No livro "No passo da cobra", que será lançado em novembro, o diretor, roteirista e produtor Estêvão Ciavatta, de 58 anos, relembra o acidente que o deixou temporariamente tetraplégico, em 2008. A coluna adianta, com exclusividade, trechos da obra. Entrevista: ator Marcos Breda fala da recuperação após décima cirurgia por conta de acidente de moto E mais: Regina Casé fala da surdez da filha: 'Antigamente, filhos com deficiência eram escondidos' Ciavatta conta que saiu para fazer um passeio a cavalo no condomínio onde tem casa em Mangaratiba, na Costa Verde do Rio de Janeiro, e acabou sofrendo uma queda: "Eu me segurei. Quando voltava o corpo para me endireitar sobre a sela, ele começou a dar pinotes, como num rodeio, e eu não estava preparado para isso. Ainda cheguei a olhar para trás, tentando entender o que estava acontecendo, e vi suas patas traseiras dando mais um coice, meu derradeiro instante em cima dele. Antes que pudesse me recompor, fui instantaneamente arremessado para a frente, voei por cima da sua cabeça e, menos de um segundo depois, aterrissei de cara no chão". O roteirista relembra o vazio sentido ao perceber que não conseguia mexer qualquer parte do corpo. Em seguida, deu instruções para que ninguém encostasse nele, de acordo com as recomendações médicas nesse tipo de acidente. Quando percebeu que o socorro iria demorar, pediu para entrarem em contato com a mulher, a atriz e apresentadora Regina Casé. A ambulância só chegou após 50 minutos: "Eu me lembro do administrador do condomínio, raspando a poça de sangue e areia para eu continuar respirando e colocando o telefone na minha única orelha íntegra e perto da minha boca. Eu consegui falar para ela: 'Sofri um acidente, caí do cavalo, alguma coisa nas vértebras cervicais. Não estou mexendo nada. Mas estou bem'. Regina depois me contou da importância desse telefonema, pois, assim que ela me viu estirado no chão, envolvido por uma poça de sangue, não conseguiu fazer mais nada”. Na ambulância, Ciavatta revela ter tido um primeiro sinal de esperança em sua recuperação: "Regina sempre ao meu lado. De repente, meu pau ficou duro. Ela me chamou atenção: 'Olha'. 'Pega nele', disse baixinho para ela, ainda que não sentisse nada. Ela colocou a mão, e seus olhos se encheram de água. 'Nós vamos sair dessa, eu prometo', falei". O diretor passou por cirurgia e teve de permanecer três semanas no hospital. Ele ficou sem os movimentos por cerca de seis meses. Até hoje, sente no corpo os impactos do acidente: "Minha rotina é fazer condicionamento físico pelo menos três vezes por semana, sem me permitir ser sedentário nos outros dias. Muita gente me pergunta se me recuperei 100%. 'Não', respondo. Eu diria que cheguei perto dos 80%, pois tenho uma vida independente, ainda que tenha que conviver com limitações de movimento e sensibilidade por todo o corpo. Mas pensa comigo: quem vive nos 100%? Hoje vivo 100% dos meus 80%, então posso dizer que me sinto muito bem neste mundo".
TV e famosos: se inscreva no canal da coluna Play no WhatsApp Durante sua recuperação, Ciavatta viveu a grande emoção de adotar Roque, em 2013. Regina, hoje com 72 anos, já era mãe de Benedita, de 37, fruto do relacionamento com o artista plástico Luiz Zerbini: "Passados três anos do acidente, eu já tinha retomado, em parte, minha função sexual e, ainda que a lesão medular afete a fertilidade, eu já poderia conceber um(a) filho(a). Mas quis a vida que não fosse assim e que meu filho chegasse de outra maneira. Na verdade, eu e Regina já estávamos tentando adotar uma criança antes do acidente e, quando me vi naquela precária situação, física e psicológica, tivemos que dar um tempo nesse desejo. Afinal, eu mesmo tinha praticamente virado uma criança em razão dos inúmeros cuidados que exigia. Quando me senti com alguma força para me dedicar a um bebê, voltamos a pensar no assunto. O processo de busca não foi fácil, mas, quando o Roque nos encontrou, foi como uma luz se acendendo e iluminando o caminho por vir. A partir daquele momento, não havia mais a possibilidade de eu não conseguir cuidar dele e, assim, não conseguir cuidar de mim também". Galerias Relacionadas
O Globo