Estrela em recuperação judicial: o que explica a crise da fabricante de brinquedos?

 

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Fabricante de brinquedos icônicos como Banco Imobiliário, Jogo da Vida e Susi, a Estrela informou nesta quarta-feira ter entrado com um pedido de recuperação judicial em meio a um endividamento de R$ 109,1 milhões. Assim como outras companhias brasileiras que buscaram a Justiça recentemente para se reestruturar, a empresa afirma sofrer com "um contexto de pressões econômicas", mas esse não é o único fator que pesa na operação.

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Segundo comunicado, a decisão da empresa "decorre da necessidade de reestruturação do passivo do grupo". A Estrela cita, entre outros, o aumento do custo de capital e as restrições de crédito, além de mudanças no comportamento do consumidor, "com maior competição de alternativas digitais".

No documento, a empresa afirma ainda que manterá "suas atividades industriais, comerciais e administrativas, bem como o atendimento a clientes, parceiros e fornecedores", durante o processo de reestruturação das dívidas.

Nos últimos meses, empresas de diferentes setores entraram com pedido de recuperação judicial no Brasil. Analistas avaliam que, em muitos casos, problemas de gestão vieram à tona diante de um cenário de manutenção da taxa de juros básica Selic em patamar elevado por muito tempo. Alguns exemplos são a Toky, dona da Mobly e da Tok&Stok, e a Casa&Vídeo.

Mas além dos fatores macroeconômicos, que afetam as operações de empresas de todos os segmentos, no caso da Estrela há ainda o impacto das mudanças comportamentais ao longo dos anos, com eletrônicos ganhando espaço no dia a dia das crianças em detrimento dos brinquedos tradicionais. 

Sócio-diretor da Gouvêa Consulting, Roberto Wajnsztok observa que o setor como um todo sofre com o interesse menor das crianças por produtos como bonecas, carrinhos e jogos de tabuleiros. Mas a sensibilidade da Estrela a esses fatores é ainda maior, já que a empresa manteve o portfólio fiel aos brinquedos tradicionais.

— A maior participação dos eletrônicos para o público infantil afetou diretamente as receitas da empresa, impactado também pelas importações, principalmente do mercado asiático, o que acaba drenando a demanda — analisa. 


Segundo estatísticas da Abrinq, associação que reúne os fabricantes de brinquedos do Brasil, o faturamento total do setor foi de R$ 10,39 bilhões em 2025. Deste total, a produção nacional respondeu por R$ 5,535 bilhões, ou 53% do total.

Em 2017, o faturamento do setor era de US$ 6,39 bilhões, e a produção nacional respondia por 59% do total. Os produtos chineses hoje respondem por 72% das importações de brinquedos no Brasil. O setor emprega 39 mil trabalhadores no Brasil, além de 4.913 terceirizados.

— Houve uma reinvenção em alguns aspectos, mas nem de longe esses mercados têm o impacto da demanda tradicional dos brinquedos. Não resolve o problema. algum impacto nas vendas, não são movimentos suficientes para compensar o faturamento mais fraco, aponta Wajnsztok:

— Houve uma reinvenção em alguns aspectos, mas nem de longe esses mercados têm o impacto da demanda tradicional dos brinquedos. Não resolve o problema.

No setor de brinquedos, a concorrência com importados e, mais recentemente, o avanço das plataformas digitais impôs desafios adicionais aos fabricantes brasileiros.