'Eu não queria matá-lo, mas algo me dizia para matá-lo': o relato de um jovem com psicose que atacou o pai (e como o amor foi maior)

 

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Quando Cohen Miles-Rath entra na casa do pai, a história de sua psicose está ali, bem diante dele.

Ali está o lugar onde ele estava em pé quando recebeu uma mensagem enigmática no celular: o diabo havia entrado no corpo de seu pai. Ali está a gaveta onde viu uma faca com cabo branco — a cor de Deus.

Ali está o chão onde, enquanto lutavam pela faca, Cohen arrancou com uma mordida parte do lóbulo da orelha do pai, e o sangue respingou nos dois. Ali está o ponto onde, imobilizado no chão, Cohen ergueu a faca e golpeou descontroladamente o pescoço do pai.

A violência durou segundos, mas mudou toda a sua vida. Com as vozes ainda estrondando em sua cabeça, Cohen se viu na prisão, enfrentando acusações de agressão em segundo grau e dano criminoso, crimes que poderiam render até 10 anos de prisão. Atordoado e sangrando, seu pai havia prestado queixa e conseguido uma ordem de restrição contra ele.

Mas Cohen não o matou. Nos anos seguintes, teve a sensação de que havia caminhado até a beira de um abismo. Cerca de 300 vezes por ano, nos Estados Unidos, um filho mata um dos pais, o que representa cerca de 2% de todos os homicídios.

Uma grande parcela desses casos envolve pessoas como Cohen: homens jovens com doença mental grave que vivem em casa. Quando o agravamento dos sintomas psicóticos torna a escola ou o trabalho impossíveis, os pais se tornam a rede de apoio de último recurso. Delírios paranoicos podem inverter cruelmente essa lógica, voltando a pessoa contra a figura que lhe é mais próxima.

Cohen se encaixava nessa categoria; ele adorava o pai. Aos 11 anos, pediu para sair da casa da mãe e morar com Randy, em sua organizada casa móvel em Cohocton, Nova York. Por causa de Cohen, Randy, um motorista de transporte de combustível com brinco na orelha e jaqueta de couro, virou líder dos escoteiros. Assistia orgulhoso a todas as competições de atletismo do filho.

Agora, na pequena cidade, a família virou manchete sensacionalista — “Homem arranca a orelha do pai em ataque com faca”, dizia uma delas. Na prisão, as alucinações de Cohen se transformaram em terrores; a data de sua formatura na faculdade chegou e passou.

O que pesaria sobre ele por anos, muito depois de a psicose ter recuado, era se o pai conseguiria perdoá-lo.

— Eu ainda tinha atacado ele. Ainda eram as minhas mãos segurando a faca. Era eu fazendo aquilo, certo? Eu lembro daquele momento. Era eu. E não era eu — diz Cohen.

O rasgo do véu

Tenho feito reportagens sobre saúde mental durante grande parte da minha carreira e, com frequência, me vejo escrevendo sobre crimes cometidos por pessoas em psicose.

Eles representam uma pequena parcela dos crimes violentos — cerca de 4%, segundo pesquisadores — e a grande maioria das pessoas em psicose jamais se torna violenta. Mas são o tipo de crime que os jornais cobrem: inexplicáveis, assustadores em sua repentina brutalidade.

Foi por isso que fiquei intrigada, no ano passado, quando recebi o manuscrito de um livro de memórias de Cohen, relatando a espiral de delírios e alucinações que o levou a atacar o pai. Como, pensei, seu estado havia se deteriorado tanto estando cercado de pessoas que o amavam? E, depois, seria possível reconstruir a relação entre eles?

A história de Cohen começou com uma decepção comum em seu último ano na SUNY Geneseo: uma lesão encerrou sua carreira como corredor de longa distância. Livre daquela vida regimentada, ele começou a fumar maconha diariamente. Naquela primavera, sentiu algo mudando no mundo; tudo parecia cintilar diante dele.

Sinais começaram a saltar aos seus olhos em forma de cores: vermelho significava perigo, azul significava segurança. Sentado na aula de humanidades, viu — ou achou que viu — seu professor subir ao púlpito e anunciar que ele, Cohen, era um profeta.

Cohen estava vivendo uma psicose, a ruptura com a realidade que o psicólogo Carl Jung descreveu como um “rasgo do véu”. Alguns cientistas acreditam que esses sintomas surgem de alterações no neurotransmissor dopamina, que faz experiências sensoriais parecerem excepcionalmente vívidas e significativas.

