Há exatos 60 anos, num galpão alugado na Avenida Afrânio de Melo Franco, num Leblon ainda distante do requinte com o qual passaria a ser associado, os produtores Max Haus (1935—2013) e Moysés Ajhaenblat (1935—2024) e os jornalistas Sérgio Cabral (1937—2024) e Moysés Fuks inauguraram o café-teatro Casa Grande (rebatizado como Axia Casa Grande em maio, em um contrato de naming rights de três anos).
Nas décadas seguintes, o espaço se consolidou com um dos principais palcos cariocas (e o maior da Zona Sul da cidade), e abrigou diferentes momentos das artes cênicas brasileiras.
Nesta terça-feira (25), a data será celebrada com uma leitura, para convddados, de “Nelson Rodrigues por ele mesmo” de Fernanda Montenegro, que voltará em sessões em setembro.
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A abertura em 25 de agosto de 1966, com nomes como Elis Regina, Nara Leão, Maria Bethânia, Moreira da Silva e Quinteto Villa-Lobos, marcou sua importância para a geração que lançou as bases do que viria ser batizado como MPB — nos anos seguintes, passaram pelo palco artistas diversos como Chico Buarque, Gal Costa, Elba Ramalho, Kleiton e Kledir.
As montagens teatrais tiveram seu primeiro grande momento com “Brasileiro, profissão: esperança” (1971), de Paulo Pontes, com Ítalo Rossi e Bethânia no elenco, cujo sucesso ajudou a pagar as dívidas contraídas pelos fundadores para a reforma realizada em 1969.
O público testemunhou ali fenômenos como a sucessão de gerações do humor, do monólogo “Um gordoidão no país da inflação” (1983) aos textos de Miguel Falabella — “A partilha” (1990); “Como encher um biquíni selvagem” (1992), estrelado por Cláudia Jimenez; “Louro, alto, solteiro procura” (1994), com ele próprio em cena.
Montagens históricas também passaram pela casa, como “O mistério de Irma Vap” (1986), com Marco Nanini e Ney Latorraca, que lá ficou por três dos seus 11 anos em cartaz; a estreia no Rio de “A máquina” (2000), que revelou Lázaro Ramos, Wagner Moura, Vladimir Brichta e Gustavo Falcão; além dos musicais que transformaram a cena nos anos 2000 (veja abaixo peças marcantes que passaram pelo endereço).
Fachada do teatro
Ana Branco
Mas, além dos profissionais que passaram pelo palco, nas coxias gerações das famílias dos fundadores assumiram o espaço: atualmente, o Casa Grande é gerido por Leonardo e Silvia Haus (filhos de Max Haus) e Rodrigo Gerheim (filho de Moyses Ajhaenblat).
A terceira geração já está no batente com Eduardo e Gabriel Haus (filhos de Leonardo); Bernard e Arthur Haus (filhos de Silvia); e Thiago Gerheim (filho de Rodrigo) — na foto feita pelo GLOBO, a quarta geração é representada por Gael, filho de Eduardo Haus.
— Foi um ato de grande coragem inaugurar um teatro naquele período conturbado, início da ditadura, com um Leblon muito diferente do que se tornou.
A era de terra batida, sem iluminação pública, onde se chegava de bonde.
Temos que lembrar de que o Túnel Rebouças ainda não tinha sido inaugurado — contextualiza Leonardo Haus.
Para além de sua importância cultural, o Casa Grande também foi um espaço de resistência política, onde foram realizados encontros como os Ciclos de Debate, possibilitando a troca de ideias e informações em meio à repressão militar.
Na Abertura, o teatro abrigou o lançamento da campanha das Diretas Já!, em 1984, e foi o palco da cerimônia de assinatura do decreto que pôs fim à Censura, no ano seguinte.
O néon “Território da democracia” no lobby reforça essa parte da história.
— Os artistas e intelectuais criaram o Grupo Casa Grande, que organizou debates e cursos, mas também era uma forma alternativa de se reunir naquele período.
Depois, quando foram abertos os arquivos da ditadura, descobrimos que havia agentes mapeando essa movimentação — conta Silvia Haus.
— A gente, que cresceu e trabalha aqui dentro, muitas vezes perde a dimensão dessa importância.
Vira uma coisa cotidiana.
Por isso é tão emocionante quando artistas ou o público nos falam o quanto o teatro fez parte de suas vidas.
Néon no lobby
Ana Branco
A terceira geração se prepara para enfrentar desafios como os vividos pelos pais e avós.
Entre os momentos de tensão, o mais grave foi o incêndio que destruiu o espaço em 1997 — Leonardo se emociona ao lembrar o pai lhe dizendo, logo depois da tragédia: “A gente vai reconstruir.”.
Um orgulho que Thiago Gerheim, formado em Gerenciamento de Projetos e Negócios Internacionais pela Universidade Internacional da Flórida, passa à frente:
— Meu avô sempre quis que eu estivesse aqui, fazendo parte do teatro desde cedo, mas fiquei muito tempo fora do país.
Voltei há dois anos e desde então estou ajudando a escrever esses próximos capítulos, preservando e levando à frente esse legado.
Espaço histórico da cultura carioca e de resistência à ditadura, Teatro Axia Casa Grande completa 60 anos nesta terça-feira (25)
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