Capobianco: “Adaptação é percebida pelo setor privado como uma ação de governo mas é uma frente de oportunidades” Ana Paula Paiva/Valor “Estamos muito mais bem preparados do que estávamos em 2023 e 2024. Ali tivemos que nos organizar durante a crise. Foi terrível”, reconhece João Paulo Capobianco, ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, ao mencionar o El Niño que está a caminho e pode ser muito forte. “Mas a dimensão do problema é muito grande”. Capobianco, que assumiu a pasta em março, lembra que o governo vem preparando o país para a crise climática há algum tempo, com várias ações. “Mas adaptação à crise do clima não pode ser encarada apenas como uma despesa pública”, defende, cobrando mais envolvimento do setor privado. “O ponto é que adaptação ainda não é vista como investimento”. Cita oportunidades de empreender em obras de infraestrutura, na adaptação de cidades, na recuperação de áreas verdes, na reforma de edifícios. “É uma frente que pode gerar muita atividade econômica”. A atribuição do MMA durante o El Niño é no combate e na prevenção de incêndios e na ajuda a comunidades isoladas na Amazônia. Na entrevista ao Valor, Capobianco detalha ações e novos desafios: Valor: O senhor tem dito que adaptação à crise do clima não pode ser encarada apenas como uma despesa pública. Pode explicar? Capobianco: Essa é uma questão central. Adaptação sempre foi um dos pilares menos desenvolvidos da Convenção do Clima comparado ao da mitigação, que é reduzir emissões, e aos meios de implementação, que são recursos, tecnologia e cooperação internacional. Adaptar é preparar as sociedades humanas para a realidade da mudança do clima. A adaptação ficou relegada a segundo plano porque a prioridade dos países desenvolvidos é reduzir emissões, o que é importante. Ficando em segundo plano, recebeu menos recursos, menos decisões para implementar e menos investimento no desenvolvimento de tecnologias. Isso mudou nas últimas Cops. Valor: E qual é o problema? Capobianco: A questão é que adaptação só tem sido percebida pelo setor econômico e pela sociedade como uma ação de governo. Claro que é verdade: o governo tem que agir, tem que ter política pública. Mas adaptação ainda não é vista como investimento. Valor: Mas é investimento? Capobianco: Sim. Gera oportunidades de empreender em obras de infraestrutura, na adaptação de cidades, no aumento de resiliência, na recuperação de áreas verdes, na reforma de edifícios. É uma frente que pode gerar muita atividade econômica. O governo tem financiamento para isso, como o PAC Drenagem e Contenção de Encostas (investimentos de R$ 18,6 bilhões, sendo R$ 14,9 bilhões em drenagem urbana e R$ 3,7 bilhões em contenção de encostas), duas vertentes do Programa de Aceleração do Crescimento destinadas a infraestrutura para contenção de encostas em áreas críticas e drenagem em regiões suscetíveis a alagamentos. O governo tem investido muitos recursos, mas ali só tem recursos. Precisa ter agentes econômicos. E tem o Plano Clima que acabou de ser aprovado. São oito setores da economia com medidas para reduzir emissões, com metas e trajetórias para transporte, energia, agricultura, cidades. E existem 16 setores para adaptação, com medidas propostas para cada um. É o que deveria ser feito para que a sociedade brasileira urbana ou não urbana esteja mais adaptada. Valor: Como uma cidade como São Paulo se adapta? Capobianco: Este é o desafio. Existe o Programa Cidades Verdes e Resilientes que busca adotar soluções baseadas na natureza -proteger rios deixando áreas para captação de água e assim reduzir riscos de enchentes, ampliação de áreas verdes, arborização em zonas que tem poucas árvores. São ações que o Plano Clima indica. Um dos capítulos é o Adapta Cidades. Tem que se conseguir mobilizar o setor privado para que, junto com o poder público, entre forte na adaptação. É preciso planejamento, definir quais são as ações prioritárias, quais são as regiões críticas da cidade por tipo de risco climático -deslizamento, inundação, ondas de calor. O Adapta Cidades oferece condições financeiras e técnicas para municípios construírem seus planos. Hoje são quase 600 neste esforço, em todos os Estados. Não é muito diante dos mais de 5.500 municípios brasileiros, mas é um universo onde vivem 56 milhões de pessoas. Valor: O Brasil está preparado para um El Niño como o que se espera para este ano? Capobianco: É preciso destacar dois movimentos diferentes. Uma coisa são as ações que o governo vem implementando em várias áreas, com investimentos de bilhões de reais e que acontecem há um bom tempo -oferta de água na região semiárida, com transposição (do rio São Francisco), cisternas, adutoras. Isso é um plano de longo prazo, não começou em função deste El Niño. A elevação de pontes é outro exemplo. Os dados do histórico de chuvas são antigos, é preciso incorporar novos cenários climáticos e novas tendências. São ações permanentes que começaram faz tempo. E aí temos a situação do El Niño. Não é possível que o governo federal atue sozinho num país de dimensão continental” Valor: O que vocês esperam? Capobianco: O MMA já está trabalhando desde novembro. Porque enfrentamos, em 2024, uma situação dramática, que começou em 2023 e não estava no horizonte. Não tínhamos planejamento ou avaliação de cenários de risco de incêndios decorrentes de seca. Em 2024 começamos a melhorar a eficiência, mas muito em cima do já acontecido. A partir daí começamos a ter reuniões cíclicas com meteorologistas e especialistas em cenários climáticos para monitorar seca e fogo, que são, para o MMA, o principal enfrentamento. Prevenção e combate a incêndios são ações essenciais do MMA. No final de 2025 começamos a ter os primeiros