Esqueletos enterrados sentados há mais de 2 mil anos são encontrados por arqueólogos na França; vídeo
No fundo de tumbas circulares, esqueletos de gauleses enterrados sentados. Por que foram colocados ali? Estariam mesmo mortos? Novas sepulturas descobertas em Dijon lembram o quanto os costumes dos antepassados ainda permanecem envoltos em mistério.
Veja fotos: Caveira esculpida em túmulo descoberto em praça na Inglaterra intriga arqueólogos
Cena de crime da Idade do Ferro: arqueólogos encontram 77 mulheres e crianças mortas em possível massacre de 2.800 anos na Sérvia
No coração da cidade borgonhesa, os alunos da escola primária do grupo Joséphine Baker ganharam uma nova atração nos últimos dias: um esqueleto, particularmente bem preservado, que repousa no fundo de uma fossa circular, em uma área de escavações ao lado do pátio.
Confira:
Esqueletos sentados em fossas circulares: mistério de 2 mil anos em Dijon
Esse esqueleto, como outros quatro encontrados no início de março, está sentado no fundo de uma cavidade de cerca de um metro de diâmetro e aproximadamente quarenta centímetros de profundidade. Os braços descem ao longo do corpo, as mãos repousam próximas à bacia, as costas se apoiam na parede oriental e o olhar se dirige para o oeste.
Exatamente como os treze esqueletos gauleses já descobertos no ano passado no mesmo local, a cerca de vinte metros de distância.
Dijon, um ponto-chave para entender os gauleses
Há mais de 30 anos, escavações arqueológicas realizadas na cidade, antes de projetos de construção, revelam uma ligação particular com os gauleses — povo celta que Astérix e Obélix tornaram célebre, mas que ainda é pouco conhecido pelos arqueólogos.
Os gauleses pertencem à proto-história, período situado entre a pré-história e a história, no qual esses povos são conhecidos apenas por meio dos relatos de outros.
Eles também são mencionados nos escritos de Júlio César sobre a conquista da Gália — registros considerados parcialmente enviesados.
Esta fotografia, tirada em 17 de março de 2026, mostra um sítio arqueológico que revela sepulturas gaulesas no centro de Dijon, no centro-leste da França
FREDERIC BOURIGAULT / AFP
Para os arqueólogos, Dijon se tornou uma cidade essencial para aprofundar esse conhecimento. Com duas outras tumbas do mesmo tipo descobertas em 1992, uma pequena área do centro concentra cerca de vinte sepulturas de gauleses enterrados sentados, de um total de 75 identificadas no mundo (na França, Suíça e Grã-Bretanha).
“São descobertas particularmente impressionantes. Pode-se falar em Dijon de uma aglomeração gaulesa significativa, diante do número e da qualidade dos achados”, destaca Régis Labeaune, arqueólogo do Inrap, responsável pelas novas descobertas.
Mistérios que permanecem sem resposta
Para o futuro, as perguntas se multiplicam: por que foram enterrados dessa forma? Seria um sinal de exclusão ou, ao contrário, indicaria personagens importantes?
Estariam realmente mortos antes de serem enterrados? Cinco ou seis apresentam marcas de violência, sendo que um deles possui uma lesão fatal no crânio. Teriam sido sacrifícios para tornar a terra mais fértil ou inimigos mortos colocados ali para desencorajar adversários.
Com exceção de um bracelete que permitiu datar a ocupação do período gaulês, nenhum objeto pessoal ou ornamento foi encontrado junto aos corpos.
Todos são homens, com altura entre 1,62 m e 1,82 m, com exceção de uma criança descoberta em 1992.
A dentição é surpreendentemente bem preservada, “provavelmente porque não conheciam o açúcar”, observa Annamaria Latron, arqueoantropóloga do Inrap.
“O desgaste é clássico para dez deles, com algumas marcas de polimento. Os ossos apresentam sinais de artrose, indicando atividade física intensa. Também se observa forte solicitação dos membros inferiores”, detalha a pesquisadora.
“Não temos uma hipótese privilegiada” para explicar esse tipo de sepultamento, acrescenta.
“Falta a parte da superfície, o que existia acima dessas tumbas. Ser arqueólogo pode ser bastante frustrante”, afirma, sorrindo.
Vestígios e herança gaulesa
No final dos anos 1990, também foram encontrados cadáveres de animais (28 cães, cinco ovelhas e duas porcas), que parecem datar do fim do período gaulês e podem estar associados a práticas de sacrifício, segundo o Inrap.
O instituto dedicará a temporada de 2026 ao período gaulês.
“O que nos resta dos gauleses em nossa língua é também o ‘pagus’, a menor divisão territorial, que deu origem a palavras como país, paisagem, camponês, paganismo e até... página”, lembra Dominique Garcia, presidente do Inrap.
Com os gauleses, ainda há muito a ser escrito. Afinal, “dois terços das nossas prefeituras têm origens gaulesas do ponto de vista arqueológico”, conclui.
