Estudo de modelos de IA, curso para gerenciar hospitais e visita de amigos: a rotina dos militares presos pela trama golpista

 

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Os militares de alta patente condenados no processo da trama golpista aos poucos têm se adaptado à rotina do cárcere. Para conseguir a redução da pena, passaram a pedir para fazer trabalhos internos nos batalhões e estudar em cursos à distância (EAD). Vigiados pelos colegas de farda em instalações das Forças, eles tentam manter a “resiliência”, segundo os advogados, com exercícios físicos durante o dia e banhos de sol. Também recebem semanalmente a visita de amigos, psiquiatras e capelães militares, além dos familiares.

Acostumados a dar ordens e serem prontamente atendidos, os quatro generais e um almirante se habituaram a pedir autorização à Justiça a tudo o que sai da rotina do regime fechado ao qual estão submetidos, como o uso de caneta e lápis para fazerem os seus escritos ou fone de ouvido e microfone para as visitas por videoconferência.

O almirante Almir Garnier, ex-chefe da Marinha durante o governo Bolsonaro, por exemplo, planeja começar a trabalhar seis horas por dia analisando modelos de Inteligência Artificial (IA) e sistemas de simulação da Marinha para desenvolver as "capacidades defensivas" do Brasil "frente ao mutante cenário geopolítico", segundo o plano de trabalho elaborado pela Marinha.

A ideia é aproveitar a "condição de oficial general" e o seu caráter "técnico, disciplinado e estratégico de suas competências" para fazer "a análise crítica de processos de comando e controle” da Marinha — e também conseguir reduzir a pena.

Para cumprir o expediente, a Força garantiu que o notebook a ser utilizado por Garnier não será conectado na internet, mas na “Rede de Comunicações Integrada da Marinha” que possibilita o acesso a arquivos digitais. O plano de trabalho foi encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) na última sexta-feira (dia 16), dez dias depois de Garnier receber na cela o seu sucessor no cargo, o almirante Marcos Sampaio Olsen.

A visita, que durou duas horas, tinha o objetivo oficial de “inspecionar as instalações carcerárias” e também contou com a presença do vice-almirante Rogério Rodrigues, responsável pela custódia de Garnier. É ele que assina o plano de trabalho do colega da Força.

O ministro do STF Alexandre de Moraes ainda não decidiu sobre a proposta de emprego, mas já havia autorizado o militar a estudar “Filosofia ou Letras, com ênfase em Francês ou Literatura, por meio da modalidade de ensino a distância (EAD)” — conforme pediu a defesa dele.

O general Mário Fernandes também aguarda o aval do ministro do Supremo para começar a trabalhar na revisão de "produto doutrinário e literário" do Exército. A ideia é que ele preste serviços de "cunho intelectual" à Diretoria de Patrimônio Histórico e Cultural e ao Centro de Doutrina do Exército. Fernandes foi acusado pela Procuradoria Geral da República de ser um dos “mentores intelectuais” do plano de golpe de Estado. Diferente dos outros militares de alta patente, ele está detido por causa de uma prisão preventiva e não para o cumprimento da pena.

Ex-ministro da Defesa e ex-chefe do Exército, o general Paulo Sérgio foi autorizado neste ano por Moraes a se matricular no curso de administração hospitalar, legislação e auditoria pela Faculdade Anhanguera. Paulo Sérgio foi o militar que mais cadastrou familiares e amigos — 14 — para se reunir presencialmente e virtualmente. Ele tem parentes que moram em cidades do interior de Goiás, de Pernambuco e Seattle, nos Estados Unidos.

O general também foi o único que até agora teve uma visita barrada: a ida do general da reserva Luiz Eduardo Rocha Paiva foi vetada pelo ministro do STF por ele ter dado declarações no passado que "podem constituir crime no artigo 286 do Código Penal", que trata de incitação ao crime, segundo Moraes. Em 2021, o militar criticou o Supremo pela decisão de anular as condenações do então ex e hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Preso desde dezembro de 2024, o ex-ministro da Defesa e da Casa Civil Braga Netto é o general do "núcleo crucial" do plano golpista que está há mais tempo atrás das grades. Ele tem se dedicado a escrever a sua biografia sobre o tempo que passou no Exército. A informação foi revelada pelo portal UOL. A alguns quarteirões de onde está encarcerado, uma unidade militar exibe um quadro em que aparece chefiando a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH).

Além dos parentes, Braga Netto costuma receber a visita de amigos generais e coronéis. Um deles costumava jogar vôlei com ele em Copacabana. Outro ocupa o seu antigo apartamento na Asa Norte, em Brasília, onde as investigações da PF apontam que houve o planejamento operacional da tentativa de golpe, que acabou não acontecendo.

Diferente do seu ex-chefe, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que passou uma temporada na Superintendência da Polícia Federal e foi transferido para o 19º Batalhão da Polícia Militar do DF conhecido como "Papudinha", as defesas dos militares não têm se queixado da estrutura das unidades militares, onde estão alojados. Eles também não têm relatado problemas de saúde, apesar de receberem visitas constantes de médicos militares.

A única exceção se deu com o major Rafael Martins, que se queixou na última semana de descolamento de uma coroa dentária e pediu autorização para deixar o batalhão de Niterói (RJ) para ir a uma clínica odontológica. O objetivo é fazer a “cimentação da coroa do elemento 47” (o segundo molar inferior direito), diz o pedido da defesa.

A maioria das visitas não costuma fazer comentários sobre os seus encontros com os militares na prisão. Não foi o caso de David Ronco, amigo de farda do general Mário Fernandes que estudou com ele na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Em maio do ano passado, ele foi às redes sociais para pedir ajuda dos colegas militares a sensibilizar os generais do Alto Comando do Exército a "tomarem uma atitude" sobre a prisão do ex-ministro.

"Que nós façamos uma pressão sobre os generais do Alto Comando do Exército para que eles se posicionem e tomem uma atitude para resolver essa situação. Não podemos deixar um militar nosso largado", disse ele, na gravação. Na última semana, o militar visitou o amigo na cela no Comando Militar do Planalto, em Brasília.