À medida que março virou abril, uma presença de outro mundo começou a lhe dar instruções. Ele ligou a televisão e viu os corpos pálidos e nus de deuses dançando; viu sangue dourado brilhando nas veias de seus pés.

Dirigiu até uma lanchonete local e atirou uma pedra na vitrine, seguida por uma série de objetos vermelhos — uma mensagem para Satanás. Randy correu para casa, ainda com a roupa de trabalho, e encontrou Cohen na cozinha.

A mente de Cohen estava acelerada; ele sentia que o momento que o definiria para sempre havia chegado.

— Eu sentia que tinha me livrado completamente da minha identidade. Como se eu nem fosse Cohen. Eu era esse ser separado que sabia de tudo. É difícil descrever, mas parece que você é… parece que você é Deus.

Ele olhou para o celular e viu um desenho de um menino esmagando a cabeça de outro. Cohen sentiu que uma verdade lhe havia sido revelada: o diabo estava dentro de seu pai. Andou pela sala.

— Eu não quero matá-lo. Eu amo meu pai. Não posso matá-lo — disse Cohen em voz alta, para ninguém.

Em seguida, foi até a cozinha, abriu uma gaveta e pegou uma faca. ‘Ele vai matar você’

Aos 52 anos, Randy era fisicamente forte e pesava cerca de 25 quilos a mais do que o filho atleta. Ao ver a faca, gritou para Cohen parar, mas não houve reação. Os olhos do filho pareciam estranhos, grandes e negros, lembrou Randy.

— Não era o Cohen. Era o mal, e eu fiquei com medo — disse.

Randy correu na direção dele e os dois caíram no chão. Randy agarrou a lâmina, que perfurou sua mão até o osso. Os registros policiais deixam claro o quão perto aquilo esteve do pior.

— Eu não queria matá-lo, mas algo ficava me dizendo para matá-lo — disse Cohen aos policiais.

Tomado pela adrenalina, Randy conseguiu se soltar e saiu correndo de casa. Quando voltou, encontrou Cohen algemado, sendo levado para a viatura.

Quando Cohen foi solto da prisão, um mês depois, sabia que tinha tido sorte. Um psiquiatra lhe receitou Zyprexa, um antipsicótico, e as vozes diminuíram. Randy retirou as acusações de agressão, e a defensoria orientou Cohen a aceitar um acordo que incluía um ano de liberdade condicional, tratamento obrigatório e testes toxicológicos.

Mas ele havia sido expulso da faculdade. Até empregadores de salário mínimo pesquisariam seu nome no Google. Todos na cidade pareciam saber o que havia acontecido; os outros presos o chamavam de “Chewy”. E ele não sabia como seguir sem Randy em sua vida.

Foi nesse momento — incerto, devastado — que viu Randy parado no estacionamento do fórum, esperando por ele, sorrindo.

Randy abriu os braços, e os dois se abraçaram.

— Me desculpa, pai — disse Cohen.

— Não se preocupe com isso, filho. Eu te amo — respondeu Randy.

O longo caminho para casa

No mês passado, quase 10 anos após o ataque, viajei por silos e campos até entrevistar Randy e Cohen em Cohocton, uma pequena cidade a 145 quilômetros da fronteira canadense.

Cohen havia se tornado pai recentemente, e Randy — que ainda tem jeito de motociclista — brincava gentilmente com sua ansiedade na criação da filha. Aos 32 anos, Cohen agora é assistente social e supervisiona programas de prevenção ao suicídio do Escritório de Saúde Mental de Nova York.

Os dois estão bem. Mas os dois também carregam um peso. Poderiam ter perdido tudo, me disseram.

— Aquilo foi praticamente a pior coisa pela qual eu poderia ter passado — meu próprio filho tentar… Eu sei que não era meu filho. Mas o que poderia ter acontecido se ele tivesse conseguido? — questiona Randy.

Sentado no cômodo onde tudo aconteceu, Randy explicou que não percebeu que o filho estava em psicose. Ouvia os discursos de Cohen sobre a teoria da relatividade de Einstein, sobre seu medo de que o sol estivesse liquefazendo rochas no interior da Terra. Mas Randy era um homem da classe trabalhadora. Cohen era intelectual, o primeiro da família a ir para a faculdade.

— Pensei: cara, ele é mais inteligente do que eu, então provavelmente sabe mais do que eu — disse.

Havia sinais, descobriu-se depois. Um mês antes do ataque, após abordar um professor para compartilhar suas ideias exaltadas, Cohen foi detido pela polícia local e internado por cinco dias em um hospital psiquiátrico para observação.

