Especialista explicam quais os riscos para os EUA se Trump decidir lançar ação terrestre no Irã

 

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Pouco mais de um mês após o início da guerra no Oriente Médio, os Estados Unidos têm obstáculos claros para enfrentar antes de encerrar a operação militar contra o Irã no Golfo Pérsico. Uma das principais preocupações americanas é liberar a passagem no Estreito de Ormuz, bloqueado desde 2 por Teerã, o que tem impactado duramente a economia global. Além deste, Trump tem outro desafio fundamental: sair do conflito com prova de vitória. E em pouco tempo.

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O Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos (PPGEM) da Escola de Guerra Naval (EGN), André Beirão, explica que um elemento essencial de um conflito dessa escala é "neutralizar o poder".

— Muito raramente em qualquer tipo de combate você ganha só com ações à distância — diz o especialista, referindo-se à ofensiva aérea lançado por EUA e Israel. — Em algum momento você tem que deixar claro que neutralizou o poder daquele lugar e que o assumiu.

Ele destaca que a ação militar dos EUA contra o regime de Nicolás Maduro na Venezuela, executada em 3 de janeiro, é "a exceção que comprova a regra", uma vez que "apenas uma ação pontual com meia dúzia de infiltrados" foi suficiente para atingir o objetivo.

Um ponto decisivo para o sucesso dessa neutralização foi a postura colaborativa de Delcy Rodríguez, que assumiu o governo em Caracas sem confrontar os planos de Washington, fator determinante para que uma operação com tropas terrestres no país sul-americano fosse descartada por não ser necessária.

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Editoria de Arte/O Globo

Para diversos analistas, o sucesso estratégico-militar da operação em Caracas, que resultou na captura do líder chavista sem baixas entre as tropas americanas, inflou a confiança do governo Trump de que poderia executar uma ação semelhante, com mesmo grau de êxito, em Teerã.

Mas isso não tem acontecido na prática. Mesmo após a morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, e de diversas outras autoridades de alto escalão, o regime teocrático segue operando. Diante dessas diferenças, Trump agora tem de enfrentar outro fator agravante para conseguir declarar que neutralizou o poder no Irã: o tempo.

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Agenda cheia

Para o professor de Geopolítica e Oceanopolítica da EGN, Leonardo Mattos, Trump tem prazo apertado para finalizar esse conflito, visto que o governo americano tem muitos compromissos agendados para 2026. O primeiro deles, o encontro bilateral com o presidente chinês, Xi Jinping — inicialmente previsto para o início de abril e adiado para meados de maio por conta da guerra — não deve ser adiado novamente, analisa Mattos.

Em junho tem início a Copa do Mundo da Fifa, sediada nos EUA, Canadá e México, que terá Nova York como palco da final, em 19 de julho. Ainda neste período, em 4 de julho, os EUA vão celebrar os 250 anos de sua independência com vários eventos importantes, inclusive militares. Poucos meses depois, o país entra em período eleitoral, com eleições legislativas — e algumas estaduais — marcadas para novembro.

Diante do calendário cheio e da falta de avanço nas negociações com o Irã, uma das opções que se apresentam é a possibilidade de uma incursão terrestre em território iraniano.

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Alternativas arriscadas na mesa

Especialistas têm destacado com ênfase que uma tomada de poder por uma ação militar terrestre em Teerã, como aconteceu no Iraque em 2003, seria quase impossível. Fatores como a geografia diferenciada do terreno, de relevo montanhoso, e a preparação intensa que o regime dos aiatolás tem executado para lidar com tal cenário diminuem substancialmente as chances de sucesso americano.

Outras opções, considerando as tropas e recursos disponíveis na região, seriam a tomada da ilha de Kharg, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo iranianas e reiteradamente ameaçada por Trump, ou a invasão de outras ilhas menores, localizadas perto do Estreito de Ormuz.

Com a baixa do USS Gerald Ford, maior porta-aviões do mundo, que teve de ser enviado para reparos após enfrentar uma série de problemas, o Pentágono enviou um terceiro porta-aviões para a região e dois grupos de assalto anfíbio. Um deles, liderado pelo navio USS Tripoli, foi deslocado do Japão. Esse movimento específico, avalia Mattos, diz muito sobre a necessidade americana a esta altura do conflito.

— Esses cerca de 2.200 fuzileiros navais a bordo desse grupo são feitos para estar de prontidão contra qualquer ação da China. Então, tirá-los do Japão e mandá-los para o Oriente Médio é um sinal de que estão precisando — ressalta.

