Espelho de São Paulo, Congonhas chega aos 90 como imperfeito orgulho da aviação nacional

 

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A "prainha" não tinha água nem areia. Era um terraço a céu aberto, localizada no alto do terminal, com vista para a pista, onde aviões pousavam e decolavam a menos de 50 metros do corrimão de aço escovado do hoje nonagenário Aeroporto de Congonhas, um dos corações da maior cidade da América Latina. Paulistanos de todas as idades cravaram o apelido e fizeram do local um dos mais concorridos passeios de domingos e feriados. Famílias juram que havia algo de mágico lá. Boêmios encerravam a madrugada no café, que nunca fechava. E adolescentes interioranos atravessavam o estado inteiro de ônibus apenas para sentir o cheiro do querosene e sonhar com o cockpit das aeronaves.

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"Prainha" de Congonhas deu lugar a restaurantes e escritórios

Acervo Flap Internacional

Cezar Paes Pulschen foi um deles. Criado em Santos, ele pegava o coletivo rumo à capital nos dias de folga, movido por uma atração que não conseguia nomear. Hoje, do alto de meio século dedicado à aviação, o comandante da Gol conta carregar Congonhas no peito com a mesma intensidade do menino que ficava horas "na prainha, hipnotizado pelo ruído das turbinas".

— Não existiam fingers (pontes de embarque), não existia nada. Os aviões ficavam no pátio, você ouvia o barulho deles funcionando, sentia o cheiro do combustível, era tudo muito sedutor — recorda Pulschen. — Em Congonhas ficavam as sedes das grandes empresas aéreas. Todos nós, pilotos recém-formados, batíamos ponto no cafezinho, tentando descobrir qual delas tinha nova vaga.

Aeroporto chega aos 90 anos

Maria Isabel Oliveira

Neste domingo, 12 de abril, o Aeroporto de Congonhas completa 90 anos. Não se trata, no entanto, da data inaugural de uma obra acabada. O terminal, exatamente como a cidade que o engoliria, também nasceu inacabado. A conta é feita a partir do registro oficial de uma história que começou, na prática, dois anos antes. Em 1934, uma enchente do Rio Tietê fechou o ainda mais ancião Campo de Marte por quatro meses e forçou a antecipação das operações no terreno plano e bem drenado da Vila Congonhas, então um descampado às margens da estrada que seguia para Santo Amaro, em uma São Paulo de "apenas" 1 milhão de habitantes.

A origem do aeroporto guarda ironia quase secreta. Não foi fruto de planejamento público, mas nasceu de uma jogada do mercado imobiliário. Interessada em valorizar loteamentos na região, uma empresa construiu uma pista experimental para decolagem e pouso em apenas 20 dias. Em seguida, publicou um anúncio de capa nos jornais convidando a população para uma "tarde de aviação" em 12 de abril de 1936.

Movimento intenso na entrada do aeroporto

Maria Isabel Oliveira

Pilotos famosos fizeram acrobacias e levaram passageiros para voos de dez minutos a 50 mil réis, uma pechincha. Ao final, todos assinaram um manifesto elogiando o terreno. Foi o suficiente para selar a escolha da área para o novo aeroporto da futura metrópole que hoje tem 12 milhões de moradores, ou quase o dobro se incluída a Grande São Paulo.

Art déco e glamour nos anos dourados

Menos de duas décadas depois, nos anos 1950, Congonhas já era muito mais do que um terminal. Tornara-se o endereço mais cobiçado do Brasil. Em 1951, a Aeronáutica contabilizava cerca de 1 milhão de passageiros, quase metade da população da capital paulista. Seis anos depois, o aeroporto já era o terceiro no mundo em volume de carga aérea, atrás de Londres e Paris.

A revista Manchete descreveu à época um cenário que hoje soa impossível, povoado por engraxate, barbeiro, florista, radiotelegrafia internacional, pronto-socorro, agência bancária e, no último andar, um salão de festas com restaurante, palco e camarins de luxo. Por ali transitavam o então presidente Juscelino Kubitschek, a atriz alemã Marlene Dietrich, a rainha Elizabeth II da Inglaterra, o craque Pelé e o outro rei, o da música, Roberto Carlos.

A arquitetura do saguão central, concebida pelo arquiteto paulista Hernani do Val Penteado, abraçava o imaginário aeroespacial. Além dos corrimões de aço escovado, o teto ovalado simulava um céu estrelado. O celebrado piso xadrez em preto e branco é preservado até hoje. Luiz Antônio Ribeiro, 64 anos, carregador de bagagens há 27 anos no terminal, é testemunha das transformações:

O aeroporto em 1936, quando tudo começou, na base dos mil-réis

Acervo Flap Internacional

— Antes a gente tinha muito mais serviço, os passageiros passavam por aqui com menos urgência. Apesar de todas as mudanças, ainda gosto demais de estar aqui, pretendo ficar até quando Deus permitir.

