iraniano nesta quinta-feira.
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Como mediador das negociações em Genebra, o governo de Omã afirmou que os negociadores "demonstraram uma abertura sem precedentes a ideias e soluções novas e criativas". Além disso, acrescentou que tanto as "propostas" do Irã quanto as "respostas e indagações" dos EUA sobre os "principais elementos do programa nuclear iraniano" foram analisadas durante a reunião, assim como as "garantias necessárias" para se chegar a um acordo.
A agência de notícias semioficial iraniana Mehr informou que Rafael Grossi, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), juntou-se às negociações em Genebra e atua como "observador técnico". Para o Irã, a presença de Grossi é considerada significativa, uma vez que o chefe da AIEA tem autoridade legal para declarar se considera que qualquer acesso oferecido por Teerã para verificar seus compromissos com enriquecimento de urânio corresponde às necessidades da inspeção.
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JUAN MABROMATA / AFP
Desde janeiro, os países afirmam que estão abertos ao diálogo, mas também a uma operação militar. Washington deseja um acordo que garanta, entre outras coisas, que Teerã não desenvolva armas atômicas, um receio antigo das potências ocidentais.
Mísseis que ameaçam a Europa e os EUA
Trump, por sua vez, afirma que prioriza a diplomacia, mas na última terça-feira, durante seu discurso sobre o Estado da União ao Congresso americano, acusou Teerã de ter "ambições nucleares". Segundo o republicano, o Irã desenvolveu "mísseis que podem ameaçar a Europa e nossas bases" militares e quer produzir outros ainda mais poderosos, capazes de "alcançar em breve os EUA".
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Teerã, que afirma ter limitado o alcance de seus mísseis a 2 mil km, se defendeu e afirmou que as acusações de Trump são "grandes mentiras".
— Nosso líder supremo já declarou que não teremos armas nucleares de forma alguma — afirmou o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, em um discurso. — Mesmo que eu quisesse avançar nessa direção, não poderia, de um ponto de vista doutrinário, não me seria permitido.
O programa balístico iraniano é outro tema de discórdia. Washington quer abordar o tópico, assim como o apoio de Teerã a grupos armados hostis a Israel. Mas Teerã é reticente, o que reduz a perspectiva de um acordo.
— O tema das negociações (...) está concentrado na questão nuclear — disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmail Baqaei, às vésperas das negociações.
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Baqaei afirmou ainda que o país vai pressionar para obter o fim das sanções a que está submetido e pretende reiterar o seu direito "ao uso pacífico da energia nuclear".
Para o secretário de Estado americano, Marco Rubio, isso é "um grande problema".
— Temos que falar sobre outros temas, que vão além do programa nuclear — afirmou Rubio.
(Com AFP)
