Mensagens encontradas pela Polícia Federal mostram que a advogada e esposa do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), Valéria Linhares, teria negociado honorários de R$ 2 milhões em caso de êxito em um processo de um político preso por desvio de dinheiro da Educação e que corria no Supremo Tribunal Federal (STF). Após a negociação, Cezinha teria tentado despachar junto ao gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, relator do caso.
As informações constam da representação da PF que levaram à operação desta segunda-feira (14) contra o parlamentar e sua esposa e foram tornadas públicas pelo ministro Flávio Dino, do STF. 'Tu vais fazer mais um' disse advogada a Cezinha de Madureira sobre indicação de Messias PF cita atuação de Cezinha em processos relatados por Fachin e Nunes Marques
Os diálogos de WhatsApp foram encontrados no celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca e apontada como uma das principais operadoras do orçamento secreto durante a presidência de Arthur Lira (PP-AL) na Câmara dos Deputados. Ela seguia com cargo na Presidência da Câmara auxiliando Hugo Motta (Republicanos-PB) até ser alvo de buscas da PF ano passado em uma investigação sobre suspeitas de desvios de emendas parlamentares.
Foi a partir dessa operação que a PF identificou a atuação de Tuca junto com Cezinha para tentar vender influência junto a ministros de tribunais superiores, incluindo o próprio STF. Em um dos diálogos, a PF encontrou mensagens entre Tuca e Valéria nas quais elas discutem um contrato com um escritório de advocacia que defendia um político com processo no STF, que está sob relatoria de Nunes Marques.
O primeiro documento previa pagamento de R$ 1 milhão ao escritório de Tuca em caso de êxito na Reclamação 81.608, movida por um ex-secretário de Educação de Belford Roxo (RJ), Denis de Souza Macedo. Ele foi preso ano passado em uma operação da Polícia Federal que investiga desvios de R$ 112 milhões de recursos do Fundo de Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). A reclamação é justamente contra o delegado da PF no Rio de Janeiro que atuou nessa operação e estava com outro escritório de advocacia até o escritório de Tuca entrar no caso.
Na sequência das mensagens, Tuca envia uma proposta de aditivo ao contrato prevendo agora R$ 2 milhões em caso de soltura do ex-secretário de Belford Roxo. O trecho da investigação tornado público por Dino não deixa claro se a contratação foi efetivada neste valor, mas o nome de Mariângela Fialek consta no processo no STF até hoje como uma das advogadas de Denis.
Na sequência, a decisão do ministro Flávio Dino cita ainda um diálogo entre Tuca e Cezinha de Madureira sobre este processo no qual ela reclama da dificuldade em falar no gabinete de Kassio Nunes Marques e o parlamentar indica que iria despachar o assunto pessoalmente com ele.
"Em 21/08/2025, após a resposta protocolar do Gabinete do Ministro Nunes Marques a pedido de audiência formulado por e-mail na Rcl 81.608, Mariângela manifestou-se de forma reveladora quanto à natureza da via que habitualmente utilizava", diz a decisão do ministro, que transcreve as mensagens de Tuca na sequência:
“Nossa / Fiquei arrasada — Maria Claudia vendo que sou eu. Ministro Gilmar sabe, Guiomar (possível referência à ex-esposa de Gilmar Mendes), ela poderia ponderar que eu advogada etc. Nunca eu faria isso — FDP / Eu já deixei de pegar por conta de amigo / Vou falar Arthur / Largo eles todos / Não me ajudam com nada e ainda me atrapalhar?”, afirmou Tuca.
Em resposta, o deputado comentou: "Calma” [...] 'Deixa eu ir lá sentir'". No dia 28 de agosto, sete dias após esse diálogo, o parlamentar falou com a advogada “me manda aqui o print do pedido da agenda novamente”. Para Dino, o teor do diálogo evidencia "o prosseguimento da gestão pessoal do pleito". A decisão do ministro, porém, não traz mais detalhes sobre o desfecho do caso.
Procuradas, as defesas de Tuca e Valéria Linhares ainda não se manifestaram. A defesa de Cezinha de Madureira nega irregularidades e afirma, em nota, que o deputado está à disposição das autoridades e prestará todos os esclarecimentos necessários.
“O deputado está certo de que, assegurados o contraditório e o amplo acesso da defesa aos elementos da investigação e à integra do processo, os fatos serão devidamente esclarecidos no devido processo legal, com a demonstração de que nenhuma irregularidade foi cometida”.
Valor