Os Estados Unidos estão elaborando regras para empresas farmacêuticas que investem na China que provavelmente preservariam sua capacidade de fechar a maioria dos acordos de licenciamento de medicamentos chineses, segundo três pessoas que foram informadas sobre o processo. Isso representaria um afastamento da política do governo Trump de endurecer as relações comerciais com a China em outros setores sob uma nova legislação de segurança nacional e seria menos restritivo do que as limitações defendidas por alguns parlamentares. As regras, que estão sendo elaboradas pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, provavelmente permitirão que empresas farmacêuticas americanas invistam em novos medicamentos promissores desenvolvidos por companhias chinesas, desde que eles não estejam relacionados a patógenos ou a biotecnologias que possam ser transformadas em armas, disseram as fontes.
As fontes, que pediram anonimato por não estarem autorizadas a discutir publicamente o processo, afirmaram que as regras ainda não foram finalizadas e estão sujeitas a mudanças, especialmente caso o presidente Donald Trump intervenha.
Alguns parlamentares e fabricantes de medicamentos de menor porte discordam dessa abordagem, por considerarem que esses investimentos representam um risco à segurança nacional e poderiam enfraquecer a posição de liderança dos Estados Unidos no desenvolvimento de medicamentos.
As regras poderiam permitir a realização de acordos no valor de bilhões de dólares para ajudar a preencher os portfólios de medicamentos em desenvolvimento de empresas americanas e, ao mesmo tempo, fornecer capital às companhias chinesas. Os acordos de licenciamento externo no setor de biotecnologia da China movimentaram US$ 115 bilhões no ano passado, segundo a empresa de pesquisa GlobalData.
O presidente chinês, Xi Jinping, deve se reunir com Trump nos Estados Unidos na próxima semana. É pouco provável que o Tesouro anuncie novas regras sobre investimentos no setor farmacêutico antes da reunião, disseram as três fontes e uma quarta pessoa que também foi informada sobre o processo.
O conteúdo das regras em análise ainda não havia sido divulgado anteriormente. Autoridades do Tesouro e da Casa Branca se recusaram a comentar.
Setor farmacêutico é contra restrições amplas A rivalidade econômica entre Estados Unidos e China se intensificou, com Washington mirando a ascensão chinesa em setores como tecnologia, semicondutores e veículos elétricos.
Grandes fabricantes de medicamentos, entre elas a Pfizer, reuniram-se nos últimos meses com autoridades do governo Trump, incluindo o secretário do Tesouro, Scott Bessent. Segundo as fontes, as empresas argumentaram contra restrições amplas a investimentos ligados ao desenvolvimento de medicamentos chineses, afirmando que essas medidas poderiam afastar as companhias americanas de uma fonte de novos medicamentos que cresce rapidamente.
O diretor-presidente da Pfizer, Albert Bourla, afirmou em entrevista que discutiu a China e preocupações relacionadas à segurança nacional com Bessent, com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com representantes do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos.
Bourla disse não acreditar que acordos firmados por fabricantes de medicamentos americanos para licenciar produtos de empresas chinesas representem uma preocupação de segurança nacional e afirmou que essas operações não deveriam sofrer restrições.
“Não acho que essa seja a maneira de competir com a China, tentando desacelerá-los”, disse Bourla.
Segundo ele, é irrelevante se novos medicamentos são desenvolvidos na China ou nos Estados Unidos. “O importante é ter um novo medicamento, e não vejo nenhuma preocupação de segurança nacional em algo assim.”
Quase metade dos acordos firmados por empresas americanas em 2025 para licenciar medicamentos vindos do exterior foi realizada com companhias chinesas, segundo a GlobalData, tendência que continuou em 2026. Neste ano, a Bristol Myers Squibb firmou uma parceria com a Jiangsu Hengrui Pharma que pode chegar a US$ 15,2 bilhões, enquanto a Pfizer anunciou uma colaboração de até US$ 10,5 bilhões com a Innovent Biologics, abrangendo 12 programas de oncologia.
Disputa de lobby Algumas empresas de biotecnologia de médio e pequeno porte, que frequentemente dependem de acordos de licenciamento com grandes farmacêuticas americanas, defenderam justamente o contrário: restrições que poderiam dificultar a conclusão de acordos de licenciamento com empresas chinesas.
Jason Kelly, diretor-presidente da Ginkgo Bioworks, que presta serviços laboratoriais a empresas de biotecnologia, reuniu-se com autoridades do Tesouro para argumentar que as indústrias farmacêuticas dos Estados Unidos e da Europa sofrerão no longo prazo caso o atual ritmo de investimentos destinados à China continue.
“Estamos confortáveis com uma dependência estratégica da China para medicamentos inovadores? Porque é isso que estamos fazendo atualmente com essa transferência de atividades para o exterior”, afirmou Kelly, que presidiu um comitê consultivo do Congresso sobre concorrência em biotecnologia em 2023 e 2024.
Iniciativas de parlamentares Parlamentares como o republicano John Moolenaar, que preside o Comitê Especial da Câmara sobre o Partido Comunista Chinês, e a democrata Debbie Dingell, ambos de Michigan, manifestaram uma visão semelhante.
Moolenaar pediu ao Tesouro que utilize a Lei COINS, uma legislação de segurança nacional aprovada em 2025 com o objetivo de restringir investimentos no exterior, para endurecer o controle sobre transações farmacêuticas, embora o setor não tenha sido citado explicitamente na lei.
Os dois parlamentares são coautores de um projeto de lei que propõe uma regulamentação mais rigorosa pelo Tesouro sobre investimentos relacionados à biotecnologia, acordos de licenciamento e joint ventures envolvendo empresas chinesas, não por razões tradicionais de segurança, mas para impedir que a China domine a inovação em biotecnologia.
“O capital dos Estados Unidos que flui para empresas chinesas de biotecnologia por meio de acordos de licenciamento, joint ventures e investimentos em participação acionária está alimentando a estratégia da China e ajudando o país em sua rápida ascensão na cadeia de valor farmacêutica”, escreveu Moolenaar em uma carta enviada ao Tesouro em maio.
O deputado democrata Jake Auchincloss, cujo distrito em Massachusetts abriga muitas empresas do setor de ciências da vida, afirmou que as tentativas de desacelerar a indústria farmacêutica chinesa por meio da restrição dos gastos americanos no setor estão fadadas ao fracasso.
“A China está investindo US$ 100 bilhões em biotecnologia. A China tem cientistas brilhantes”, afirmou Auchincloss.
Sobre aqueles que defendem as restrições, acrescentou: “São pessoas que acham que é possível simplesmente copiar a política para semicondutores e aplicá-la à biotecnologia. Não é possível”.
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