Eu lembro bem da minha primeira manifestação. Fui pro meu ensaio de teatro em 1992, alguém pintou o meu rosto de verde e amarelo, vesti uma camisa preta em sinal de luto pelo governo de Fernando Collor e fomos juntos pra rua. Lembro da emoção de pertencer e de lutar por algo que, naquele momento, entraria pra História. A gente se organizava sem redes sociais e WhatsApp. Foi naquele dia que eu comecei a me interessar por política e minha mãe me contou que já tinha sido presa numa manifestação contra a ditadura em 1968. Detalhe: meus pais eram de direita. Não essa direita que não é mais direita, mas aquela direita que era direita. Aquela direita preocupada com a estabilidade econômica, mas que valorizava o diálogo e respeitava os adversários políticos. Ser cara-pintada marcou profundamente minha vida e minha visão do mundo. Só fui entender o tamanho daquela experiência muitos anos depois. Na época eu não sabia, mas a gente era o termômetro de toda uma sociedade. Porque o jovem puxa o assunto e vira a pauta. Eles percebem, muitas vezes intuitivamente, quando alguma coisa precisa mudar. Eu tenho certeza que me tornei uma pessoa indignada graças àquele momento em que eu percebi que a gente tinha voz. Até que, do nada, quando a gente achava que o jogo já estava decidido, aparecem os jovens de novo. Independentemente do lado político que você esteja, uma manifestação organizada por jovens de maneira tão rápida e eficaz é impressionante. Estudantes se mobilizaram e ocuparam as ruas de São Paulo, Rio, Brasília, Recife, Belo Horizonte e Salvador em tempo recorde só pedindo ajuda aos universitários. Jovens estudantes misturados com famílias, grupos de fãs de artistas internacionais, torcidas organizadas e idosos que nem são mais obrigados a votar. É claro que, como quase todo movimento que junta muita gente, houve excessos, alguns tumultos e episódios isolados de depredações. Mas atribuir a todos os manifestantes esses atos praticados por alguns é, no mínimo, injusto. Até porque pichações pontuais não são a mesma coisa que depredação generalizada. Infelizmente, temos repertório para distinguir uma coisa da outra. Transformar isso no centro da discussão também é uma maneira muito conveniente de não ouvir o que milhares de jovens foram dizer nas ruas. A reação de algumas pessoas a essas manifestações diz muito sobre elas. Principalmente pra quem acha que já sabe todas as respostas. Não sei o que vai acontecer no próximo domingo, mas existe uma vitória em saber que a nossa indignação solitária pode se transformar em um movimento coletivo. Independentemente do resultado, ninguém tira desses jovens a experiência de perceber que sua voz pode ser ouvida. Minha mãe foi para as ruas em 1968, eu fui em 1992 e hoje, em 2026, minha filha pediu pra ir comigo na manifestação. Acreditar nos jovens dá uma esperança de que o futuro pode ser diferente. Por isso que “eu acredito é na rapaziada”. Eles já venceram.
Eu acredito é na rapaziada
Fonte da notícia:
O Globo
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