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Somando esse reforço ao do outro grupo anfíbio, comandado pelo navio USS Boxer — deslocado desde San Diego e previsto para chegar ao Oriente Médio neste mês com mais 2.500 fuzileiros — e a 82ª Brigada, uma unidade do Exército americano especializada em ações de ataque rápido em territórios hostis, os EUA contam com cerca de 50 mil soldados na região, 10 mil a mais do que o normal.

Com a possibilidade de realizar uma invasão tradicional no território iraniano descartada, e mesmo com um contingente maior na região, os planos de tomar a ilha de Kharg ou qualquer outro terreno próximo ao estreito seriam altamente arriscados para as tropas americanas. No caso das ilhas que cercam a entrada do Golfo, como Qeshm e Kish, o risco se concentra na proximidade delas com o continente, o que deixaria os soldados muito expostos e vulneráveis a ataques iranianos.

Ilha de Kharg

Agência Espacial Europeia via AFP

A tomada da ilha de Kharg, por outro lado, garantiria uma blindagem adicional aos americanos, uma vez que Teerã não realizaria ataques descontrolados contra o local, pelo risco de destruir ou danificar a infraestrutura petrolífera da ilha.

Neste cenário, os navios americanos não entrariam no Golfo Pérsico, dada a impossibilidade de cruzar o estreito em segurança. Diante de mais esse fator limitante, Mattos explica que as tropas americanas teriam que se movimentar de helicóptero e isso também colocaria os fuzileiros em mais uma situação de vulnerabilidade.

— Se os EUA posicionarem os navios anfíbios ali no Mar da Arábia, que é mais próximo de Omã, há uma distância de cem quilômetros, mais ou menos, até o Estreito de Ormuz. Mas de lá para Kharg são de 600 a 800 quilômetros, dependendo da posição em que o navio esteja. Isso representa um tempo de voo muito grande para esses militares ficarem expostos nos helicópteros — detalha o especialista.

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Custo político elevado

A perda de vidas americanas, sem garantia de que os EUA consigam neutralizar o poder do regime iraniano, representa um dos principais riscos dessas abordagens, tendo impacto político para o presidente. Esse cenário prejudicaria consideravelmente a percepção do eleitorado dos EUA sobre o governo Trump — que foi eleito sob promessa de centrar-se nos problemas internos do país — e consequentemente sobre os aliados republicanos. A decisão de realizar ou não uma incursão terrestre no Irã, destaca Beirão, envolverá danos colaterais independente da escolha que a Casa Branca faça.

— Em minutos as pessoas verão soldado americano morrendo e criança iraniana morrendo. Isso tem um custo político. E existe também o custo político de ir até lá, usar todo o poder bélico da força que se diz superior e não conseguir neutralizar o poder — diz o professor.

Para Mattos, entre os recursos conhecidamente apresentados pelos EUA, uma ação mais segura e precisa provavelmente seria conduzida pela 82ª Brigada, partindo de bases como a da Otan na Turquia ou de complexos americanos na Arábia Saudita.

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É diante desta teia de entraves que Washington tenta tocar negociações com Teerã por meio de mensagens repassadas via autoridades paquistanesas. Segundo o especialista, esta se apresenta como uma alternativa aos revezes políticos de colocar tropas no terreno e não conseguir neutralizar o poder local, ao mesmo tempo em que exerce pressão com o reforço da presença militar na região. Beirão ressalta que o histórico de decisões do presidente americano demonstra que “Trump não costuma blefar”.

— No instante em que ele já fez a opção de atacar o Irã eu acho pouco provável que ele recue diante de um eventual dano colateral de colocar tropas em terreno. Eu acho que ele prefere arcar com esse custo, que é alto, mas continuar garantindo a credibilidade de, que quando ele ameaça, ele vai até o fim até conseguir — pontua.

Na segunda-feira, Trump disse ao Financial Times que as forças americanas atingiram 13 mil alvos no Irã desde o começo da guerra, e ainda têm 3 mil em vista para atacar. As forças israelenses anunciaram que destruíram mais de 80% dos sistemas de defesa aérea do Irã, e o premier israelense, Benjamin Netanyahu declarou em entrevista que Israel já alcançou “mais da metade de seus objetivos” no conflito. Apesar das declarações, Beirão chama a atenção para o grau de mobilização das forças terrestres iranianas, outro ponto central desta dinâmica.

— A capacidade de defesa terrestre num país tão mobilizado para o combate corpo a corpo ainda não foi testada. E ao colocar tropas no terreno, Trump vai lidar com um ser humano que teve suas capacidades muito pouco afetadas até agora no tipo de combate que foi feito — frisa o especialista. — O combate vai ser muito mais intenso, muito mais de igual para igual. Ainda que a superioridade tecnológica americana apareça até no combate de terra, 100 formigas comem um rato, por maior que ele seja.