O que um dia era descampado virou bairros hoje conhecidos, entre eles Moema, Jabaquara, Campo Belo e o Brooklin. O aeroporto central transformou-se em um terminal encravado entre prédios, e o vizinho tão admirado passou a ser percebido como um incômodo. Na década de 1970, as reclamações do barulho dos jatos tornaram-se insustentáveis e o funcionamento foi restrito ao período entre 6h e 23h — como é até hoje.

— Quando fazíamos a aproximação a Congonhas, a gente via a floresta da Serra do Mar. Isso não existe mais. As áreas verdes que se destacam nas proximidades hoje são o Parque de e Interlagos e o Ibirapuera. De resto, é a selva de pedra que conhecemos — lamenta Pulschen.

Inaugurado em 1985, o Aeroporto Internacional de Guarulhos esvaziou Congonhas. Desapareceram metade dos passageiros. A recuperação foi impulsionada por empresas então regionais, entre elas a TAM e a Rio-Sul, com seus jatos menores, adaptados à pista mais curta. O taxista Reinaldo Coutinho Filho chegou ao aeroporto nesse período:

— O que seria São Paulo sem Congonhas? Já pensou ter que descer em Guarulhos para ir até o Centro? Com todos os problemas, sou muito grato a este aeroporto.

O motorista conta carregar também memórias dolorosas, que a gratidão não apaga. Ele estava no entorno quando o primeiro grande acidente em Congonhas sacudiu o terminal. Em 31 de outubro de 1996 um Fokker 100 da TAM caiu 65 segundos após a decolagem. Noventa e nove pessoas morreram. Ele também estava no local na tarde de 17 de julho de 2007, quando o voo TAM 3054 não conseguiu frear na pista molhada e se chocou contra um depósito da companhia, causando 199 mortes — o maior acidente aéreo da história brasileira.

— Nunca vou esquecer o dia que vi a queda do Fokker 100. Estava na avenida, indo para a cidade. O aeroporto parou, mas se recuperou. Quem mora em São Paulo não se assusta com mais nada — sentencia.

A engrenagem humana

Aos 90, o aeroporto emprega mais de sete mil pessoas, processa mais de 24 milhões de passageiros por ano e interliga 45 destinos com cerca de 540 voos diários. Fábio Alberto Esmeria, 39, coordenador de serviços, nunca havia chegado perto de um avião antes de entrar na Infraero, em 2011. Após mais de uma década, descreve a aviação como uma paixão daquelas. Separar-se é impossível.

— Congonhas é o centro de muita coisa. Você vê no embarque gente chorando de tristeza pois está se despedindo de alguém querido; no desembarque, os choros são da alegria dos reencontrandos. É muito especial contribuir com a história dessas pessoas — diz Esmeria.

Em junho de 2028, Congonhas estará de cara nova — mas continuará sendo o mesmo. O novo terminal dobrará a área atual, de 45 mil para 105 mil metros quadrados, com 20 mil metros quadrados de comércio, 19 novas pontes de embarque, 37 posições para aeronaves e 215 mil metros quadrados de pátio de manobra.

Angela Sipoloni e Walter Stanis trabalham na segurança de Congonhas e dividem duas décadas de história no terminal. Stanis guarda com carinho as memórias de infância, quando visitava a "prainha" com o avô, e as da Copa do Mundo de 2014, quando Congonhas recebeu 19 seleções.

— Aqui temos a sensação de estar andando pela História. Tenho um carinho muito grande pelo terminal — conta Stanis. — É, sozinho, uma cidade em movimento, quase 100 mil pessoas circulam aqui diariamente. E o mais apaixonante são as histórias em que nos envolvemos, dos objetos proibidos no raio-x às vidas que salvamos no saguão — completa Angela.

Lívia Brunes, gerente de planejamento de infraestrutura aeroportuária, trabalha há vinte anos na aviação, quatro deles no comando das operações de Congonhas.

— O maior diferencial desse aeroporto é comportar, ao mesmo tempo, a malha de lazer e o cliente corporativo. E é uma complexidade deliciosa. Fazer parte desse motor é o marco central da minha carreira — afirma.

Foi o comandante Pulschen quem ofereceu ao GLOBO a imagem que sintetizou com maior precisão os 90 anos de Congonhas. Ele encerrou a entrevista, de sua casa, em Atibaia, pois precisava partir para Congonhas. Não para voar, mas para receber o filho, que mora na Inglaterra. Não o via há um ano e meio. Vinha para São Paulo após compromissos em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. O pai foi buscá-lo naquele mesmo saguão xadrez onde décadas antes procurava emprego entre um café e outro. Em seguida, o levaria até Guarulhos, para a conexão de volta à Europa.

Poucos minutos juntos. E Congonhas, rumo ao centenário, em sua melhor forma.

— Emoção é o que o aeroporto propicia — diz, com a voz mais baixa. — Mesmo com menos voos para o terminal, meu coração vai sempre estar ali. Ele fica em Congonhas.

Em Congonhas, a semana do aniversário reservou mais um capítulo inesperado dessa história. Na quinta-feira, uma falha na torre suspendeu as operações por uma hora. Cena que é quase uma metáfora exata do aeroporto e da cidade que ele espelha. Imperfeito, pressionado, às vezes no limite. Mas que sempre volta a voar.