Estimular a criatividade também é educar: mesas do Festival LED debatem a importância da brincadeira para as crianças
O tema ‘criatividade na educação’ permeou diversas discussões nesta edição do Festival LED Globo, em reflexões sobre como impulsionar o processo criativo da primeira infância à fase adulta. Já na mesa de abertura, a cantora Marina Sena falou da importância do incentivo de seus pais, que, segundo ela, foram seus ‘primeiros fãs’.
—Meus pais nunca me pediram para ser diferente e sempre respeitaram a minha excentricidade — contou. — Eu tive uma criação que não minou minha criatividade e isso garantiu que eu conseguisse sair lá de Taiobeiras (MG) e estar aqui hoje.
Na mesma mesa, que contou também com o educador e pesquisador Charles Watson, e com a cientista de dados e multiartista Zaika dos Santos, a atriz Taís Araujo falou sobre os desafios de ser mãe em uma geração que já nasce imersa nas telas e contou algumas das estratégias que usa para despertar a criatividade dos filhos, como estimular a leitura, os esportes, além de separar tempo para jogos de tabuleiro em família.
— A gente está tendo que inventar uma nova maneira de educar — avaliou a atriz. — Estou nesse momento, completamente apavorada, tentando entender como usar a tecnologia a nosso favor e não colapsar com ela.
Incentivo à brincadeira
Ainda no primeiro dia, o tema esteve presente em conversa com o pediatra Daniel Becker, que falou da importância de crianças e adultos soltarem o celular e brincarem juntos. Segundo ele, a brincadeira é a maior fonte de criatividade.
— Nós estamos na última geração de filhos de pais que brincaram na infância. As próximas gerações vão ser de pais que na infância já tiveram excesso de telas. Isso é muito grave porque o mundo 2D é estimulante, viciante, suga a criança para dentro daquela tela e elimina as maiores tarefas do desenvolvimento — alertou.
Junto com Becker, o escritor e liderança indígena Kaká Werá trouxe a visão dos povos originários, em que os mais velhos também aprendem com as crianças e entendem que não devem castrar seus dons e potenciais:
— A criança nasce plena e se desdobra a partir de uma plenitude. Ela é portadora de uma memória imemorial cujos principais atributos são a cocriação, a habilidade natural de criar, de manifestar habilidades criativas no cotidiano. Não é alguém que não conhece nada, que é ignorante e que nós temos que ditar regras.
Eles falaram ainda da importância do contato com a natureza e do erro dos pais de superprotegerem os filhos e impedirem atividades como correr, se sujar de terra ou subir em árvores, essenciais para o desenvolvimento na infância. A mesa contou ainda com a participação da exBBB Tia Milena e da pedagoga Patricia Nunes.
Já no segundo dia de festival, Evelyn Bastos, rainha da bateria da Mangueira e professora de história, trouxe a perspectiva de como espaços e culturas populares, como o carnaval, estimulam a criatividade e trazem práticas de ensino inovadoras.
Ela menciona a metodologia Steam, uma abordagem educacional interdisciplinar com foco na aprendizagem ativa, que veio dos Estados Unidos com esse nome, mas que há muito já era utilizada no morro da Mangueira, na casa de Dona Neuma, matriarca da escola de samba, que levava crianças para sua casa para estudar.
—Ela ensinava matemática, ciências, português, através do que a Estação Primeira de Mangueira colocava na Sapucaí — conta ela. — A gente fala que veio dos EUA uma prática, uma metodologia, só que isso já existia, já era feito dentro do território, agente só não nomeava.
Ela destacou ainda o papel da escola formal em fazer com que a cultura, a arte e a literatura estejam integralmente presentes na formação de crianças e adolescentes.
— Para fazer o maior espetáculo da Terra, eu preciso investir na educação. Eu preciso ter essas crianças amando a cultura e a arte local da sua gente. A gente precisa que essas crianças se reconheçam enquanto artistas da sua própria festa, da sua própria manifestação — pontuou Evelyn.
Na mesa também esteve presente Carolina Sanches, escritora e consultora em leitura e edutainment, que falou sobre a importância de apresentar diversidade e representatividade para as crianças, além de Diana Kolker, coordenadora de educação e arte no Museu Bispo do Rosário.
