Estudante de Direito, Suzane von Richthofen volta a uma delegacia

Estudante de Direito, Suzane von Richthofen volta a uma delegacia

 

Fonte: Bandeira



Condenada a 39 anos de prisão por mandar matar os pais, Suzane von Richthofen, de 42 anos, visitou na sexta-feira passada o 1º Distrito Policial de Bragança Paulista, conhecido como Central da Polícia Judiciária, no interior de São Paulo. A assassina confessa participou da atividade ao lado de cerca de 20 estudantes do curso de Direito da Universidade São Francisco, onde atualmente cursa o 3º ano da graduação no campus de Bragança Paulista. A atividade prática faz parte da disciplina de Direito Penal, ministrada pela professora Márcia Caceres Yokoyama. A visita era facultativa, mas Suzane fez questão de participar.

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Dentro da delegacia, os estudantes conversaram por duas horas com delegados, investigadores e escrivãs para entender o funcionamento de uma unidade policial. Todos os alunos fizeram perguntas, exceto Suzane, que permaneceu calada durante as explicações dos delegados. A postura silenciosa da parricida, que cumpre pena em regime aberto, chamou atenção dos estudantes porque ela conhece como poucas pessoas o funcionamento interno de uma delegacia de homicídios.

Suzane von Richthofen com colegas de turma em visita a delegacia em Bragança Paulista

Reprodução/Redes Sociais

Entre 2002 e 2006, Suzane frequentou assiduamente o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), unidade da Polícia Civil de São Paulo responsável pela investigação da morte de Manfred e Marísia von Richthofen. Foi interrogada mais de dez vezes pela delegada Cíntia Tucunduva durante o inquérito policial no qual acabou confessando participação no assassinato dos pais ao lado dos irmãos Cristian e Daniel Cravinhos, com quem namorava na época do crime. Durante a visita à unidade de Bragança Paulista, alguns estudantes chegaram a brincar reservadamente que Suzane talvez tivesse mais a ensinar sobre o funcionamento de uma delegacia do que a aprender naquela atividade técnica.

Curso na capital aos 18 anos

A visita de sexta-feira possui um simbolismo particular na trajetória de Suzane. Antes da atual graduação na Universidade São Francisco, ela já havia cursado Direito aos 18 anos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Na época, também participou de atividades externas organizadas pela faculdade. Uma delas ocorreu justamente no Fórum Criminal da Barra Funda, local onde, quatro anos depois, seria julgada e condenada pelo assassinato dos pais.

Após a visita, parte dos estudantes tirou fotos em frente às viaturas e nas dependências externas da delegacia. Algumas imagens circularam em grupos de alunos e redes sociais. De acordo com relatos de colegas, Suzane apareceu sorridente, usando casaco, bolsa, óculos escuros e roupas discretas. “Ela estava superintegrada com a turma”, contou uma estudante ouvida pela coluna.

Suzane em diferentes momentos do documentário

Reprodução

No primeiro semestre da graduação, em 2024, Suzane mantinha uma postura muito mais retraída dentro da faculdade. Segundo colegas, evitava chamar atenção, falava pouco e costumava circular acompanhada por brigadistas e seguranças do campus. Na época, a direção também teria orientado informalmente os alunos a não importuná-la nem fotografá-la dentro da universidade. Durante as aulas, quando precisava tirar dúvidas, Suzane esperava o intervalo para se aproximar discretamente da mesa do professor e fazer perguntas em voz baixa, quase ao pé do ouvido. Com o passar do tempo, porém, foi se integrando à rotina universitária, dispensou o acompanhamento dos seguranças, criou vínculos de amizade e passou a se mostrar mais desenvolta e risonha em sala de aula. Atualmente, colegas afirmam que ela já participa normalmente das discussões, levanta a mão durante as aulas e faz perguntas consideradas “bem inteligentes” pelos próprios estudantes. Faz até selfies com alunos que a admiram.

Educada e já bastante integrada à turma, Suzane também participa de grupos de estudo e costuma se reunir com colegas para desenvolver trabalhos acadêmicos fora do horário de aula. Apesar da convivência cada vez mais próxima com os estudantes, ela nunca comparece às confraternizações organizadas pela faculdade nos fins de semana. Segundo colegas, a limitação ocorre por causa das regras do regime aberto, já que Suzane precisa estar em casa até as 20 horas. Por isso, enquanto a maior parte da turma segue para bares e festas universitárias após as aulas, ela normalmente vai embora sozinha antes do início da noite.

Suzane tenta reconstruir a vida acadêmica desde a época em que estava presa em Tremembé. Depois de avançar para o regime semiaberto, em 2016, tentou retomar os estudos diversas vezes. Chegou a ser aprovada para o curso de Administração na Universidade Anhanguera de Taubaté, mas a Justiça inicialmente proibiu sua matrícula sob o argumento de que ela poderia ser hostilizada por alunos e professores dentro do ambiente universitário. A defesa recorreu e conseguiu autorização judicial para que estudasse, mas, com medo da repercussão, Suzane acabou desistindo antes do início das aulas. Em 2017, voltou a tentar ingressar no ensino superior por meio do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), desta vez numa faculdade religiosa de Taubaté, mas novamente abandonou o plano antes de concluir a matrícula.

A retomada definitiva da rotina universitária só aconteceria anos depois. Em 2021, Suzane utilizou a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para ingressar na Faculdade Anhanguera de Taubaté, inicialmente no curso de Farmácia. Pouco tempo depois, porém, migrou para Biomedicina porque não havia alunos suficientes para formação de turma. Em 2023, pediu transferência para uma faculdade em Itapetininga, mas interrompeu novamente os estudos após se mudar para Bragança Paulista para viver com o marido, o médico Felipe Zecchini Nunes. No ano passado, acabou retornando justamente ao curso de Direito, interrompido mais de duas décadas antes da prisão pela morte dos pais.