Mas Randy desconfiava da psiquiatria. Quando tinha a idade de Cohen, recebeu medicação após uma tentativa de suicídio, mas parou de tomar assim que pôde. Sua atitude, disse, era mais de “seguir em frente e fazer o que precisa ser feito”. Na volta do hospital, Cohen admitiu que havia mentido sobre os sintomas para conseguir alta. Os dois discutiram se ele deveria tomar o antipsicótico receitado e decidiram que não era necessário.

Hoje Randy sabe que essas decisões foram catastróficas.

Finalmente, depois de seis meses, Randy concordou que Cohen poderia voltar para casa

— Quando você ama seu filho o suficiente, faz qualquer coisa possível para vê-lo feliz. Isso é ser pai.

Mas, silenciosamente, sem contar ao filho, instalou uma tranca pelo lado de dentro da porta do quarto. Na mesa ao lado da cama, sob um pano, guardou uma faca.

O peso

Cohen também carrega seu próprio fardo. Apenas a sorte, disse, separou seu destino do de outros casos fatais.

Uma das formas que encontrou de reparar o dano foi falar o máximo possível sobre como é se perder na psicose. Dá palestras, responde perguntas de pais preocupados e passou a fazer parte de uma rede de famílias que tentam reconstruir suas vidas após surtos de violência relacionados à doença mental.

Seu livro de memórias, Mending Reality: An Advocate’s Existential Journey With Mental Health, foi publicado no último verão. Nele, descreve a sensação de missão que apagava medo e dor, e um mundo povoado por presenças invisíveis aos demais.

Essa responsabilidade é ainda mais séria porque ele não toma mais antipsicóticos. Ao longo de um ano após sair da prisão, sob supervisão médica, reduziu lentamente a dose até zerá-la. Também parou de usar cannabis, que acredita ter contribuído para o surto.

Ele compara sua doença mental a diabetes ou câncer: uma condição crônica que exige vigilância constante.

Quase quatro anos atrás, no terceiro encontro com Elizabeth Finger, que conheceu pelo Facebook Dating, ele decidiu contar sobre a crise de saúde mental que havia vivido sete anos antes

— Ele disse que eu encontraria algumas coisas no Google. E encontrei mesmo — conta Elizabeth.

Do lado de fora da janela

Amigos da área aconselharam Elizabeth, com cuidado, a terminar o relacionamento. Disseram que alguém diagnosticado com transtorno esquizoafetivo jamais conseguiria ter uma vida estável.

Mas, com o passar dos meses, Elizabeth percebeu que confiava em Cohen, em parte porque ele levava extremamente a sério o que havia acontecido. Ela tem certeza de que, se os sintomas voltarem, ele buscará ajuda antes que se agravem.

Os dois estão dispostos a correr esse risco. Ele monitora atentamente qualquer sinal, que costuma surgir quando está privado de sono ou sob estresse. Já tem planos preparados — cochilos, linhas de crise, medicação.

Mas a vida avança, com plano ou sem plano. Três meses atrás, após 24 horas de trabalho de parto, nasceu a filha deles, um bebê de quase 3 quilos, com bochechas redondas como flores de cerejeira. Elizabeth e Cohen estavam sem dormir havia duas noites.

Depois, ele ficou acordado com a bebê para que Elizabeth pudesse descansar. Olhou pela janela para a escuridão e, de repente, tudo pareceu errado: uma árvore logo do lado de fora parecia estar se liquefazendo e derretendo para cima, em direção ao céu.

Cohen se aproximou da janela — estaria imaginando? Mas a imagem continuava ali, uma cascata invertida na escuridão. Ele faz anotações mentais quando esse tipo de coisa acontece.

Isto é uma potencial alucinação”, diz a si mesmo.

Dar nome ao fenômeno tira parte do seu poder. Na manhã seguinte, voltou à janela e o mundo retornou ao normal: atrás da árvore, na escuridão, uma chaminé soltava nuvens de fumaça.

Naquele dia, enquanto se preparavam para deixar o hospital, Cohen contou à parteira que estava apreensivo com a volta da psicose. Ela foi acolhedora e encorajadora — é raro um pai ser aberto o suficiente para falar sobre seus sintomas. Imprimiu uma lista de telefones de emergência e grupos de apoio.

Depois, Cohen prendeu a bebê na cadeirinha no banco de trás do carro, e eles seguiram para casa.