O estudante de Direito Selmo dos Santos Pereira, de 53 anos, preso na noite de segunda-feira (31), em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, depois de se apresentar como juiz criminal durante uma abordagem da Polícia Militar, já havia sido detido por estelionato e tinha registros de investigações e denúncias relacionados a golpes financeiros e drogas.
Em 2010, aos 37 anos, ele tentou se candidatar a deputado federal pelo então Democratas (DEM) enquanto estava preso e declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 91,65 milhões — o sexto maior entre os candidatos ao cargo naquele ano.
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Na ocasião, o GLOBO apurou que os bens declarados pelo candidato não correspondiam ao que era possível encontrar em seus registros e na apuração em campo.
A única empresa localizada em seu nome era uma transportadora que sequer aparecia na declaração apresentada à Justiça Eleitoral.
A candidatura foi contestada pela Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo, que pediu sua impugnação.
Selmo estava preso desde o início daquele ano eleitoral, condenado por estelionato, e acabou impedido de concorrer.
Dezesseis anos depois, ele voltou a ser preso, desta vez sob suspeita de usar um documento falso e se passar por magistrado.
Nova prisão
A prisão ocorreu por volta das 21h30, na região do Jardim do Mar.
Policiais do 6º Batalhão de Polícia Militar Metropolitano decidiram abordar um veículo que trafegava acima da velocidade permitida.
Durante a fiscalização, o motorista entregou aos agentes um documento em nome de Jarbas Luiz dos Santos, que apresentava, segundo a PM, sinais de adulteração.
Ele também afirmou ser juiz da 3ª Vara Criminal de Santo André e professor da Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo.
A história passou a ser questionada quando os policiais abordaram uma mulher que passava pelo local.
Ela reconheceu o homem e afirmou que ele era, na realidade, estudante de Direito da instituição.
Os agentes então encaminharam o motorista ao 2º Distrito Policial de São Bernardo do Campo.
Paralelamente, outra equipe foi até São Caetano do Sul, onde localizaram o verdadeiro juiz que Selmo dizia ser.
O magistrado foi à delegacia, confirmou sua identidade e relatou aos policiais que havia ocorrido uma tentativa de compra de um imóvel utilizando seu nome.
A possível relação entre os episódios ainda deverá ser apurada.
Na delegacia, Selmo foi identificado por meio das impressões digitais.
A consulta aos sistemas revelou uma ordem de prisão em aberto relacionada a uma condenação por estelionato e crime eleitoral.
Segundo o registro policial, ele ainda tinha pena a cumprir em regime fechado.
A ocorrência foi registrada como uso de documento falso e recaptura de procurado.
Selmo permanece à disposição da Justiça.
O GLOBO entrou em contato com a defesa de Selmo dos Santos Pereira, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.
O espaço permanece aberto para manifestação.
Fortuna de R$ 91 milhões
A tentativa de chegar à Câmara dos Deputados ocorreu quando Selmo já estava preso.
Filiado ao DEM desde 2007, ele apresentou sua documentação para disputar uma vaga de deputado federal por São Paulo nas eleições de 2010 por meio de um representante enviado ao partido.
A declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral registrava R$ 91,65 milhões.
O valor fazia de Selmo um dos candidatos mais ricos daquele pleito.
O principal bem era a Unilma, apresentada como uma instituição de ensino avaliada em R$ 80 milhões.
Selmo se identificava como "reitor fundador" da universidade.
Embora houvesse uma ata da entidade registrada em cartório, a instituição não tinha registro no Ministério da Educação.
A apuração do GLOBO também localizou uma empresa de transporte de cargas ligada ao nome de Selmo.
O endereço informado à Junta Comercial e ao Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica correspondia a um sobrado inacabado na Zona Leste de São Paulo, onde vivia sua mãe.
Na época, moradores da rua disseram não conhecer a empresa.
O advogado de Selmo naquele período, André Luiz Stival, confirmou ao GLOBO que o então candidato estava preso havia seis meses no Centro de Detenção Provisória 4 de Pinheiros.
Segundo o defensor, ele respondia a uma acusação de estelionato e seria alvo de um pedido de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça.
Selmo também não tinha registro como advogado na OAB de São Paulo.
Segundo a reportagem publicada pelo GLOBO em 2010, ele permanecia como estagiário da entidade e havia tido a licença suspensa.
Na Justiça paulista, havia ainda uma condenação para que pagasse R$ 50 mil a uma mulher que o havia contratado por R$ 30 mil para atuar em um processo de despejo.
Candidato a prefeito dois anos depois
A candidatura a deputado não foi a única tentativa de Selmo de entrar na política.
Em 2012, já fora da prisão, ele concorreu à Prefeitura de Juquitiba, na Região Metropolitana de São Paulo, pelo Partido Republicano Progressista (PRP).
Selmo recebeu 44 votos.
Naquele ano, declarou um patrimônio de R$ 2,2 milhões, uma quantia muito inferior aos R$ 91,65 milhões informados na eleição anterior.
