'Eu jamais desistiria dela': professor que socorreu adolescente vítima de choque elétrico em Copacabana descreve os momentos de tensão

 

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O destino da chilena de 15 anos vítima de choque elétrico em Copacabana, na Zona Sul do Rio, poderia ter sido ainda mais trágico não fosse a presença de um educador físico no caminho. Eram entre 18h e 18h30 de segunda-feira, e Edgar Cartaxo, de 55 anos, estava abrigado debaixo de uma marquise se protegendo do temporal que castigava o Rio. De repente, o profissional ouve uma gritaria e pedidos de socorro. Eram duas pessoas que haviam acabado de ser energizadas na esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com a Rua Santa Clara. Geralmente, àquela hora, ele já estaria na academia, aonde costuma chegar às 16h, mas quis o acaso que estivesse ali. E ele agiu, realizando uma manobra cardíaca na adolescente, procedimento que foi fundamental para sua sobrevivência. 

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Morador em situação de rua Felipe Dias, uma das vítimas de descarga elétrica em Copacabana, ao lado do educador físico Edgar Cartaxo

Madson Gama

A turista sofreu um choque elétrico ao atravessar a rua alagada e pisar numa tampa de bueiro energizada na calçada. De acordo com testemunhas, o bueiro é da Light. Felipe Dias de Castro Souza, um morador em situação de rua que vive na área, a viu se debatendo e gritando, pensou se tratar de um afogamento, tentou resgatá-la e acabou energizado também ao tocar nela. Ambos foram levados para Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Copacabana. Ele já recebeu alta. Até a noite de terça, ela permanecia internada no local com quadro de saúde estável.

— Era uma chuva muito forte, que alagou a rua em cerca de 15 minutos. Depois que a rua encheu, eu vi que começou um alvoroço, com as pessoas pedindo socorro. Quando olhei, vi uma moça caída perto da calçada. Um rapaz se aproximou, caiu também e ficou preso a ela. Ambos ficaram gritando muito enquanto recebiam o choque, que durou mais de dois minutos. Até que a mãe da adolescente a puxou pelo cabelo para retirá-la da área energizada, quando o rapaz conseguiu se desvencilhar também. Um outro homem tentou fazer os primeiros socorros, mas não tinha muita técnica. Ficou batendo no rosto dela, que estava apagada. Eu, então, pedi licença e comecei a fazer a massagem cardíaca — detalha Edgar.

Sorriso e brilho nos olhos após tensão

A manobra exigiu persistência do professor, que, a cada dois anos, faz cursos de reciclagem em primeiros socorros, uma exigência do Conselho Regional de Educação Física. E a vítima recobrou a consciência cerca de dez minutos depois.

— Ela estava com o corpo mole, desfalecida e não acordava por nada. Todos em volta diziam que ela já havia morrido. Mas continuei insistindo. Só pensava que não desistiria dela por nada até que não tivesse mais o que fazer. Percebi que a mão dela começou a se mexer e ela foi abrindo os olhos. Ela voltou gritando muito ainda, como se estivesse presa. Então, falei: 'pode ficar calma'. E pedi que a mãe, que estava muito nervosa, segurasse a mão dela. A mãe foi fundamental para tirá-la do choque elétrico — relata o professor, que diz que o Corpo de Bombeiros chegou cerca de meia hora depois.

Esquina da Avenida Nossa Senhora de Copacabana com Rua Santa Clara, onde duas pessoas sofreram choque elétrico durante temporal

Madson Gama

A experiência de Edgar, que é educador físico há cerca de 30 anos e dono da Academia Universo Saúde Expansiva, a poucos metros de onde tudo aconteceu, contribuiu para que ele conseguisse manter a calma durante o procedimento. Após conseguiu salvar a turista, ele foi tomado "por uma felicidade inexplicável", conta.

— Durante esse tipo de situação, eu tenho total consciência do que devo fazer e não me permito ser tomado pelo nervosismo. Quando ela conseguiu se acalmar após acordar, o melhor presente para mim foi ver seu sorriso e brilho nos olhos — conta, emocionado. — Eu já tinha ajudado em outros socorros, mas nunca numa situação tão adversa. Neste caso, eu não poderia perder um minuto sequer. Tudo isso em meio a uma chuva forte e a um alagamento. Os carros passavam e água vinha como onda enquanto eu fazia a reanimação.

Sequelas do choque elétrico

Ao GLOBO, Felipe Dias de Castro Souza, o morador de rua em situação de rua que também foi vítima da descarga elétrica, conta que está se sentindo fraco e com dores nas pernas após o episódio.

— As pernas ainda estão meio bambas, porque choque me atingiu da cintura para baixo. Quando desci da ambulância, tive que ficar na cadeira de rodas, porque não conseguia andar. Às vezes, sinto umas fisgadas e cãimbras — diz. — Na hora do desespero, eu corri para ajudar porque vi que ela estava numa situação difícil. Pensei que ela estivesse se afogando e ninguém ajudava. Acabou que fui e fiquei agarrado. Ainda fico assustado quando lembro.

De acordo com moradores e trabalhadores da região, a tampa do bueiro estava causando preocupações desde semana passada, quando algumas pessoas relataram episódios de choque.

— Está assim desde semana passada, quando choveu muito também. A gente estava até alertando o pessoal e pedindo para evitar passar por ali. Só que, até então, os choques elétricos não tinham sido tão grave — afirma a funcionária de uma farmácia do bairro.

Questionada, a Light, porém, diz que "o acidente em Copacabana não tem qualquer relação com a rede elétrica da concessionária". A RioLuz, responsável pela iluminação pública, informou que não identificou falhas em equipamentos ou na rede elétrica da região que justificassem o incidente.