‘Estrangeiros têm fascínio por conjunto de pessoas tão diverso’, diz diretor de elenco de ‘O Agente Secreto’

 

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Uma nova categoria foi criada para o Oscar de 2026, e o Brasil conseguiu ser indicado logo na inauguração. Gabriel Domingues, de 36 anos, é quem leva a estatueta neste domingo (15) caso ‘O Agente Secreto’ vença Melhor Direção de Elenco. Seu trabalho de selecionar os mais de 60 atores que deram corpo à história pensada e dirigida por Kleber Mendonça Filho tem gerado fascínio na mídia e crítica internacional, seja pela figura cativante de Tânia Maria ou pelo “conjunto de pessoas tão diverso”, que “revela a riqueza do Brasil”.

Em Los Angeles para participar da cerimônia da premiação da Academia de Hollywood, Domingues explica, em entrevista à CBN, que a categoria avalia qual filme tem o melhor casting, ou seja, a melhor escalação de elenco. Os critérios “ainda são um pouco nebulosos” – “é tudo uma novidade” –, e podem dizer respeito à inovação, à qualidade das performances, ao conjunto da escalação e à interação entre os atores. “Se o trabalho é bem feito, se os personagens são memoráveis, e o público se deixa afetar pela presença de rostos e corpos interessantes, ainda que desconhecidos”, avalia.

O diretor considera que ‘O Agente Secreto’ alcança esse lugar, “sempre com figuras interessantes interpretando grandes personagens, entre pessoas famosas e ‘não famosas’”, como os muitos recifenses "não atores" que se orgulham de fazer parte do filme.

“Eu acho que, para os estrangeiros, essas caras são inimagináveis. Se nem a gente no Brasil tem a dimensão real da geografia humana brasileira, imagina eles. Então o fator espanto, surpresa, uma espécie de fascínio diante do conjunto de pessoas tão diverso, tão diferente entre si, isso revela a riqueza do Brasil.”

O longa brasileiro concorre em Melhor Direção de Elenco com as produções 'Hamnet: A vida antes de Hamlet' (Chloé Zhao), 'Marty Supreme' (Josh Safdie), 'Uma batalha após a outra' (Paul Thomas Anderson), e 'Pecadores' (Ryan Coogler), todas americanas ou do Reino Unido.

Formado em Cinema pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Domingues já atuou tanto em produções da sétima arte quanto em séries de tv e streaming, assinando trabalhos como "Cidade de Deus - A Luta Continua" (2024), "Cangaço Novo" (2023), e "Notícias Populares" (2023).

“O meu trabalho consiste em pensar conceitualmente sobre os personagens do roteiro e levantar as opções mais cabíveis para cada um, que estejam mais alinhadas ao discurso estético, político e cinematográfico do filme”, explica.

Para ‘O Agente Secreto’, Gabriel Domingues conta que se preparou com uma formação de cinefilia – “consumindo e estudando muito cinema” – também conhecendo as regiões do Brasil, com seus pólos artísticos em determinadas cidades, e “entendendo a geografia humana do país”. O texto de Kleber Mendonça Filho pedia essa pluralidade.

“Eu acho que cada papel cria uma ideia e exige um tipo específico. É sempre uma luta árdua pensar em cada personagem, em todas as opções possíveis para eles. No caso de ‘O Agente Secreto’, havia uma vontade muito grande por parte do Kleber em respeitar as origens e as formas próprias de falar, ou seja, a prosódia, o sotaque, enfim, seja como for.”

Veja cenas de 'O Agente Secreto'

Orgulho de apresentar pessoas com ‘O Agente Secreto’

Com quatro indicações ao Oscar 2026, o filme igualou a marca da outra produção nacional que mais vezes havia sido indicada na cerimônia: 'Cidade de Deus', que conseguiu quatro nomeações no Oscar 2004 (Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Montagem).

'O Agente Secreto' foi indicado em Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator (Wagner Moura) e Elenco no Oscar 2026. Duas dessas categorias são inéditas para o país: Melhor Ator e Melhor Direção de elenco, que foi criada para esta edição.

Além da forte presença na premiação mais famosa do cinema mundial, o filme vem de uma temporada de mais de 70 prêmios -- alguns incontornáveis, como o do Festival de Cannes e o também histórico Globo de Ouro.

“Eu acho que eu sinto mais orgulho no resultado do filme é a presença de pessoas que não tinham uma carreira consolidada, mas foram apresentadas pelo filme”, conta o diretor de Elenco. “Criou-se um espaço para que esses atores pudessem brilhar em toda a potência artística deles. Eu acho isso formidável.”