Estudo de físico brasileiro sobre ‘atalho’ para Marte repercute em mais de 50 países; saiba quem é o cientista
Um estudo liderado pelo físico e cosmólogo brasileiro Marcelo de Oliveira Souza ganhou repercussão internacional ao propor uma nova rota espacial capaz de reduzir drasticamente o tempo de viagem entre a Terra e Marte.
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Publicada em abril na revista científica Acta Astronautica, a pesquisa foi repercutida em mais de 50 países e 26 idiomas, segundo o texto, aparecendo em veículos como CNN Indonesia, canais chineses e na plataforma científica Science Direct.
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A proposta chamou atenção porque sugere missões completas de ida e volta ao planeta vermelho em períodos entre 153 e 226 dias — muito abaixo dos dois a três anos normalmente associados às missões convencionais para Marte.
O estudo, intitulado Utilizando dados orbitais iniciais de asteroides para missões rápidas a Marte, parte de uma ideia pouco intuitiva: usar padrões orbitais de asteroides próximos da Terra e de Marte como uma espécie de mapa natural para encontrar trajetórias mais rápidas e energeticamente favoráveis no Sistema Solar.
Marcelo explicou, em entrevista à CNN, que o trabalho ainda é teórico e depende de avanços tecnológicos importantes para sair do papel.
— Claro que para efetivar uma viagem, é preciso ter todo o ajuste da velocidade do foguete, para saber se alcança o que eu propus, tem a questão do que pode ser levado, a carga útil... fiz a proposta teórica. Simulei dois modelos, uma com a tecnologia que a gente não tem hoje, que é uma velocidade muito mais rápida, e outra, mais viável dentro da tecnologia que temos. Esta seria uma viagem de ida, permanecendo um período em Marte e retornando à Terra, totalizando 226 dias — disse.
A pesquisa começou ainda em 2015, quando o cientista passou a estudar trajetórias de asteroides próximos da Terra e de Marte. No início, os cálculos eram feitos manualmente, em um processo lento e complexo.
O avanço veio com o uso de inteligência artificial, utilizada para simular trajetórias e identificar o que o pesquisador chama de “corredores geométricos” de transferência interplanetária rápida.
A descoberta central surgiu a partir da análise do asteroide 2001 CA21.
Segundo o estudo, suas trajetórias preliminares revelariam uma espécie de “portal secreto” orbital entre Terra e Marte, um caminho que aproveitaria a própria geometria do Sistema Solar para encurtar as viagens.
Dados orbitais que antes eram tratados como simples ruído astronômico passaram a ser vistos como possíveis pistas estruturais para futuras missões espaciais.
Janela de 2031
O estudo aponta 2031 como a janela mais promissora para uma missão rápida a Marte.
Na proposta, a nave deixaria a Terra em 20 de abril de 2031 e chegaria a Marte em 23 de maio. Depois de permanecer 30 dias no planeta, iniciaria a viagem de volta em setembro.
No cenário mais ousado, toda a missão duraria apenas 153 dias.
Existe ainda uma hipótese ultrarrápida, de 33 dias, mas considerada inviável atualmente. Nesse caso, a nave precisaria atingir velocidade inicial de 32,5 km/s e chegaria a Marte a cerca de 108 mil km/h — números acima da capacidade tecnológica atual para pouso e proteção térmica.
Já a alternativa considerada mais próxima da realidade prevê missão de 226 dias, utilizando velocidade inicial de 16,5 km/s.
Para validar as trajetórias, os pesquisadores utilizaram um solucionador de Lambert, ferramenta clássica da mecânica orbital usada como filtro antes de simulações mais complexas.
O estudo reconhece que ainda existem barreiras importantes, especialmente ligadas à propulsão espacial. Entre as tecnologias citadas como necessárias estão sistemas avançados de propulsão nuclear térmica ou elétrica.
Mesmo assim, os autores avaliam que o método desenvolvido — chamado de “ancoragem plana” — pode se tornar uma ferramenta importante para futuras missões espaciais.
Segundo os pesquisadores, a técnica não altera a órbita dos asteroides nem aumenta riscos de colisão. A ideia é apenas aproveitar trajetórias já existentes no Sistema Solar.
Quem é o brasileiro por trás da pesquisa?
Marcelo de Oliveira Souza é graduado em Física, doutor em Cosmologia pela UFRJ e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Inspirado por Albert Einstein, também se destacou na divulgação científica.
Marcelo de Oliveira Souza, pesquisador
Reprodução/Instagram
Fundou o Clube de Astronomia Louis Cruls, que completou 30 anos e trouxe Buzz Aldrin — o segundo homem a pisar na Lua — para sua primeira palestra no Brasil.
Marcelo também se tornou o primeiro brasileiro premiado pela Dark Sky International, reconhecimento ligado à preservação do céu noturno. Ele teve papel importante na transformação do Parque Estadual do Desengano no primeiro Dark Sky Park da América Latina.
Além disso, coordena o projeto “Jovens Astros do Amanhã”, apoiado pelo Consulado Geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro.
