Estudantes retomam protestos em universidades do Irã enquanto EUA aumentam pressão antes de novas negociações nucleares
Mais de 40 dias após a intensa repressão às manifestações que tomaram as ruas do Irã em janeiro, estudantes voltaram a protestar em universidades pelo país. Agências estatais iranianas noticiaram que, desde sábado, atos ocorrem em ao menos cinco universidades da capital, Teerã, e uma na cidade sagrada de Mashhad, que abrigou um dos principais focos dos protestos anteriores.
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Imagens verificadas por veículos internacionais mostram estudantes marchando pelos campi, entoando palavras de ordem contra o regime e homenageando os mortos na repressão. Segundo a organização Human Rights Activists News Agency (HRANA), sediada nos Estados Unidos, ao menos 7 mil pessoas tiveram as mortes confirmadas nos protestos de janeiro, e outras 11,7 mil estão sob investigação.
Mia Sato, relatora especial da ONU para os direitos humanos no Irã, afirmou que mais de 20 mil civis podem ter sido mortos, enquanto o presidente americano, Donald Trump, estimou no sábado que o número de óbitos chega a 32 mil pessoas. No mesmo período, a HRANA registrou mais de 53 mil prisões, incluindo centenas de estudantes.
— Nossas salas de aula estão vazias porque os cemitérios estão cheios — disse ao jornal britânico The Guardian Hossein (nome fictício), de 21 anos, estudante da Universidade de Teerã. — É por eles, nossos amigos, colegas de classe e compatriotas, que foram mortos a tiros diante dos nossos olhos, que decidimos boicotar as aulas.
Em alguns locais, manifestantes ergueram a bandeira iraniana anterior à Revolução Islâmica de 1979 — com o símbolo do leão e do sol — para demonstrar apoio a Reza Pahlavi, filho do xá deposto e apoiado por Washington. A agência de notícias Fars, ligada ao regime iraniano, afirmou que a ação visava “enviar imagens para meios de comunicação anti-Irã”. Ao mesmo tempo, grupos pró-governo queimaram bandeiras dos Estados Unidos e de Israel, além de uma imagem de Trump.
— Eles chamaram o sangue derramado de interferência estrangeira — acrescentou Hossein, referindo-se à prática do regime de rotular dissidentes como agentes de potências externas. — Mas sabemos que o regime não pode mais matar estudantes dentro do campus e nos chamar de terroristas. Não temos medo de perder a vida. Estamos todos dispostos a arriscar nossas vidas para que, ao menos, as próximas gerações deste país vivam em liberdade e paz.
Sociedade de luto
Vídeos dos protestos mostraram integrantes da Basij — forças paramilitares voluntárias apoiadas pelo Estado — atacando estudantes na Universidade de Teerã, fazendo ameaças e insultos e quebrando janelas. Na Universidade Sharif, Leyla (nome fictício) relatou que as tensões rapidamente escalaram para confrontos físicos entre alunos alinhados à Basij e manifestantes, com os embates também no domingo.
— Muitos de nossos estudantes ficaram feridos e sangrando, e muitos [alinhados à] Basij também — disse Leyla ao veículo britânico, acrescentando que garrafas e pedras foram lançadas por ambos os lados. — Não coordenamos os protestos com antecedência. A ideia era apenas um ato silencioso. Mas, assim que os estudantes começaram a falar, todos se levantaram e continuaram. Mesmo que não resulte em nada concreto, é simbólico: mostra que eles não conseguiram silenciar o povo.
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As ruas ao redor das instituições tiveram forte presença de forças de segurança fortemente armadas. Em vídeos, alguns agentes foram chamados de “desonrados” após empurrarem violentamente estudantes na entrada principal da Universidade de Teerã.
Na Universidade Sharif de Tecnologia, também na capital, estudantes foram filmados chamando o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, de “assassino”, entoando palavras de ordem pró-monarquia. Em outro campus, manifestantes gritaram “Mulher, vida, liberdade” e “O sangue derramado não pode ser apagado”, enquanto grupos pró-regime respondiam com slogans como “Khamenei ou morte”.
— Quando a sociedade está de luto, a dor e a raiva também são sentidas nas universidades. Como estamos de luto por nossos colegas e entes queridos, não queremos assistir às aulas — disse Reza (nome fictício) ao Guardian. — Estamos todos de luto e vamos enfrentar qualquer tentativa de fazer a situação parecer normal. Nada está normal. Nada voltará a ser como antes de 8 de janeiro. Vimos coisas que nunca deveríamos ter visto.
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Os atos coincidiram com cerimônias de 40 dias em memória dos mortos nos protestos anteriores, que, embora tenham sido iniciados no fim de dezembro, foram intensificados em 8 e 9 de janeiro, quando o país enfrentou um apagão nas comunicações. Autoridades iranianas afirmam que os protestos de janeiro foram instigados por “terroristas” apoiados pelos EUA e por Israel e rejeitam acusações de organizações internacionais que responsabilizam as forças de segurança pelas mortes.
Da mesma forma, a mídia estatal afirmou que, nas manifestações mais recentes, iniciadas no fim de semana, os estudantes pró-regime “homenagearam as vítimas dos recentes tumultos apoiados por potências estrangeiras”, alegando que membros da Basij foram atacados por “falsos estudantes” que gritavam slogans que “rompiam normas”.
Tensão com os EUA
A retomada dos protestos sugere que os líderes iranianos continuarão enfrentando agitação popular apesar da repressão do mês passado. Embora a ofensiva tenha inicialmente esfriado as manifestações, também deu aos iranianos mais um motivo para se opor a seus governantes teocráticos. Agora, no entanto, a instabilidade ocorre enquanto a República Islâmica enfrenta a possibilidade de um ataque dos EUA, em meio a esforços malsucedidos para negociar o programa nuclear iraniano. Negociações devem continuar na quinta-feira.
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O USS Gerald R. Ford, maior porta-aviões dos Estados Unidos, está a caminho da região, onde os EUA vêm reunindo sistemas de defesa aérea, navios de guerra e submarinos. Autoridades americanas sinalizaram, em reunião na semana passada, que todas as forças militares dos EUA necessárias para uma possível ofensiva estariam posicionadas até meados de março, disse à NBC News um alto funcionário do governo, embora Trump tenha ameaçado agir antes disso.
“O Irã está comprometido com a paz e a estabilidade na região”, escreveu o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, no X. Ele advertiu, porém, que Teerã continua a “monitorar de perto as ações dos EUA e fez todos os preparativos para qualquer cenário potencial”. Ao abordar as chances de ação militar americana, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que a República Islâmica “nunca será influenciada por ameaças” e que insistirá “nos interesses nacionais do Irã”.
