Especialistas propõem para candidatos ao Governo do Estado mudanças no sistema de saúde do Rio

 

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A sete meses das eleições, especialistas, gestores e representantes da sociedade civil se reuniram, nesta segunda-feira, no Palácio Capanema, para elaborar uma agenda estratégica para a Saúde do Estado do Rio. Um ponto comum da discussão foi a necessidade uma profunda reorganização do sistema como um todo. Mudanças como integração entre municípios, maior regionalização da rede e transparência na gestão foram apontadas como essenciais para combater o acesso desigual, as filas e a falta de recursos.

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O debate, mediado por Eloy Oliveira, faz parte de uma série de encontros promovidos pela ONG RioAgora.org, iniciativa apartidária e sem fins lucrativos com o objetivo de desenvolver propostas para subsidiar programas de governo e agendas legislativas dos candidatos do Estado a governador, senador e deputados federais e estaduais. Todas as propostas serão disponibilizadas ao público em uma plataforma online após o último encontro temático, no dia 13 de julho.

No encontro, o ex-ministro da Saúde, José Gomes Temporão, apontou a integração entre os municípios como um meio de reduzir filas e otimizar atendimentos. Ele também sugeriu como proposta fortalecer o complexo industrial de pesquisa e investir em políticas de promoção e prevenção de doenças crônicas.

— Questões como o tempo de espera, a qualidade e o acesso à saúde exigem diálogo entre municípios. Não faz sentido pensar no município do Rio, e não considerar a Baixada e a Região Metropolitana, por exemplo. Fora isso, o estado tem uma capacidade de desenvolvimento e inovação muito grande, com a Fiocruz, as universidades e a produção científica — pontua Temporão, médico sanitarista e pesquisador.

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Um meio de otimizar o atendimento à população é reorganizando o modelo de atenção de saúde, segundo aponta Ricardo de Oliveira, ex-secretário de Gestão e de Saúde do Espírito Santo, e conselheiro do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Ele cita como modelo o projeto de Planificação da Atenção à Saúde, capitaneado pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass).

— A maior parte das pessoas está morrendo por doenças crônicas, que deveriam ser a prioridade do atendimento. Mas o nosso modelo está muito voltado para doenças agudas. Na planificação, é criado um ambulatório com diversas especialidades médicas, onde o atendimento organizado por datas. Por exemplo, em um dia, um diabético passa por todos os médicos que precisa, de cardiologista a nutricionista — explica o ex-secretário, que implementou o projeto no Espírito Santo. O custo, segundo ele, é baixo, uma vez que a consultoria é feita pelo próprio Conass.

— É uma consultoria, então já existe toda uma inteligência de como reorganizar o modelo. O Conass oferece treinamento e capacita as pessoas do estado. Funciona em 23 estados do país, mas ainda não chegou ao Rio de Janeiro. É de emocionar. Eu vi os profissionais trabalhando mais motivados porque sentiram que estão realmente ajudando as pessoas a tratar problemas de saúde — ressalta.

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A violência contra a mulher também foi trazida como um problema de saúde pública que precisa avançar na política do estado, como apontou a enfermeira Kelly Carvalho Queiroz, da Secretaria Municipal de Saúde do Rio. Em 2024, ela ganhou o Prêmio Espírito Público na categoria Saúde, pelo trabalho de acolhimento a vítimas de violência na Sala Lilás do IML de Campo Grande.

— O maior desafio é a padronização e humanização do atendimento. O Rio precisa pensar em implantar a classificação de risco, que é usada nas UPAs, também nos casos de violência doméstica. Quando uma vítima chega em uma emergência relatando um caso de abuso, por exemplo, deveria ter uma sala separada para atendê-la, evitando mais constrangimento. E padronizar a classificação do risco, de acordo com a gravidade da lesão e do estado emocional dela. Hoje isso não é padronizado — afirma Kelly.

Outro gargalo é a ausência de um sistema padronizado e interligado não só entre municípios e estados, mas entre os próprios órgãos do governo.

— As informações ficam perdidas. Se a gente consegue compartilhar os dados entre os órgãos, classificando o risco que essa mulher tem, a gente pode acionar outros dispositivos que compõem a rede de proteção dessa mulher em situações de violência — acrescenta a enfermeira.

Miguel Lago, cientista político especializado em governança e avaliação de políticas públicas, apontou como medida fundamental para o setor a regionalização da saúde no estado. Segundo ele, o Rio possui uma estrutura hospitalar e médica boa, mas mal distribuída, o que provoca longos períodos de deslocamento de pacientes.

— Há pessoas com câncer ou que fazem hemodiálise que não conseguem atendimento perto de casa. É inadmissível que eles precisem viajar para ter acesso à saúde. Dá para mudar isso com a infraestrutura existente, com uma regionalização que pense nos pacientes e não no recorte político-administrativo — afirma ele, que fez um apelo para maior transparência do sistema:

— O sistema de saúde do estado do Rio de Janeiro precisa de uma reorganização e de mais transparência, principalmente na gestão de OSS. Os gestores delas não podem ser nomeadas por políticos — acrescenta ele, em relação às Organizações Sociais de Saúde, entidades privadas sem fins lucrativos que firmam contratos com a administração pública para gerenciar hospitais, UPAs e unidades básicas de saúde (UBS) no estado e município.

Tudo isso influencia na expectativa de vida da população fluminense, mais baixa do que a de outros dez estados do país, segundo apontou Ligia Bahia, professora de Medicina da UFRJ e doutora pela Fiocruz.

— A expectativa de vida da população do Rio de Janeiro é incompatível com o desenvolvimento econômico do estado. Isso tem que entrar na agenda de políticas públicas. Precisamos de mais investimento de saúde, proteção aos riscos, melhorar a atenção básica e ter acesso a diagnósticos precoces. A população fluminense vive menos do que a de pelo menos dez outros estados brasileiros — afirma, destacando que, em países desenvolvidos a longevidade é vista como um indicador de qualidade de vida e de eficácia das políticas de saúde.

A ONG

Fundada pelo economista Guilherme Cezar Coelho, a ONG RioAgora.org surgiu com o intuito de apoiar a criação de políticas públicas, bem como suas estratégias de implementação, contribuindo para uma gestão pública mais eficiente e orientada a resultados.

— É máxima inteligência, com máximo pragmatismo, para o nosso Estado. O Rio de Janeiro é o máximo. Agora, precisamos de uma agenda mínima, prioritária, para fazer isso ser verdade para todas as pessoas que moram aqui. O objetivo é transformar o Rio de Janeiro no mais dinâmico estado brasileiro nos próximos 10 anos, com mais crescimento econômico, melhor distribuição de renda e o serviço público mais competente do país — afirma.