Estado da Índia mais populoso que o Brasil e sede do Taj Mahal é ameaçado pela guerra no Irã; entenda

 

Fonte:


Longe da guerra no Irã, as interrupções no fluxo de petróleo e gás estão se espalhando por Uttar Pradesh, um estado na índia mais populoso que o Brasil. Polos industriais com cadeias de suprimentos especializadas pontilham sua zona rural densamente povoada. Cada distrito se especializa em um ramo: latão em Moradabad, couro em Kanpur, tapetes em Bhadohi e vidro em Firozabad. Agora, em Firozabad, as fábricas de vidro que dependem do gás natural importado, principalmente do Golfo Pérsico, estão expostas à escassez e aos altos preços. Em risco estão os meios de subsistência de até 1 milhão de pessoas que dependem da fabricação de vidro para o seu emprego.

Resposta: Irã planeja transformar universidade atingida por bombardeios em 'museu da guerra'

Leia também: guerra no Irã queimou munições estratégicas dos EUA projetadas para potenciais confrontos com China e Rússia

As fábricas de Firozabad, a apenas 34 km do Taj Mahal, estão proibidas de usar fornos a carvão desde 1996 para proteger a fachada de mármore branco do monumento. Na cidade, centenas de pequenas e médias empresas produzem de tudo, desde garrafas e miçangas até lustres e faróis, gerando mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 4,96 bilhões) em um bom ano, incluindo US$ 200 milhões (R$ 992 milhões) em exportações.

Os riscos vão além da cidade. A economia da Índia está agora entre as maiores do mundo, logo atrás da Alemanha e do Japão, mas o desemprego permanece teimosamente alto. Indústrias de mão de obra intensiva, como a fabricação de vidro, são cruciais para gerar mais empregos e transformar a vasta força de trabalho do país em uma vantagem competitiva. O desafio está crescendo, com cerca de 9 milhões de jovens entrando no mercado de trabalho a cada ano.

A Índia é o terceiro maior importador mundial de petróleo e gás, e, à medida que sua economia cresce, também cresce sua conta de importação. No início da guerra na Ucrânia, as refinarias recorreram ao petróleo bruto russo com desconto. Mas, após a pressão do governo Trump para que cessassem as compras da Rússia, as refinarias voltaram aos fornecedores tradicionais: Iraque, Arábia Saudita e outros países que dependem do transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz.

Aqui, o impacto não é sentido nos postos de gasolina. O governo indiano mantém os preços do diesel e da gasolina estáveis, e poucos moradores possuem carros. No entanto, a escassez e a disparada dos preços do gás natural ameaçam o trabalho fabril que perdura há séculos.

A tradição de fabricação de vidro em Firozabad remonta ao século XVI, quando o imperador Akbar mandou reciclar objetos mogóis em um forno local. Hoje, mil caminhões carregados de vidro quebrado chegam diariamente de toda a Índia e de outros países. Desde março, montanhas de cacos se acumulam intocadas, pois derretê-los tornou-se muito caro.

Mesmo antes da crise energética, o setor já enfrentava dificuldades. Os fabricantes de vidro locais estavam perdendo terreno para os concorrentes chineses, que possuíam fábricas mais avançadas. A maioria dos fabricantes de vidro chineses utiliza fornos elétricos, uma opção praticamente inacessível para a maioria das empresas em Firozabad. Além disso, a rede elétrica da Índia não é suficientemente estável para fornecer eletricidade confiável e acessível a essas operações. Com a alta dos preços do petróleo, a vantagem de custo da China só aumenta.

Já se passaram três décadas desde que Firozabad enfrentou uma grande crise energética — quando medidas para proteger o Taj Mahal forçaram a transição para o gás. Naquela época, apenas um terço das fábricas de vidro sobreviveram à mudança.

Nos bazares tradicionais de Firozabad, o cenário ainda é de abundância. Riquixás carregados de vidro branco, sem tingimento, passam por fileiras de pulseiras coloridas enquanto os atacadistas abastecem as lojas. Essas pulseiras, vendidas por apenas 2 centavos cada, podem estar entre os objetos de alegria mais baratos do mundo. Mesmo antes da crise, as margens de lucro eram pequenas. Agora, os preços subiram cerca de 30%.

Mukesh Bansal, um fabricante de vidro local e vice-presidente da Federação de Fabricantes de Vidro de Toda a Índia, manteve seus funcionários na folha de pagamento. Mas, com a escassez de gás, ele foi forçado a praticamente extinguir um de seus dois fornos. Em abril, sua fábrica normalmente já teria começado a produzir enfeites de Natal para exportação aos Estados Unidos. Este ano, isso não aconteceu.

