Estrela de 'Stranger things' vive Julieta em nova montagem do clássico de Shakespeare nos palcos londrinos

 

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Em “Romeu e Julieta”, o destino é uma questão de timing. Os jovens amantes de Shakespeare são atormentados tanto pela má sorte quanto pela política de seus clãs rivais: comunicações urgentes não são entregues; as revelações chegam tarde demais.

Uma nova produção londrina, dirigida por Robert Icke, destaca esse aspecto da história com um grande relógio digital que aparece intermitentemente acima dos atores. Em diversas ocasiões, ele retrocede brevemente e as cenas se repetem com pequenas, porém significativas, variações, convidando o público a refletir sobre como as coisas poderiam ter sido diferentes. Para reforçar a ideia, três grandes painéis no fundo do palco se reorganizam ocasionalmente para formar um limiar pelo qual os atores passam — literalmente portas deslizantes.

A encenação parece um tanto artificial, mas este “Romeu e Julieta”, em cartaz até 20 de junho no Harold Pinter Theater, em Londres, é redimido pelas atuações convincentes nos papéis principais.

Cena da montagem de 'romeu e Julieta', em Londres

Divulgação

Sadie Sink, a estrela de "Stranger Things" que recentemente encantou a Broadway em "John Proctor is the villain", interpreta Julieta com uma graça frágil condizente com as paixões turbulentas da adolescência. A personagem tem 13 anos — uma década mais jovem que Sink —, uma Julieta adolescente em todos os sentidos, seja quando mexe nervosamente a palma da mão ou deseja a Romeu um "boa noite" desajeitado e com voz engraçada no início da peça. Mais tarde, surge frenética, mas controlada, fazendo formas intrincadas com as mãos enquanto tenta compreender a injustiça de sua situação.

A vida imita a arte para o colega de elenco mais jovem de Sink, o ator britânico Noah Jupe, que recentemente interpretou Hamlet no filme "Hamnet" e agora faz sua estreia nos palcos. Com traços naturalmente juvenis, o Romeu de Jupe exibe uma bondade inocente e cativante. Quando as coisas finalmente se encaixam — pelo menos a princípio — ele comemora com um soco no ar; Julieta, por sua vez, pula na cama. São crianças.

A sinceridade emocional de Sink e Jupe não é compartilhada pelo resto do elenco, alguns dos quais parecem estar atuando em uma peça estudantil. A interpretação atrevida de Clare Perkins como a confidente de Julieta, a Ama, arranca algumas risadas, mas beira perigosamente a caricatura, e o Mercúcio de Kasper Hilton-Hille é um pervertido irritantemente hiperativo que repetidamente exibe suas nádegas e pênis. (Este último é retratado de forma alusiva, com uma prótese envolta em uma braguilha — ainda bem.) Ele inicia a altercação fatal com Tibaldo (Aruna Jalloh) esmagando na cabeça dele uma casquinha de sorvete e, em seguida, faz barulhos sexuais enquanto lutam.

É um pouco difícil conciliar isso com o tom de suspense da encenação. O relógio digital retoma um elemento da recente e excelente produção de "Édipo" de Icke no West End e na Broadway, onde fazia uma contagem regressiva sinistra para sugerir a inexorabilidade do destino. Aqui, apesar dessas poucas repetições, ele é realmente apenas um relógio, gerando um suspense barato e um tanto exagerado. Em algumas cenas, o relógio persiste em apitar ao fundo, e seu som insistente lembrou meu alarme quando a bateria está fraca.

Ainda assim, em alguns aspectos importantes, este "Romeu e Julieta" é bem-sucedido. Suas cenas se fundem umas nas outras, de modo que, às vezes, um dos amantes permanece sentado em silêncio no palco enquanto o outro fala. Isso cria uma verdadeira sensação de intimidade, evocando a presença constante de ambos nos pensamentos um do outro. Aprimorado pela iluminação etérea de Jon Clark, o resultado são cenários belíssimos.

No desfecho da peça, à luz de tochas, quando Romeu pensa erroneamente que Julieta está morta e lhe dá um último abraço antes de tomar o veneno, há um leve movimento sonolento de seu pulso. O público consegue vê-lo — e ele projeta uma longa sombra na parede atrás dela — mas Romeu não o percebe.

Nosso envolvimento com "Romeu e Julieta" é inevitavelmente tingido por uma nostalgia vagamente constrangida de nossa própria inocência perdida. Há muitas maneiras de minimizar as paixões juvenis: como paixão passageira, bombardeio de amor, amor adolescente. Assim, os diretores que se aventuram na peça muitas vezes se sentem compelidos a encontrar um gancho que não seja a maravilha do amor jovem. Há dois anos, o ingresso mais disputado do West End era para a encenação monocromática, melancólica e emocionalmente contida de Jamie Lloyd, que, no entanto, foi insípida e decepcionante.

O impulso é compreensível, mas equivocado, e tudo de bom em "Romeu e Julieta", de Icke, está ligado à sinceridade e ao sentimentalismo. Vejamos o final, por exemplo: após a trágica morte do casal, três outros atores entram em cena, representando um Romeu e Julieta mais velhos e uma filha, permitindo-nos vislumbrar a vida que eles poderiam ter tido. A essa altura, Sink e Jupe já conquistaram nossos corações. E nós nos deixamos levar por essa emoção.