sinais de risco de El Niño. Passamos a ter reuniões mensais, que agora são quinzenais, para conhecer as tendências. O Brasil é um país continental. Os municípios não entram em risco de incêndio todos ao mesmo tempo. Em fevereiro editamos uma portaria do MMA que indica o risco climático para os municípios ao longo do tempo. Isso permite tomar ações preventivas conforme a dinâmica no tempo e espaço. É um elemento para alertar a sociedade e os gestores públicos de quando aquele município entrará em zona de risco. Ao mesmo tempo, foi instalada a sala de situação, em abril, com 24 ministérios e coordenação da Casa Civil. Estão ali os ministérios centrais - Saúde, Energia, Meio Ambiente, Defesa, Agricultura, Transportes. Discutimos cenários e ações, avaliamos se os ministérios estão preparados. E conseguimos, em 2024, aprovar a Lei do Manejo Integrado do Fogo, que estava parada no Congresso. Essa lei muda completamente o tratamento da questão dos incêndios no Brasil porque distribui a responsabilidade entre União, Estados e municípios, mas também com proprietários privados que possuem extensas áreas. Até então não tinham a obrigação de ter brigadas de prevenção a incêndios, como tem um prédio em uma cidade. Agora as propriedades rurais têm que ter planos de prevenção, evacuação e equipamentos. Porque não é possível que o governo federal atue sozinho num país de dimensão continental quando o fogo ocorre disperso no território. Uma queimada que se pega no início é relativamente fácil de controlar. Uma queimada que virou um incêndio exige um esforço brutal. Em 2020 o Pantanal foi dizimado pelos incêndios. Em 2024 tivemos a oportunidade de fazer uma parceria com o Mato Grosso do Sul. Foi ali que inauguramos uma sala de situação para incêndios. Não tínhamos isso. E embora a área de incêndio tenha sido muito grande, conseguimos minimizar os danos. Valor: Como funciona? Capobianco: Cruzam-se vários indicadores: chuva, seca, vento e os cientistas criam o que os cientistas chamam de risco de fogo. E então se monitoram os focos de calor. Em 2024, os incêndios começaram muito antes, em abril, porque a seca foi muito forte. Então, teríamos tido em 2024 uma catástrofe muito superior a 2020 e conseguimos reverter, mesmo com o impacto brutal que tivemos no início. Valor: Como? Capobianco: Tivemos uma ação integrada. As Forças Armadas montaram acampamentos de frente de controle de incêndio, junto com o Ibama e Corpo de Bombeiros. Foi um desastre o que aconteceu, mas conseguimos reverter algo que teria sido muito mais grave. Valor: E agora, para quais áreas vocês olham? Capobianco: As regiões críticas do Brasil para incêndios: a região norte, nordeste e parte da centro-oeste incluindo o Pantanal. A Amazônia do Equador para baixo - a região do Xingu, o Sul do Pará, o Maranhão. Isso está mapeado pelo histórico de tendências de incêndio. Outro mapeamento importante, principalmente no Pantanal, é a disponibilidade de massa seca, como capim, que é muito inflamável. Para isso fazemos a queima prescrita, que é controlada feita antes do período seco. Este ano foram mais de 200 mil hectares de queima prescrita. Assim, quando o fogo chegar, não encontrará este material. A novidade do incêndio no Brasil é na floresta. Valor: Como, novidade? Capobianco:Porque o clima mudou. A Amazônia é uma floresta tropical úmida e tal qual a Mata Atlântica não pegava fogo, a umidade não permitia.. Mas agora, com a mudança do clima, a floresta tem ficado cada vez mais seca. Hoje incêndios em larga escala viraram algo factível na Amazônia e na Mata Atlântica. Valor: Como vocês se preparam? Capobianco: O trabalho é feito no entorno. O combate dentro da floresta, muito mais difícil de se operar, é feito por aeronaves. Hoje temos 37 aeronaves, 4.400 brigadistas, 27 veículos especiais. Outra atribuição do MMA é a proteção a comunidades que ficam isoladas, principalmente na Amazônia. Ficam sem acesso a água, comida, transporte e nós apoiamos com cestas básicas, reservatórios de água. Também atuamos no resgate de fauna e proteção à biodiversidade. E no monitoramento da qualidade do ar. A situação na Amazônia se agravou de tal maneira com as fumaças dos incêndios que tivemos que instalar estações para medir a qualidade do ar nas principais cidades. Valor: E o El Niño? Capobianco: O El Niño é um fenômeno que se repete e sempre ocorreu. Agora ocorre em um cenário pior, com elevação da temperatura média global. Essa sinergia o torna mais impactante. Existem as ações permanentes do governo, como o sistema de cisternas para ajudar a combater o déficit hídrico no Nordeste -mas hoje, as cisternas estão sendo levadas para a Amazônia. É incrível. Quem poderia imaginar que na Amazônia, o território das águas, populações poderiam correr o risco de ficar sem água? Outra questão é solicitar aos Estados que proíbam o uso do fogo, que não é proibido no Brasil e é uma questão cultural. Mas nesse período precisa proibir. Um fogo pequeno pode virar um incêndio descontrolado. Valor: O Brasil está preparado para o El Niño? Capobianco: Estaríamos 100% preparados se toda a sociedade, todo proprietário rural, estivesse mobilizado e agindo junto com o poder público. Não temos como deslocar bombeiros e brigadas na velocidade em que esses incêndios ocorrem em um país de dimensão continental. Por isso a prevenção é o caminho. Eu diria que estamos muito mais bem preparados do que estivemos em 2023 e 2024. Ali tivemos que nos preparar durante a crise. Foi terrível. Mas a dimensão do problema é muito grande.
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‘Estamos mais bem preparados do que em 2023 e 2024’, diz ministro do Meio Ambiente
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