Imagem da Lua feita por astronautas da missão Artemis II, em abril Divulgação/NASA No final de agosto, a NASA solicitou a empresas contratadas que se preparassem para construir um reator nuclear capaz de suportar uma viagem espacial e operar sem manutenção nas proximidades do polo sul lunar. Isso pode parecer ficção científica, mas a agência quer que o equipamento esteja pronto para lançamento até dezembro de 2030. Há um motivo para essa pressa. A Rússia pretende ter um reator lunar em funcionamento até 2036, como parte de uma parceria sigilosa com a China. A NASA já acelerou seu cronograma para superar as rivais, diz o The New York Times. A disputa envolve o próprio futuro da exploração espacial. Estados Unidos e China querem ser os primeiros a estabelecer uma base lunar, buscar recursos como água congelada e lançar missões mais profundas no sistema solar. Controlar o acesso aos recursos da Lua é vital para essa missão. Ambas as superpotências acreditam que um reator nuclear é a peça-chave dessa ambição. Os países planejam ativar seus reatores apenas após chegarem à Lua. No entanto, cientistas renomados alertam que os governos estão avançando rápido demais em uma era de exploração espacial que já registrou alguns desastres notáveis. Nos últimos seis anos, vários foguetes chineses, americanos e russos falharam e explodiram, e uma sonda de pouso russa colidiu com a Lua. Lixo espacial cai regularmente na Terra. Falhas poderiam desencadear uma reação em cadeia com consequências graves. Destroços de reatores em queda poderiam espalhar material radioativo, como aconteceu no Canadá no final da década de 1970. Uma explosão ou um derretimento do núcleo na superfície lunar poderia transformar regiões inteiras em áreas de acesso proibido. Explosão da nave Starship, da Space X, durante um de seus testes Reprodução/YouTube/NASASpaceflight "Sempre haverá uma corrida espacial em curso e, se você incluir a energia nuclear nessa equação, a situação pode tomar um rumo potencialmente mais perigoso", disse Edwin Lyman, diretor de segurança de energia nuclear da Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados). Uma análise de especificações técnicas, documentos de aquisição e pesquisas acadêmicas, juntamente com entrevistas com especialistas do setor, autoridades governamentais e críticos, oferece o panorama mais claro até o momento de como a China, a Rússia e os Estados Unidos estão buscando concretizar essa ambição nuclear. Os registros também ajudam a explicar um aspecto fundamental da parceria espacial sino-russa, uma aliança defendida pelos presidentes Xi Jinping e Vladimir V. Putin. A energia nuclear parece ser a única tarefa central que a China delegou ao seu parceiro no projeto lunar. Nenhum país tem mais experiência do que a Rússia nessa área. O país lançou mais de 30 reatores em órbita — a maioria nas décadas de 1970 e 1980, a bordo de satélites da era da Guerra Fria — e é líder em energia nuclear civil. A Rússia controla o maior estoque do que é considerado o combustível nuclear mais seguro para missões espaciais. Esse combustível — urânio que não é altamente enriquecido — está em falta nos Estados Unidos. "A Rússia praticamente não tem concorrentes no campo da energia nuclear espacial", disse Mikhail Kovalchuk, presidente do Instituto Kurchatov, à agência de notícias russa TASS. O Instituto Kurchatov, uma organização de pesquisa, está ajudando a projetar um reator lunar. A NASA está correndo atrás do prejuízo. A agência lançou um reator em 1965, mas o desativou após uma falha na espaçonave que não estava relacionada ao reator em si. Desde então, os Estados Unidos gastaram mais de US$ 20 bilhões em programas nucleares espaciais, mas nunca implantaram outro reator. A corrida por um reator lunar é tanto uma demonstração de poder quanto uma questão de exploração. O presidente Trump declarou que a superioridade no espaço faz parte de sua agenda "America First" (América em Primeiro Lugar). Xi e Putin fizeram declarações semelhantes. Países afirmam que a energia nuclear lunar é indispensável Qualquer base permanente na Lua exige uma fonte de energia confiável. Reatores nucleares não dependem da luz solar para funcionar e podem ser compactos. Com a tecnologia adequada, eles exigem pouca intervenção humana, segundo a NASA e o Instituto Kurchatov. Nos primeiros anos, os Estados Unidos e a China precisariam apenas de energia suficiente para manter os equipamentos aquecidos e carregar os rovers — veículos que percorrem a superfície. Para isso, planejam utilizar energia solar e sistemas de energia por radioisótopos. Esses sistemas convertem o calor proveniente do decaimento radioativo natural de isótopos em eletricidade. Estados Unidos, Rússia e China já utilizaram esses sistemas no espaço. No entanto, uma base lunar ampliada exigiria muito mais energia do que esses sistemas conseguem gerar. Painéis solares não funcionariam durante as frias noites lunares, que se estendem por duas semanas terrestres. Qualquer sistema de energia próximo ao polo sul da Lua teria de suportar variações de temperatura entre 130 e -334 graus Fahrenheit. Moscou encarregou suas agências estatais de entregar um reator lunar, chamado Selena, até 2036, para abastecer as estações lunares lideradas pela China. O Selena geraria até 10 quilowatts de eletricidade e teria capacidade de operar de forma autônoma por