'Eu só chorava', diz mãe de jovem com deficiência que conseguiu primeiro emprego em projeto de inclusão no Rio
O presente veio embrulhado de forma simples, mas carregava anos de espera. Quando Gustavo Ferreira, de 21 anos, entregou à mãe algo comprado com o próprio salário, Ubiracira Ferreira reconheceu ali o resultado de uma trajetória marcada por terapias, obstáculos e insistência. O gesto simbolizava a conquista do primeiro emprego e uma mudança concreta na rotina da família. Realidade que o Projeto Ecoar, do Centro de Referência em Educação Inclusiva (Crei Sesc Senac RJ), localizado na Tijuca, busca ampliar e que agora está com inscrições abertas.
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A cena ocorreu em outubro de 2025 e ajuda a dimensionar um movimento mais amplo. Gustavo está entre as 50 pessoas com deficiência atendidas pelo Crei que conquistaram um emprego no último ano, após formação e acompanhamento pelo Projeto Ecoar. A iniciativa inclui capacitação profissional, encaminhamento e acompanhamento pós-contratação, com suporte à adaptação e à permanência no trabalho.
Ao todo, 27 homens e 23 mulheres, com idades entre 16 e 76 anos, foram contratados para funções que exigiam ensino médio, em áreas como administrativo e varejo. As oportunidades incluíram cargos como operador de loja, assistente administrativo, auxiliar administrativo e de almoxarifado e vagas de jovem aprendiz. Dezessete empresas e instituições participaram do processo. Entre elas, Advocacia-Geral da União, Unisuam, Hospital São Francisco, Hospital São Vicente, Assaí Atacadista e Grupo Azzas.
Amanda Furtado encontrou no mercado de trabalho uma nova perspectiva de vida após participar do Projeto Ecoar
Divulgação
A diretora do Crei Sesc Senac, Maria Antônia Goulart da Silva, afirma que o diferencial do projeto está na assistência contínua ao longo da trajetória profissional.
— A inclusão de pessoas com deficiência exige mais do que a abertura de vagas; requer preparo, acompanhamento e compromisso com o desenvolvimento de cada indivíduo — afirma.
Segundo ela, o trabalho também envolve diálogo direto com as empresas para ajustar exigências e tornar as vagas mais acessíveis, sem comprometer o desempenho esperado.
— Muitas vezes, as próprias descrições dos cargos criam barreiras desnecessárias. Nosso papel é construir, junto com as empresas, um encaixe real entre o perfil do profissional e as necessidades do cargo.
Matheus Portal tem posto de trabalho adaptado na Unisuam, onde atua na central de atendimento
Divulgação
Para ela, a inclusão precisa ser entendida como uma via de mão dupla, capaz de ampliar oportunidades e fortalecer as equipes.
— Ela só funciona quando há vontade genuína e abertura para ajustes. Não é sobre cumprir cota, mas criar condições reais para que todos possam contribuir e crescer — afirma.
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No caso de Gustavo, o caminho começou ainda na infância, após o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista e hiperlexia (distúrbio que se manifesta na criança através de uma facilidade precoce com a memorização de letras e números). Ao concluir o ensino médio, ele seguiu em cursos de formação e passou a frequentar, junto com a mãe, os encontros do Projeto Ecoar. A oportunidade de emprego surgiu nesse processo, mas foi recebida com desconfiança inicialmente:
— Pensei que fosse golpe. Entrei em contato com o Crei e confirmaram que era verdade. Meu coração disparou. Eu só chorava.
Hoje, Gustavo atua como jovem aprendiz organização Rede Cidadã, realizando tarefas administrativas, como preenchimento de cadastros e uso de computador. No início, algumas tarefas foram mais desafiadoras, mas o apoio no ambiente de trabalho fez diferença.
— Meu supervisor foi me orientando — conta.
Com o salário, passou a custear o curso de inglês e a natação, além de ganhar autonomia financeira:
— Eu fico muito feliz.
Para a mãe, as mudanças são visíveis no dia a dia.
— Ele passou a se comunicar melhor — revela.
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Outra história que ajuda a entender o alcance do projeto é a de Amanda Furtado, de 42 anos. Autista e com baixa visão, a hoje assistente administrativa na Advocacia-Geral da União é paciente paliativa do Inca e mãe solo de um jovem de 17 anos, também autista. Antes da recolocação, ela enfrentou várias recusas durante processos seletivos:
— Já me sentia exausta diante de tantas portas que se fechavam quando dizia ser paciente paliativa.
Naquele período, a rotina se dividia entre tratamento, estudos e a tentativa de manter o sustento, com renda complementada por vendas informais.
A contratação representou uma virada concreta.
— Foi a oportunidade que tive de me sentir viva e entender que estava começando do zero — lembra.
Hoje, Amanda tem uma jornada adaptada, que lhe permite conciliar tratamento e vida profissional. Destaca, ainda,o apoio da equipe:
— Eles respeitam meu tempo e me ajudam a compreender melhor as tarefas.
O impacto vai além da renda. Amanda diz que o trabalho contribuiu para que recuperasse a autoestima e o sentimento de pertencimento. Hoje, estuda Ciências Contábeis na UFRJ e projeta novos caminhos, sempre considerando o filho como parte central de suas decisões.
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Entre os profissionais inseridos também está Dan Lavrador, de 26 anos, pessoa com Transtorno do Espectro Autista. Ele é jovem aprendiz no setor de Recursos Humanos do Hospital São Francisco na Providência de Deus, na Tijuca:
— (O trabalho) me ajudou a ser independente, a ganhar o meu próprio dinheiro e não depender tanto da minha mãe. Também me fez evoluir como pessoa; estou mais social.
Outro exemplo é Matheus Portal, de 22 anos, que trabalha na central de atendimento ao aluno da Unisuam. Cadeirante, com comprometimento dos movimentos do pescoço para baixo, ele conta com posto de trabalho adaptado, com ajustes de altura e acessibilidade.
— Gosto muito do que faço. Estou sempre aprendendo algo novo e expandindo meu conhecimento. O trabalho vem me ajudando a me tornar mais independente, confiante e com novos planos — comenta.
Ao longo da trajetória, Matheus passou a se destacar pelo desempenho, com reconhecimento interno e premiações, tornando-se referência na equipe.
O Projeto Ecoar funciona com encontros presenciais mensais em unidades do Senac RJ e do Sesc RJ e reúne atualmente mais de 200 participantes.
Inspirado no conceito de Job Club, promove orientação profissional, construção de currículos, discussão sobre direitos e deveres no trabalho e troca de experiências entre os participantes. Também atua junto às empresas, com ações de sensibilização, ajustes nos perfis das vagas e apoio na integração.
Todos os 50 participantes inseridos em 2025 seguem empregados e em acompanhamento ativo.
O Projeto Ecoar é gratuito e aberto a pessoas com deficiência interessadas em ingressar no mercado de trabalho. As inscrições podem ser feitas pelos telefones 97294-9334 e 99622-7544 ou por formulário on-line. Os encontros acontecem mensalmente em unidades como Tijuca Botafogo, Copacabana, Riachuelo, Campo Grande e Nova Iguaçu, com atividades voltadas à formação e à empregabilidade.
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