EUA anunciam início da fase dois do plano de Trump para Gaza, e Egito cita acordo para formação de comissão palestina
Três meses após a implementação da trégua entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza, os Estados Unidos anunciaram o início da segunda fase do plano abrangente de 20 pontos do presidente americano, Donald Trump, para o enclave palestino. A decisão marca a transição do cessar-fogo para uma etapa voltada à desmilitarização, governança tecnocrática e à reconstrução do território devastado pela guerra. O anúncio foi feito nesta quarta-feira pelo enviado especial americano para o Oriente Médio, Steve Witkoff, em uma publicação nas redes sociais.
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“Em nome do presidente Trump, estamos anunciando o lançamento da Fase Dois do Plano de 20 Pontos do presidente para encerrar o conflito em Gaza, passando do cessar-fogo para a desmilitarização, a governança tecnocrática e a reconstrução”, escreveu, acrescentando: “É importante destacar que a Fase Um viabilizou ajuda humanitária histórica, manteve o cessar-fogo, garantiu a libertação de todos os reféns vivos e a devolução dos restos mortais de 27 dos 28 reféns mortos”.
Apesar do comunicado, a fase dois do plano tem início após a manutenção de um cessar-fogo considerado frágil entre Israel e o Hamas, em vigor desde outubro. Embora o grupo terrorista tenha sinalizado disposição para transferir a prestação de serviços públicos à comissão tecnocrática, ainda não iniciou o desarmamento, ponto central do plano americano. O impasse fez com que pessoas a par das discussões declarassem ao Wall Street Journal que as Forças Armadas de Israel elaboraram planos para uma nova operação terrestre em Gaza.
O Hamas, por sua vez, tem concentrado seus esforços na reconstrução de capacidades militares perdidas durante a guerra, incluindo partes de sua infraestrutura de túneis danificada, disseram autoridades árabes e israelenses ao veículo. O grupo ainda recebeu um novo influxo de recursos financeiros, o que voltou a permitir o pagamento regular de salários a seus combatentes. E, ainda que a trégua tenha sido em grande parte mantida, os esforços dos Estados Unidos para convencer países a enviar forças de paz para Gaza encontraram poucos interessados.
— [Anunciar a comissão] pode refletir um desejo de mostrar progresso, dado que o avanço em outras frentes tem sido difícil — disse ao New York Times Michael Koplow, analista do Israel Policy Forum, um centro de pesquisa com sede em Nova York. — Parece, para mim, que muito disso é apenas para mostrar que estão fazendo alguma coisa.
A decisão americana ocorre após o Egito anunciar, também nesta quarta-feira, que foi alcançado um consenso sobre a formação de uma comissão palestina de 15 tecnocratas para administrar Gaza. O Cairo vem atuando como principal mediador entre as facções palestinas e sediando as negociações que levaram ao acordo. Segundo o ministro das Relações Exteriores egípcio, Badr Abdellatty, a expectativa é de que a comissão seja oficialmente anunciada nos próximos dias.
A comissão deverá assumir, por exemplo, a gestão da vida cotidiana e dos serviços essenciais no enclave. O grupo terrorista Hamas, a Jihad Islâmica e outras facções declararam apoio à iniciativa, assim como a Presidência palestina, sediada em Ramallah, na Cisjordânia. Como parte da nova etapa do plano americano, os Estados Unidos devem anunciar formalmente a composição da comissão tecnocrática, que será chefiada por Ali Shaath, ex-vice-ministro do Planejamento da Autoridade Nacional Palestina, natural de Gaza e atualmente na Cisjordânia.
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A governança tecnocrática será supervisionada por um Conselho de Paz, presidido pelo próprio Trump e composto por líderes internacionais que ainda serão anunciados. Com cerca de 12 integrantes, o órgão fornecerá orientações estratégicas de alto nível sobre os assuntos relacionados a Gaza, disseram autoridades americanas. O ex-enviado das Nações Unidas para o Oriente Médio e ex-chanceler da Bulgária Nickolay Mladenov foi indicado como alto representante do conselho e deverá atuar como elo entre a comissão e a instância internacional.
Pós-cessar-fogo
O cessar-fogo firmado em outubro passado encerrou dois anos de combates intensos entre as partes, que deixaram mais de 70 mil palestinos mortos e o enclave em ruínas. Um retorno à guerra teria consequências graves para cerca de dois milhões de palestinos em Gaza, a maioria deslocada ao longo do conflito e muitos vivendo em acampamentos de tendas ou abrigos improvisados. Com a primeira fase do plano, o território ficou dividido: Israel passou a controlar pouco mais de 50% da área, enquanto o Hamas controla o restante.
Desde então, o Hamas intensificou a repressão a opositores e avançou para reforçar seu controle sobre Gaza. O grupo vem nomeando novos comandantes para substituir os que foram mortos e vem recompondo seus cofres com acesso a dinheiro armazenado em túneis, arrecadação de impostos e um novo fluxo de recursos do Irã, disseram as autoridades. Caso decida atacar novamente, analistas de segurança israelenses dizem que Israel pode optar por uma invasão em grande escala da Cidade de Gaza numa tentativa de forçar uma rendição rápida do Hamas, ou avançar de forma gradual, tomando o controle do território aos poucos.
Embora autoridades israelenses digam que não há previsões imediatas para uma incursão militar em Gaza sob controle do Hamas e que Israel está disposto a dar tempo para que o plano americano avance, os planos antecipados ao WSJ indicam a possibilidade de retomada dos combates. O movimento ocorre no momento em que o Estado judeu avalia uma nova rodada de confrontos com o grupo libanês Hezbollah e com o Irã, que estaria buscando reconstruir seu programa de mísseis balísticos após a guerra de 12 dias em junho passado.
Analistas de segurança israelenses observam, no entanto, que Israel terá de decidir a quais frentes de batalha dará prioridade. Combater o Hamas agora seria mais fácil para Israel porque não há mais a preocupação com a segurança de reféns, afirmou ao WSJ Erez Winner, que ocupou um cargo sênior de planejamento nas Forças Armadas israelenses durante a maior parte da guerra em Gaza e hoje é pesquisador no Israel Centre for Grand Strategy. Israel também poderia oferecer segurança aos palestinos no lado de Gaza controlado pelo governo israelense.
O Hamas concordou, em princípio, com o desarmamento no âmbito do plano de paz de Trump, e caberá ao Conselho de Paz e ao governo tecnocrático palestino decidir o que constitui esse desarmamento — se ele inclui, por exemplo, armas leves — e como ele será implementado, segundo uma fonte familiarizada com o tema. Este não é, no entanto, o único ponto que deveria ter sido resolvido antes do avanço para a segunda etapa da proposta americana: Israel ainda não abriu a passagem de Rafah, na fronteira entre Gaza e o Egito, para permitir a entrada e saída de palestinos do enclave, e o corpo do último refém israelense morto que permanece em Gaza ainda não foi devolvido.
— Enquanto o Hamas continuar mantendo o controle da segurança, há limites para o que a comissão pode fazer — disse Ghaith al-Omari, pesquisador sênior do Washington Institute for Near East Policy, acrescentando que os tecnocratas enfrentarão enorme pressão dos palestinos por avanços, que podem depender do afrouxamento, por Israel, das restrições à entrada de suprimentos no enclave. — Para que a comissão opere e ganhe alguma credibilidade, ele precisa entregar resultados. Não está claro para mim se os israelenses vão colaborar.
(Com agências internacionais)