uma década. Ele compartilharia características com um reator anterior, projetado para operar no Ártico. A NASA acelerou seu cronograma, temendo que um reator russo-chinês pudesse estabelecer uma zona de exclusão na Lua. Espera-se que o Reator Lunar 1 da NASA produza 20 quilowatts de eletricidade (aproximadamente o consumo de energia de 16 residências americanas) e opere por cinco anos sem intervenção. Como primeiro passo, a NASA planeja usar energia nuclear para impulsionar uma espaçonave até Marte em dezembro de 2028. Isso nunca foi feito antes. Paralelamente, o Pentágono pretende desenvolver seus próprios reatores espaciais para implantação em órbita e na Lua, segundo a Casa Branca. As datas previstas têm sofrido sucessivos atrasos, e poucos especialistas acreditam que os países cumprirão seus prazos. Ninguém possui um módulo de pouso comprovado capaz de depositar materiais pesados — e potencialmente radioativos — em um terreno lunar irregular. Ninguém jamais instalou um reator em ambiente de baixa gravidade. As bases lunares ainda não foram construídas, e a quantidade de eletricidade de que necessitariam é objeto de especulação. É por isso que especialistas afirmam que os projetos dos reatores — ou partes deles — podem sofrer alterações. “Nada é certo no momento”, disse Julien de Troullioud de Lanversin, cientista nuclear e professor da Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong. Os riscos Os Estados Unidos e a Rússia afirmam que seus reatores permaneceriam inoperantes — o que os cientistas chamam de “não irradiados” — até chegarem à Lua. Isso reduziria os riscos. Engenheiros nucleares dizem que o combustível de urânio “frio” representa pouca ameaça radioativa, mesmo que caia de volta à Terra. Ainda assim, imprevistos podem ocorrer, especialmente durante a explosão controlada que impulsiona o lançamento de um foguete. “Esse é o momento de maior risco”, disse Leopold Summerer, que lidera um grupo de trabalho das Nações Unidas sobre energia nuclear no espaço sideral. “Já tivemos muitas falhas de lançamento, por isso dispomos de muitos dados sobre o que pode dar errado.” Considere, por exemplo, a queda de um reator no oceano. A água desacelera os nêutrons, aumentando a probabilidade de que eles fissionem átomos. Isso poderia causar um desastre ao levar o reator ao estado crítico — ou seja, desencadear uma reação em cadeia de fissão nuclear que libera radiação. O risco é real, pois a maioria das plataformas de lançamento fica próxima a corpos d'água. Especialistas em energia nuclear afirmam que isso provavelmente ocorreu na Rússia em 2019, quando um míssil de cruzeiro movido a reator nuclear falhou e caiu no Mar Branco. Quando pesquisadores tentaram recuperá-lo, ocorreu uma reação nuclear, segundo o Departamento de Estado dos EUA. Pelo menos cinco trabalhadores morreram. (A Rússia negou essas alegações e afirmou que o míssil não era propulsionado por um reator.) As especificações da NASA exigem um projeto capaz de evitar esse desfecho. A Rosatom, empresa estatal russa de energia nuclear, recusou-se a comentar, alegando que seu programa espacial é sigiloso. O Instituto Kurchatov, responsável pela parte científica, e a Roscosmos, responsável pelo programa espacial russo, não responderam às perguntas. O Ministério das Relações Exteriores da China e a Agência Espacial Tripulada da China também não responderam aos questionamentos. Outro risco é uma falha de funcionamento que poderia trazer o reator de volta à Terra após a operação. Em 1978, a reentrada descontrolada de um satélite russo movido a energia nuclear, o Kosmos 954, espalhou material radioativo por uma área de quase 48.000 milhas quadradas no norte do Canadá. Após cerca de um ano de operações de limpeza, apenas 0,1% da fonte de energia do satélite foi recuperado. Nos Estados Unidos, qualquer reator lunar deverá ser avaliado por especialistas de sete agências. Mas é impossível descartar acidentes. “A definição de um acidente é quando as coisas não saem como planejado”, disse R. Scott Kemp, professor associado de ciência e engenharia nuclear do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Na Terra, os reatores são protegidos por estruturas de contenção, que seriam extremamente caras e tecnicamente complexas de construir na Lua. A NASA afirmou que seu reator seria blindado, embora não esteja claro como. Os reatores lunares provavelmente seriam cercados por zonas de exclusão para reduzir o risco de radiação para astronautas e equipamentos, disseram especialistas. Com pouca contenção, mesmo acidentes menores produziriam muito mais precipitação radioativa, disse o Dr. Kemp. Não há vento na Lua, mas, com menos gravidade, os detritos podem viajar longas distâncias após uma explosão. Na Terra, quando um reator chega ao fim de sua vida útil, o descomissionamento é um processo complexo e cuidadoso que leva anos. Na Lua, tanto a NASA quanto as agências russas afirmam que simplesmente deixariam o material radioativo para trás. “Em uma corrida espacial, eles não querem se incomodar com um problema difícil para o qual ninguém tem solução”, disse o Dr. de Troullioud, cientista nuclear em Hong Kong.
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Estados Unidos, Rússia e China disputam a instalação de reatores nucleares na Lua; cientistas apontam riscos
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