Os fornos de Firozabad, que produzem cerca de 70% do vidro da Índia, precisam queimar continuamente a uma temperatura em torno de 1.580°C. Isso requer milhares de quilos de gás diariamente.

“Não fazemos parte da guerra, mas estamos sofrendo as consequências”, disse ele.

A pressão está se espalhando para os compradores. Suraj Mehta, diretor de estratégia da Hindusthan National Glass & Industries, afirmou que as garrafas de vidro se tornaram “mais difíceis e mais caras de adquirir” em toda a Índia nos últimos dois meses. Os fabricantes de vidro estão absorvendo cerca de metade do aumento, repassando o restante para cervejarias, fabricantes de refrigerantes, oficinas mecânicas e fornecedores de produtos médicos.

Binni Mittal, presidente da Sociedade Cooperativa do Parque Industrial de Firozabad, é dono de uma fábrica de pulseiras que emprega centenas de trabalhadores que aquecem, moldam e cortam vidro incandescente para produzir as peças. Seu fornecimento habitual de gás caiu 20%, obrigando-o a reduzir a produção em 40%. De uma cabine com ar-condicionado ao lado de sua fornalha, Mittal observou os custos do gás subirem. O abastecimento se manteve estável, mas os preços oscilaram drasticamente.

“Se a guerra continuar assim”, disse ele, “nossa indústria será destruída”.

Antes da guerra no Irã, o maior problema de Mittal era a escassez de mão de obra. Agora, ele teme que demitir funcionários possa significar perdê-los permanentemente, mesmo que os preços da energia voltem ao normal. No passado, ele teria contratado legiões de trabalhadores, mas o trabalho é tão árduo que poucas famílias querem que seus filhos o façam. No mês passado, a temperatura chegou a 42°C à sombra e muito mais alta perto das fornalhas. Ele não está mais contratando.

Em um mercado de trabalho a céu aberto em Firozabad, Saddam Hussein, um cortador de vidro de 32 anos, esperava por trabalho. Ele costumava sustentar a mulher e os três filhos com um salário de cerca de US$ 6 por dia. No último mês, conseguiu trabalho apenas quatro ou cinco dias por semana.

“A guerra acabou lá, mas nós estamos sendo mortos aqui”, disse ele. “Quando não consigo trabalho, minha família passa fome.”

Com a piora das condições de trabalho, cresce o descontentamento. Há algumas semanas, milhares de trabalhadores da indústria eletrônica foram às ruas em partes de Uttar Pradesh, próximas a Nova Délhi, para protestar contra os salários e as condições de trabalho. Os portões das fábricas foram invadidos. Policiais usaram gás lacrimogêneo e prenderam centenas de pessoas. Muitos reclamaram que os salários já não acompanhavam o custo de vida mesmo antes da crise energética elevar o preço de itens essenciais como o gás de cozinha.

Outros setores também estão sentindo a pressão sobre o fornecimento de energia e o emprego. Em Khurja, a cerca de 80 km a sudeste de Délhi, artesãos produzem cerâmica desde a Idade Média.

“O combustível é a principal parte do nosso produto”, disse Shalabh Singhania, da RK Potteries, estimando que ele represente de 30% a 35% dos custos. Seus fornos operam em temperaturas mais baixas do que os fornos de vidro, o que lhe permitiu desligá-los durante o mês de março sem danificá-los. O negócio exige muita mão de obra. "Uma caneca passa pelas mãos de 30 trabalhadores", disse ele.

Ele hesitou em suspender os contratos de trabalho, porque a maioria havia viajado longas distâncias para trabalhar e raramente retornaria se fosse embora. Ele estimou que, em determinado momento, 98% dos fornos de Khurja haviam fechado. Eles só reabriram depois que o governo permitiu a queima de diesel, normalmente proibido para conter a poluição do ar em Délhi.

Enquanto sua fábrica produz utensílios domésticos, outras em Khurja fabricam isoladores cerâmicos para a crescente rede elétrica da Índia — um sinal de que a crise energética também está restringindo os materiais necessários para aliviá-la. Indústrias como a de Singhania dependem de redes de cooperação estreitamente interligadas entre proprietários, trabalhadores e compradores.

"Se um elo se rompe nessa corrente, toda a corrente se rompe", disse ele. "A corrente já está se rompendo."