Estandarte de Ouro consagra um desfile que fez história
A história do carnaval e a de Mestre Ciça se entrelaçam. Esse caso de amor contado no enredo da Viradouro encantou não só o público, mas também o júri oficial e os especialistas do Estandarte de Ouro. A escola de Niterói arrebatou cinco categorias do prêmio concedido pelos jornais O GLOBO e Extra, que está em sua 54ª edição. No quesito fantasia, que voltou este ano à premiação, quem gabaritou foi a Imperatriz Leopoldinense, com o enredo sobre a trajetória e os sucessos de Ney Matogrosso.
Assim como no ano passado, os 14 jurados do Estandarte selecionaram uma escola finalista por dia do Grupo Especial. Os anúncios foram feitos ao fim de cada noite de desfile. Imperatriz foi a escolhida do domingo; Viradouro levou a melhor na segunda-feira; e Vila Isabel superou as outras agremiações na terça-feira.
Para os jurados do Estandarte, a emoção da comunidade e a aposta na força da própria escola foram o diferencial da vermelha e branca de Niterói.
— A Viradouro surpreendeu por quê? Quando se anunciou que o carnaval de 2026 teria várias homenagens, o Ciça, mestre de bateria da escola, talvez não fosse a pessoa mais conhecida Brasil afora. Ele é mais conhecido no mundo do samba, sobretudo na sua escola, mas acabou que isso se tornou uma grande vantagem porque os componentes se empolgaram por cantar um samba sobre uma pessoa de quem eles gostam muito — avaliou o jornalista do GLOBO e presidente do júri, Marcelo de Mello.
Cores e formas
A comissão de frente, categoria também vencida pela escola, foi inspirada no principal instrumento de trabalho do mestre de bateria, o apito, que se transformava nos arcos da Praça da Apoteose, de onde surgia Ciça, o grande homenageado. A originalidade e a beleza, para Juliana Barbosa, professora da Universidade Federal do Paraná, contaram uma “história sem que fosse preciso ler a sinopse para entender o enredo”.
— Num ano em que tudo era midiático, o carnavalesco entendeu a força do mestre de bateria. Uma das grandes forças do samba é a metalinguagem — disse a jurada.
Já para celebrar Ney Matogrosso, a Imperatriz usou e abusou das formas e das cores que o artista criou e aderiu em diferentes fases de sua carreira. Além do quesito fantasia, a agremiação de Ramos conquistou o Estandarte de melhor ala com “Bota pra ferver”, que festejou a liberdade artística de Ney.
— O lançamento da premiação de fantasia trouxe um frescor novo e inesperado para as escolas de samba — analisou Felipe Ferreira, professor da Uerj e escritor que integrou a banca do júri. — Foi uma grande contribuição para mostrar que não é preciso carregar algo pesado numa fantasia.
Outra homenagem que rendeu premiação foi a que a Vila Isabel fez ao multiartista Heitor dos Prazeres. “Macumbembê, samborembá: sonhei que um sambista sonhou a África”, assinado por André Diniz, Evandro Bocão e Arlindinho, ganhou na categoria samba-enredo. E o tamborim quadrado tocado pelos ritmistas da escola garantiu o reconhecimento em inovação.
As caras da Avenida
Graciosidade. Cintya Santos, da Mangueira, foi escolhida a melhor porta bandeira: seu segundo prêmio em quatro anos de escola
Pablo Porciuncula / AFP
Dos que emprestam seus rostos e nomes para transformar o trabalho coletivo da comunidade em reconhecimento, Julinho, da Viradouro, foi eleito como o melhor mestre-sala, abocanhando o seu sexto Estandarte, incluindo o de 2025. Cintya Santos, da Mangueira, levou pela segunda vez — em quatro anos de verde e rosa — o prêmio de melhor porta-bandeira.
Igor Sorriso, do Salgueiro, também pôde comemorar o bicampeonato com a conquista no quesito melhor puxador. O poder da voz ainda fez a vencedora na categoria revelação: a puxadora Jéssica Martin, da Beija-Flor. Ela assumiu o microfone da escola de Nilópolis, ao lado de Nino do Milênio, após Neguinho da Beija-Flor deixar o posto que exerceu por mais de cinco décadas. Jéssica se destacou ainda por ser a única mulher nessa função no Grupo Especial.
— É extremamente difícil uma mulher ocupar esse lugar de puxadora de samba, porque a voz feminina é mais aguda. Jéssica superou — comentou a cantora e pianista Ifátókí, nova jurada do Estandarte.
Elegância. Julinho da Viradouro levou mais um prêmio como mestre-sala; ao todo, são seis
Júlia Aguiar/ Agência O Globo
O jornalista, escritor e roteirista Aydano André Motta fez coro:
— E com a difícil missão de substituir nada menos que Neguinho da Beija-flor, voz da escola desde 1976.
Sobe o som. Os ritmistas da Unidos da Tijuca conquistaram o Estandarte de mehor bateria deste carnaval
Fabiano Rocha/Agência O Globo
