Praticar atividade física na areia é uma tradição das nossas cidades praianas. Para além dos tradicionais vôlei de praia, futevôlei e corridas na beira do mar, são cada vez mais comuns nas orlas as redes de beach tennis, as traves de beach soccer e os equipamentos de treino funcional. A instabilidade da areia incrementa o trabalho muscular e potencializa tanto o gasto calórico quanto a resistência cardiorrespiratória, e o ganho de bem-estar ao se exercitar ao ar livre é um atrativo a mais, especialmente entre adolescentes. — Eu gosto muito de ir à praia, e na aula eu posso fazer o meu esporte estando na areia — conta o estudante Enzo Carvalho Magalhães da Matta, de 14, que faz aula de futevôlei há dois anos, e também é fã de altinha. — Já fiz escolinha de futebol, mas saí, porque o futevôlei é mais dinâmico, mesmo sendo mais difícil. E você não precisa de tantas pessoas pra jogar: chama quatro pessoas e pronto. O adolescente é aluno de Eli Pinheiro, que mantém a escolinha Black Futevôlei há mais de 20 anos nas areias da praia do Leblon. Seu nome é famoso na região: são gerações de alunos e ex-alunos. Numa mesma turma, reúne jovens adultos, idosos, crianças e adolescentes. — Nos últimos anos, percebemos um crescimento bastante significativo da procura pelo futevôlei pelo público infantojuvenil, principalmente no período pós-pandemia. A prática nessa fase é muito importante, porque o esporte contribui para o desenvolvimento da aptidão física e do cognitivo, aprimora a força muscular, a saúde óssea e a coordenação motora. É um exercício completo para a saúde mental e bem-estar físico — o treinador resume. Lidar com o comportamento errático da bola, afetado pela areia, o vento e a umidade, é um desafio extra nos esportes praticados nas praias. O solo fofo traz desafios e benefícios para o corpo. Diferentemente dos treinos nas quadras de piso rígido, os alunos, ao executar os fundamentos, têm de lidar com a manutenção do equilíbrio, e fazer a todo tempo ajustes nos pés, tornozelos, joelhos, quadril e tronco, destaca Pinheiro.
O amortecimento natural que a areia proporciona dá mais segurança articular — mais um ponto positivo, em se tratando de jogadores ainda em fase de crescimento. Em relação à prevenção de contratempos, dois cuidados são essenciais: proteção solar e hidratação constante. — Na areia, o trabalho de força é grande, aeróbio e anaeróbio. Quem pratica esporte na praia sabe: tudo cansa muito mais. Buscamos também a criação de uma relação positiva da criança e do jovem com a atividade física, para que eles tenham prazer em se movimentar, e mantenham isso pelo resto da vida — diz Pinheiro. Enzo, de 14 anos, pratica futevôlei há 2 anos Arquivo pessoal Se o futevôlei faz sucesso há décadas, tendo sido criado ainda nos anos 1960 e ganhado popularidade entre astros do futebol carioca nos anos 1980 e 1990, o beach tennis vem se consolidando mais recentemente. Josué Martins de Jesus, conhecido como Romarinho, é professor de diferentes faixas etárias, na praia, perto do Jardim de Alah, e também no Clube dos Caiçaras, na Lagoa. Com 30 anos de experiência, ele lembra que a popularização do esporte entre os mais jovens demorou: — Acho que havia um certo preconceito: o beach tennis era encarado como um esporte de pessoas mais velhas. Mas quando a garotada percebeu que é um esporte mais fácil do que se pensa, e que mesmo aos oito ou nove anos dá pra jogar com o pai, a mãe, os avós, isso mudou. Hoje em dia, eu tenho turmas fechadas em que jogam três gerações juntas, o que é muito difícil de se ver em outros esportes. Em busca da redução do tempo dos jovens ao celular, vendo televisão e usando outros dispositivos eletrônicos, as famílias vêm encontrando nestas atividades uma ferramenta eficaz, apontam os instrutores. A liberação de endorfina, a satisfação vinda da superação dos desafios físicos, as relações que são estabelecidas com os pares e o senso de pertencimento são outras vantagens que observam.
— O esporte na adolescência ajuda a manter uma rotina saudável, melhora a autoestima e previne o isolamento do adolescente. Vitória, derrota, frustração, tudo é aprendizado para lidar com as emoções — enumera Romarinho. — Na areia, tem as vantagens do baixo impacto e do aprimoramento da consciência corporal e da necessidade da velocidade da reação. E é divertido e apaixonante: tem corrida, tem salto, tem tudo! Para o instrutor de beach soccer Rafael Cobra, há 23 anos nas quadras de areia, as telas têm sido um oponente duro: — Hoje em dia, estamos competindo muito com o tempo digital, seja o celular ou o videogame. Vejo que as crianças e adolescentes têm pouca motivação para a prática esportiva, então é preciso que os pais estimulem. O fato de estarmos na orla ajuda — considera Cobra, que é treinador das categorias de base do Botafogo e membro da comissão técnica da Seleção Brasileira de Beach Soccer. E tem mais: as atividades em áreas abertas ainda diminuem a transmissão de doenças respiratórias, ressalta Gustavo Lopes, educador físico e personal trainer que há 17 anos trabalha com o público infantojuvenil. — Praticar o esporte na praia contribui ainda mais para a saúde mental, por diminuir o estresse. O ideal para as crianças e adolescentes é que essa atividade seja coletiva, para que desenvolvam também habilidades sociais e emocionais como cooperação, resolução de conflitos, comunicação e autoconfiança.
O Globo