Uma paineira (Ceiba speciosa), espécie nativa, floresce cercada da invasora leucena (Leucaena leucocephala) em floresta secundária de Piracicaba (SP) (foto: Paulo Guilherme Molin/UFSCar) Um estudo envolvendo aproximadamente 60 instituições, publicado este ano na revista Nature Plants, indica que o domínio inicial das espécies invasoras nos ecossistemas é passageiro. Elas se multiplicam com facilidade nos primeiros 10 a 20 anos, aproveitando o sol abundante dos terrenos abertos, mas entram em declínio conforme as árvores nativas crescem e passam a sombrear a floresta.
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Encabeçado pela pesquisadora Angelica Faria de Resende, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq-USP), o projeto tinha o objetivo de entender como as epécies exóticas se comportam ao longo dos anos em matas úmidas e secas. Pesquisadores analisaram dados de mais de 1,5 mil áreas em regeneração nas Américas.
Os dados levantados pela equipe mostram que a interferência é mais expressiva nas matas úmidas – onde, nas duas primeiras décadas, as árvores exóticas chegaram a representar 28% dos troncos e 22% do total de espécies – do que nas florestas secas, onde atingiram 9% em ambos os indicadores.
Segundo Angelica Resende, a preocupação inicial com essas plantas se justifica porque, “ao substituir o papel de uma ou mais espécies nativas e alterar processos naturais, as invasoras podem modificar as redes tróficas e a diversidade funcional, estrutural e biológica na floresta”.
Porém, na avaliação da pesquisadora, o impacto tende a ser parcial ou temporário. “Chamou nossa atenção que tanto a diversidade de espécies quanto a quantidade de indivíduos caíram consideravelmente logo após esse pico inicial”, afirma.
Esse recuo ocorre porque as árvores exóticas encontradas nessas áreas costumam ter características semelhantes às das espécies nativas chamadas “pioneiras”: têm crescimento rápido e precisam de luz abundante para se desenvolver, como a que existe em pastagens recém-abandonadas.
No início da regeneração, ambas disputam espaço, mas acabam cedendo lugar às árvores nativas de crescimento lento, que germinam na sombra e gradualmente assumem o domínio da paisagem. “As não nativas são oportunistas e se aproveitam quando as condições são favoráveis”, resume Resende.
À medida que a mata se fecha e o ambiente deixa de ser propício para espécies que dependem de sol pleno, elas passam a se manter apenas em baixas densidades.
Entre as descobertas, observou-se que a riqueza de espécies não nativas aumenta à medida que sobe o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do local. Por outro lado, densidade e riqueza diminuem à medida que aumentam a cobertura florestal do entorno, a proximidade com áreas de agricultura e a precipitação.
“Nossos achados sugerem que a regeneração natural de florestas e a manutenção de paisagens relativamente intactas provêm uma solução baseada na natureza para controlar espécies não nativas, ao mesmo tempo em que protegem a biodiversidade natural, a integridade do ecossistema e os modos de vida locais”, conta a pesquisadora.
O que é nativo e o que não é?
Para entender a diferença entre não nativa/invasora e não nativa/não invasora, dois exemplos no Brasil são ilustrativos.
O pinus (Pinus elliottii) é originário do hemisfério Norte e usado no Brasil por conta da madeira e da resina. Como dispersa sementes pelo ar e brota sem necessidade de interferência humana, dominando paisagens, é considerado uma espécie invasora.
Já o eucalipto (Eucalyptus spp.) é um exemplo de espécie não nativa e não invasora. Apesar de ser originária da Oceania, por aqui não se espalha sozinha, ocorrendo apenas onde é plantada, normalmente para produção de madeira, papel e celulose.
“Em alguns países, o critério científico nem sempre é suficiente, e a decisão de classificar como invasora ou não acaba sendo política, uma vez que órgãos governamentais são responsáveis por expedir listas oficiais de espécies invasoras. Algumas espécies são amplamente utilizadas na agricultura e são percebidas como vantajosas para a economia e, portanto, não são consideradas invasoras”, explica Resende.
Como a pesquisa foi feita
No estudo, muitas espécies listadas como não nativas/não invasoras contabilizaram mais de 25% dos troncos amostrados em algumas áreas, como a Croton glabellus e a leucena (Leucaena leucocephala) na Colômbia, a Piper colonense na Costa Rica, o cajueiro-japonês (Hovenia dulcis) no Brasil e a resedá-gigante (Lagerstroemia speciosa) no Panamá.
Para chegar a esses resultados, os pesquisadores analisaram dados de 1.561 trechos representativos de florestas secundárias localizados em dez países neotropicais – Bolívia, Brasil, Colômbia, Costa Rica, Guiana Francesa, México, Panamá, Peru, Porto Rico e Venezuela.
Parte das áreas monitoradas no trabalho integra o projeto “Compreendendo florestas restauradas para o benefício das pessoas e da natureza – NewFor”, apoiado pela FAPESP por meio do Programa BIOTA e pela Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO).
Para contornar o fato de que uma floresta leva décadas para crescer, os pesquisadores usaram a seguinte estratégia: em vez de acompanhar a mesma área por anos, analisaram trechos com idades diferentes em uma mesma região (de recém-abandonadas a mais maduras). Nessas parcelas amostrais, todas as árvores a partir de um diâmetro mínimo foram identificadas e medidas, permitindo reconstruir como a vegetação evolui ao longo do tempo.
O trabalho recebeu financiamento da Fapesp por meio de Bolsa de Pós-Doutorado para Fabio Matos na Esalq-USP, que atualmente realiza estágio na Universidade de Cambridge, na Inglaterra. O post Estudo da USP mostra que regeneração natural é o maior remédio contra espécies invasoras apareceu primeiro em Canal Rural.
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