\'Estava tudo desabando, estourei a porta para tirar meus pais de casa\', diz moradora de casa destruída por vazamento da Cedae

 

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Um dia após o rompimento de uma tubulação de grande porte na Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, os escombros de uma das casas mais afetadas pela força da água ainda revelam um cenário de guerra. Além de funcionários da Cedae, que atuam desde cedo na limpeza, com pás, vassouras, carrinhos de mão e o auxílio de uma retroescavadeira e caçambas de aço, moradores caminham de um lado para o outro tentando reconstruir o que aconteceu e se informar sobre seus direitos junto aos agentes públicos presentes. Em nota, a estatal diz que concluiu às 16h o reparo nas instalações.

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Em meio a telhas, ferragens e destroços espalhados pela calçada, os relatos se repetem: em questão de minutos, imóveis foram tomados pela água, paredes cederam e a fiação elétrica foi levada ao chão. Ao todo, cerca de 30 pessoas tiveram suas casas afetadas, e nove ficaram desabrigadas.

— Achei que fosse chuva. De repente, começou a cair tudo. Fiquei presa no meio dos escombros e precisei gritar muito para que me ouvissem. Estava com dois cachorros e um coelho. A fiação caiu toda no chão e, como estava tudo molhado, cheguei a levar um choque. Fiquei cerca de 20 minutos paralisada ali dentro, sem conseguir reagir. Mas consegui sair com todos — conta Pâmela Costa, moradora de uma das casas atingidas.

Welis Batista em meio aos escombros

Alexandre Cassiano / Agência O GLOBO

As 11 casas dispostas na vila em que ela morava foram completamente destruídas, mas só a dela estava ocupada, e seu marido, Welis Batista, e seus dois filhos, um de 14 anos e outro de 12, não estavam lá durante o acidente. No terreno ao lado, Luana Batista, vizinha de Pâmela, não teve a mesma sorte e ficou desesperada ao tentar tirar seus pais da casa em ruínas:

— Tudo começou a desabar. Tive que estourar a porta para tirar minha família. Foi desesperador. Estavam comigo meu pai e minha mãe, que são idosos, e minhas duas irmãs. A minha mãe passou mal e teve até que ser atendida pelo Samu — diz.

Do outro lado da rua, o morador Wallaxy Lombone, de 29 anos, acompanhou a cena pela janela.

— Ouvi um estrondo e vi uma avalanche de água descendo pela rua. Parecia cena de filme, como se eu estivesse num furacão. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer com a minha família. Quando vi a casa dos meus avós, pensei no pior. Aqui, todo mundo costuma ficar na rua, mas, por um livramento, não havia ninguém no momento — relata.

Após a água baixar, o cenário era de lama, móveis destruídos e prejuízos ainda difíceis de calcular. Moradores dizem que, apesar da presença de equipes da Cedae e da atuação de assistentes sociais, ainda não receberam informações claras sobre indenizações, prazos para reparos estruturais ou garantias de segurança para permanecer nas casas atingidas.

Volta ao normal

A Cedae informou que concluiu às 16h desta sexta-feira o reparo emergencial de um vazamento em tubulação interna da Estação de Tratamento de Água (ETA) Guandu, iniciando a retomada gradativa da operação do sistema, que funcionou com 50% da capacidade durante o período do serviço. Segundo a companhia, a previsão é que o Sistema Guandu volte a operar com 100% da capacidade nas próximas horas, em alinhamento com as concessionárias responsáveis pela distribuição, que devem informar, de acordo com suas áreas de atuação, os prazos para a normalização do abastecimento.

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Em uma das casas atingidas, ao menos dois carros foram destruídos pela força da água. Um Fiat Uno e um Fiat Palio tiveram os para-brisas quebrados e danos no capô. Segundo moradores, pelo menos outros dez veículos foram danificados na rua.

— Cheguei aqui e encontrei tudo nessa desordem. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer — diz João Batista Viana, acrescentando sua preocupação com a falta d'água e de respostas sobre os carros quebrados: — Somos dez pessoas na casa, sem água. Está difícil. Temos que racionar o que resta na caixa. Uso o carro para tudo: trabalho, médico. Hoje mesmo precisava ir ao mercado. Como faz?

João Batista relata que ainda não foi procurado pela Cedae

Alexandre Cassiano / Agência O GLOBO

Questionada sobre os impactos diretos à população, a Cedae afirmou que mantém equipes mobilizadas no local desde a tarde de quinta-feira para minimizar os efeitos do vazamento, realizar vistorias técnicas e garantir atendimento imediato aos moradores atingidos. Segundo a companhia, foram identificados 18 imóveis residenciais — sendo dez desabitados — além de 11 imóveis comerciais, seis salas comerciais e um imóvel de uso religioso afetados pela ocorrência.

De acordo com a estatal, parte das famílias foi encaminhada para pousadas, com todas as despesas custeadas, enquanto outras optaram por permanecer em casas de familiares ou nos próprios imóveis, apesar de terem recebido oferta de alternativas de acolhimento. Nesta sexta-feira, teve início o serviço de limpeza das áreas atingidas, e equipes do serviço social seguem atuando na localidade, prestando apoio, orientação e acompanhamento às famílias. As ações, segundo a empresa, devem continuar ao longo do fim de semana.

Em relação às indenizações, a Cedae informou que realiza o cadastramento dos moradores e o levantamento detalhado dos danos para a elaboração de um orçamento que definirá os valores a serem pagos. O processo é acompanhado pela Defensoria Pública e, após a validação do orçamento pelos moradores e pelo órgão, o pagamento é feito em até 48 horas. A companhia afirmou ainda estar à disposição para localizar e atender moradores que relatem não terem sido procurados.

Funcionários da Cedae operam na área atingida

Alexandre Cassiano / Agência O GLOBO

Impacto no abastecimento

A dimensão do impacto no abastecimento foi detalhada mais cedo apenas pelas concessionárias. A Águas do Rio informou que a redução da produção no Sistema Guandu provocou a interrupção do fornecimento em sete cidades da Baixada Fluminense: Belford Roxo, Duque de Caxias, Mesquita, Nova Iguaçu, Nilópolis, Queimados e São João de Meriti. Já na capital, eles disseram que a distribuição foi reduzida, com possibilidade de intermitências em diferentes regiões.

Enquanto a Rio+Saneamento notificou que o abastecimento de água foi paralisado em 24 bairros da Zona Oeste do Rio. Entre as áreas afetadas estão Bangu, Campo Grande, Santa Cruz, Realengo, Padre Miguel, Senador Camará, Guaratiba, Sepetiba e Vila Kennedy, entre outros. Segundo a concessionária, a normalização do fornecimento ocorrerá de forma gradual após a conclusão do reparo, com prazo de até 72 horas, que pode variar conforme a localidade, especialmente em áreas elevadas e nas extremidades da rede.

A Iguá Rio também informou que, com a redução das operações do Guandu, pode ocorrer uma diminuição na pressão ou falta d’água em áreas atendidas na Zona Sudoeste do Rio.

As concessionárias orientaram os moradores das regiões afetadas a priorizar o uso da água armazenada em cisternas e caixas-d’água para atividades essenciais, evitando atividades de grande consumo até a regularização do serviço.